A disputa entre o Paraná Clube e o zagueiro Milton do Ó a respeito do passe do atleta trouxe à tona um assunto que é uma verdadeira caixa-preta no futebol: o recebimento ‘‘por fora’’. Revoltado com o descaso da diretoria do Paraná Clube com a situação de Milton do Ó, que está afastado do time, o advogado do atleta, Augusto Mafuz, disse que o seu próprio cliente tinha em seus rendimentos itens não declarados oficialmente e, portanto, não-tributáveis, como ajuda de custo e luvas.
Milton do Ó não está só. Atletas dos três clubes de Curitiba, alguns sem se identificar, confessam que é comum no futebol esse tipo de acerto entre clube e jogador. Os diretores dos clubes desconversam.
Milton do Ó, que não tem dado entrevista por orientação do seu advogado, ganhava no Paraná Clube R$ 5 mil registrados na carteira profissional e pelo menos mais R$ 9 mil à parte. Reclamando de atraso nos salários, o que nega a diretoria do Paraná Clube, o jogador entrou na Justiça do trabalho para tentar conseguir o passe. Na semana que vem a 18ª Vara do Trabalho deve dar um parecer sobre o caso.
Questionado sobre o assunto, o diretor de futebol do Paraná Clube, Ocimar Bolicenho, não quis fazer comentários.
– Prefiro não falar sobre isso - disse ele ontem à Folha.
O assunto, no geral, não é muito do agrado de quem está emvolvido com o futebol. Os jogadores pedem ‘‘pelo amor de Deus, não escrevam isso’’ quando aceitam falar.
– Eu nunca entrei nesse esquema porque sempre lutei pelos meus direitos. Acho melhor receber tudo declarado para até ter maior fundo de garantia (Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço, o FGTS). Mas que existe o acerto, existe - afirmou à reportagem, ontem, um atleta do Atlético.
– É um assunto perigoso da gente comentar, mas rola isso no meio futebolístico sim. O jogador prefere ganhar por fora porque acaba recebendo mais - confirmou outro atleta do Rubro-negro.
O atacante Kléber, do próprio Atlético, aceitou falar abertamente. Ele nega que já tenha feito contrato ganhando parte não declarada, mas confessa que o assunto não é estranho.
– Comigo nunca aconteceu, mas a gente ouve por aí que tem muita gente que ganha por fora.
O coordenador de futebol do Atlético, Walmor Zimermann, afirmou que no passado essa situação era comum no clube.
– Quando fui presidente do clube, em 84 e 85 e em 88, regularizei INSS e fundo de garantia atrasados. Hoje, o Atlético está profissionalizado e isso não acontece mais - garante o dirigente.
O meia Lúcio Flávio, do Paraná Clube, disse não fazer concessões na hora de renovar seu contrato. Não gosta de receber por fora e faz questão que apareça na carteira do trabalho o valor real do seu salário.
– Cada jogador age conforme suas preferências. No meu caso eu gosto de deixar tudo transparente. Peço para os dirigentes colocarem todo o meu salário na carteira - diz ele.
No Coritiba, alguns jogadores abrem o jogo, mas sem se identificar.
– É complicado porque faz parte de quase todos os clubes esta prática - admite um atleta coritibano.
O presidente do clube, Sérgio Prosdócimo, afirma que a questão faz parte da ‘‘cultura futebolística brasileira’’ e que demora um pouco para que isto acabe.
– Com a profissionalização por completo dos clubes, a tendência é que o Caixa 2 desapareça - afirma Prosdócimo.
Ele não confirmou que no Coritiba haja a prática, apenas se limitou a dizer que neste momento não existe nenhum jogador que recebe por fora no clube.
– O que existe é que hoje o jogador recebe o direito de imagem por ter seu nome e imagem veiculados na televisão - explica.

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