'Caso Milton' expõe a caixa-preta dos salários
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quinta-feira, 31 de agosto de 2000
Ed Carlos Rocha, Fernando Tupan e Marcos Freitas De Curitiba 
A disputa entre o Paraná Clube e o zagueiro Milton do Ó a respeito do passe do atleta trouxe à tona um assunto que é uma verdadeira caixa-preta no futebol: o recebimento por fora. Revoltado com o descaso da diretoria do Paraná Clube com a situação de Milton do Ó, que está afastado do time, o advogado do atleta, Augusto Mafuz, disse que o seu próprio cliente tinha em seus rendimentos itens não declarados oficialmente e, portanto, não-tributáveis, como ajuda de custo e luvas.
Milton do Ó não está só. Atletas dos três clubes de Curitiba, alguns sem se identificar, confessam que é comum no futebol esse tipo de acerto entre clube e jogador. Os diretores dos clubes desconversam.
Milton do Ó, que não tem dado entrevista por orientação do seu advogado, ganhava no Paraná Clube R$ 5 mil registrados na carteira profissional e pelo menos mais R$ 9 mil à parte. Reclamando de atraso nos salários, o que nega a diretoria do Paraná Clube, o jogador entrou na Justiça do trabalho para tentar conseguir o passe. Na semana que vem a 18ª Vara do Trabalho deve dar um parecer sobre o caso.
Questionado sobre o assunto, o diretor de futebol do Paraná Clube, Ocimar Bolicenho, não quis fazer comentários.
Prefiro não falar sobre isso - disse ele ontem à Folha.
O assunto, no geral, não é muito do agrado de quem está emvolvido com o futebol. Os jogadores pedem pelo amor de Deus, não escrevam isso quando aceitam falar.
Eu nunca entrei nesse esquema porque sempre lutei pelos meus direitos. Acho melhor receber tudo declarado para até ter maior fundo de garantia (Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço, o FGTS). Mas que existe o acerto, existe - afirmou à reportagem, ontem, um atleta do Atlético.
É um assunto perigoso da gente comentar, mas rola isso no meio futebolístico sim. O jogador prefere ganhar por fora porque acaba recebendo mais - confirmou outro atleta do Rubro-negro.
O atacante Kléber, do próprio Atlético, aceitou falar abertamente. Ele nega que já tenha feito contrato ganhando parte não declarada, mas confessa que o assunto não é estranho.
Comigo nunca aconteceu, mas a gente ouve por aí que tem muita gente que ganha por fora.
O coordenador de futebol do Atlético, Walmor Zimermann, afirmou que no passado essa situação era comum no clube.
Quando fui presidente do clube, em 84 e 85 e em 88, regularizei INSS e fundo de garantia atrasados. Hoje, o Atlético está profissionalizado e isso não acontece mais - garante o dirigente.
O meia Lúcio Flávio, do Paraná Clube, disse não fazer concessões na hora de renovar seu contrato. Não gosta de receber por fora e faz questão que apareça na carteira do trabalho o valor real do seu salário.
Cada jogador age conforme suas preferências. No meu caso eu gosto de deixar tudo transparente. Peço para os dirigentes colocarem todo o meu salário na carteira - diz ele.
No Coritiba, alguns jogadores abrem o jogo, mas sem se identificar.
É complicado porque faz parte de quase todos os clubes esta prática - admite um atleta coritibano.
O presidente do clube, Sérgio Prosdócimo, afirma que a questão faz parte da cultura futebolística brasileira e que demora um pouco para que isto acabe.
Com a profissionalização por completo dos clubes, a tendência é que o Caixa 2 desapareça - afirma Prosdócimo.
Ele não confirmou que no Coritiba haja a prática, apenas se limitou a dizer que neste momento não existe nenhum jogador que recebe por fora no clube.
O que existe é que hoje o jogador recebe o direito de imagem por ter seu nome e imagem veiculados na televisão - explica.


