Caso Battisti acirra ainda mais o clássico eterno
São Paulo - Na história, são 12 jogos. Cinco vitórias para cada lado, dois empates. Só em Copas foram quatro confrontos, e cada seleção levou a melhor em duas ocasiões. Até o número de gols marcados é igual: 19. Brasil e Itália fazem tira-teima hoje, em Londres, em confronto em que a rivalidade talvez esteja ainda mais acirrada, especialmente por parte dos europeus, em função do caso Battisti. Esse eterno clássico do futebol mundial transcende, por uma série de motivos, o campo de jogo.
Além de reunir as duas seleções com o maior número de títulos mundiais, cinco do Brasil e quatro da Itália, o confronto encerra uma carga emocional intensa. Brasil e Itália latinizam de modo diferente o futebol. É como se a latinidade se apresentasse de modo mais rico porque diversa, afirma o antropólogo Luiz Henrique de Toledo, professor da Universidade Federal de São Carlos e autor de três livros sobre futebol.
Quanto mais e melhor conhecemos um país, mais temos a chance de competir com ele em vários domínios. O Brasil recebeu um contingente expressivo de imigrantes italianos, assim como a Argentina também, e temos toda uma história dessa relação intercultural que anima nossas rivalidades, explica Toledo. Daí ser mais emocionante assistir a um Brasil e Itália do que a um Brasil e França, embora construamos já uma história de confrontos com os franceses da qual saímos como vítimas, diga-se de passagem.
O segundo encontro das seleções depois da final da Copa de 1994 houve um empate no Torneio da França, em 97 , trará a campo desta vez um ingrediente extra. Desde que o governo brasileiro concedeu refúgio político ao agitador Cesare Battisti, foi deflagrada uma onda de protestos na Itália, onde ele é visto como terrorista e foi condenado a prisão perpétua em função de quatro assassinatos cometidos na década de 1970. Até o ex-jogador Paolo Rossi, algoz do Brasil e campeão mundial em 1982, manifestou-se sobre o imbróglio. É preciso pressionar os brasileiros para obter a extradição, declarou.
Houve quem sugerisse até o cancelamento do amistoso, numa prova inconteste de que um jogo do porte de Brasil e Itália vai além do universo esportivo. A projeção identitária do futebol o faz transcender o espaço do jogo, sua profissionalização atesta o modo como se gerencia a complexa trama de emoções que ele instila. A mobilização por interesses variados, políticos e econômicos, e tudo isso o entrelaça às dimensões sociais, diz Toledo. E isso vai do indivíduo anônimo, que apenas torce, ao presidente da República, que sente os efeitos de poder que emanam de sua aproximação com ele (o futebol).
A força de um esporte universalizado como o futebol, no entanto, tende muito mais a aproximar do que a afastar os povos. O futebol nos impregna de histórias universais e locais, pois cada um lança mão de um estoque de memória próprio. Isso também motiva a controvérsia em torno de um jogo e nos faz experimentá-lo para muito além das quatro linhas, afirma o professor da Universidade Federal de São Carlos. Os jogos, muitos deles, jamais acabam, se transformam, são recontados, inventados, modificados, mas fazem parte de nossa existência. (Fábio Vendrame/Agência Estado)





