Ao chegar na beira da Cachoeira do Zinco... Frio na espinha, nó na barriga, pernas bambas... A paisagem exuberante do Vale do Zinco, borboletas coloridas brincando no abismo, barulho intenso da queda dágua cristalina passam um pouco desapercebidas neste primeiro momento de apreensão que antecede o cascading (rapel em cachoeira).  Com os tênis mergulhados na água fria do Rio do Zinco, no alto da Serra do Ipiranga, em algum lugar do município de Benedito Novo, Santa Catarina (apenas 200 quilômetros de Curitiba), o receio e adrenalina invadem nosso corpo ao acompanhar os passos dos primeiros colegas que se aventuram em descer a enorme cachoeira de 80 metros. Encordado, o último check up de segurança é feito e o corajoso começa a andar de ré, vencendo o trecho mais difícil da façanha: os últimos centímetros de superfície plana e o início da queda dágua. O medo está estampado na face, nos olhos esbugalhados, na tremedeira das pernas (alguns disfarçam dizendo que é de frio), a apreensão é total. Na verdade é uma luta interna muito difícil. É proibido pensar! É preciso ter atitude e descer logo...
  Seguindo as indicações do guia, o iniciante vai colocando os pés em alguns degraus e confiando o peso do corpo à corda. O lençol de água bate nos joelhos, logo na cintura, dificultando a visão da parede. Uma vez ali, meu amigo, não há mais chance para volta. Olhe para baixo e curta a adrenalina! Controle o pânico! Grandes lances de água viajam no precipício por intermináveis segundos e se chocam lá embaixo nas pedras. Gargalhadas histéricas e palavrões escapam pela boca...
  A apenas um metro da saída a descida torna-se negativa, a parede fica fora do alcance do pés e o controle depende apenas de sua mão direita que sustenta o seu peso segurando e largando a corda nas costas. O oito, equipamento de descenso pelo qual passa a corda, assume a função de aliviar o peso do corpo e libera o praticante de qualquer esforço supremo. Em caso de insegurança, feche a mão direita e segure a corda. Respire fundo, a calma vem naturalmente, e recomece a descida, ensina Inácio Strey, 26, guia de rapel da Ativa Rafting, agência de ecoturismo que coordena várias atividades radicais na região do Vale do Itajaí, Santa Catarina.
  Nesse primeiro trecho de negativa é que se ganha confiança no equipamento, na árvore que sustenta a corda e no guia que amarrou tudo... Afinal, é hora de curtir! Dá para virar o corpo e apreciar o visual do vale cercado pela Mata Atlântica, os rochedos imponentes a poucos metros, cipós e trepadeiras por todas partes, e em vários pontos alguns arco-íris se formam na cachoeira vizinha, ainda agraciada pela luz do sol.
  Com a volta da parede, alguns metros mais abaixo, é hora de brincar, pular nas pedras, andar de um lado pro outro na parede, entubar na cachoeira, sentar e sentir a pressão das águas nos ombros... O medo desaparece e dá lugar à alegria de criança. Noções de distância, de peso e dos desníveis da parede nos encorajam para os alucinantes saltos do rapel – segure a corda e impulsione as pernas na parede dando um grande salto para trás, soltando a corda. Preste atenção ao novo encontro na parede, metros abaixo, que deve ser aliviado com as pernas e com o aperto da mão na corda. O resultado é uma descida radical com longos saltos no vazio...

Sua vida por um fio

  Na hora de fazer um rapel ou cascading sempre vá acompanhado por guias experientes e, sobretudo, sérios. Como a maioria dos esportes de aventura, você estará se colocando em ambientes radicais e inóspitos. Literalmente, sua vida está por um fio... A corda deve bem ancorada (presa a um ponto fixo – uma árvore ou pino encravado na rocha) e sempre com um back up de segurança para cada nó e mosquetão – um segundo procedimento que garanta o sustento do praticante em caso de quebra do primeiro.  Uma outra corda de segurança deve ser colocada ao lado da utilizada, assim o guia de cima, do ponto de partida, poderá auxiliar o rapeleiro que se encontre em dificuldades. Uma única vez, Inácio teve que socorrer uma iniciante em pânico: Após um pequeno susto de escorregar na saída e olhar para baixo, a menina ficou branca, repetindo não vou, não vou, conta o guia, que fez uso da corda de emergência para chegar ao lado dela, conversar, acalmá-la e, finalmente, a convence-la para descer juntos.
  Segundo Rita Siquela, administradora da Ativa Rafting, a segurança na aventura deve sempre ser bem observadas pelo ecoturista. No rapel, dois guias devem estar em cima outro embaixo, segurando a corda. Em caso de perigo, ou a pedido do praticante, o guia estica a corda e, através do sistema do oito, freia automaticamente a pessoa. Um fator a mais que garante o cascading com toda a segurança.

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