Se o Corinthians é o objeto de adoração de uma ''seita'', composta por seus torcedores, os 90 minutos de um jogo de futebol que envolva a equipe aquirem o status de ritual, de uma missa. É essa impressão que um leigo poderia ter ao sair da casa do aposentado Silvio Rodrigues Alves, 75 anos, ontem à tarde. ''Quando criança, eu morava no estado de São Paulo, e era uma época em que o Corinthians estava muito bem, ganhando títulos. Fiquei fanático'', conta ele.
A ''missa'' corintiana na casa de seo Silvio é um ritual de acesso restrito. ''Ao longo dos anos, fui 'eliminando' muita gente que vinha assistir ao jogo comigo. Sou tenso demais, ou faço escândalo ou fico emburrado'', afirma. Ontem, portanto, só eram bem-vindos membros da família, majoritariamente corintiana - a única ''ovelha negra'' é um genro santista, entre cinco filhos e dez netos. Rodrigo, o filho caçula de seo Silvio, foi o único a acompanhar a penitência do pai durante todo o jogo.
Nesta religião, secar o adversário não é pecado, é mandamento - logo no primeiro minuto, quando Diego sai machucado, o entusiasmo é geral. ''Agora vai'', diz Rodrigo. Porém, a sorte se inverte e o Santos passa a dominar a partida. Seo Silvio acompanha o jogo com olhar inabalável, imóvel, com as mãos juntas, em genuína oração. Como se trata de missa e não de jogo de futebol, a cerveja é proibida. ''Jogo tem que ser sem álcool. Pra acompanhar todas as jogadas, 100%'', instrui seo Silvio.
Na partida, Rogério comete o pecado da displicência e faz pênalti em Robinho. Rodrigo e o pai ficam em pé, como que aguardando a redenção. Que não vem. ''Acabou. Está enterrado. Pode anotar'', recomenda seo Silvio, tirando a camisa do time, numa demonstração de ceticismo que não condiz com a fé. No restante do primeiro tempo, entretanto, tanto ele quanto o filho seguem acreditando, ainda que à base de muitas críticas. ''Este Kléber está uma decepção, assim não dá'', reclama.
No intervalo, Rodrigo ainda tenta manter o otimismo. ''Contra o Atlético (o Mineiro, nas quartas-de-final), viramos 2 a 2 e ganhamos de 6. Talvez dê'', afirma. No segundo tempo, quando Deivid e Andêrson fazem 2 a 1 para o Corinthians, seo Silvio e Rodrigo voltam a ficar de pé. Gritam, incentivam. Não tardam quatro minutos e o Santos empata. Mais quatro minutos, e o rival sela os 3 a 2.
A missa corintiana, súbito, se torna funeral. ''Torcer para o Corinthians é diferente de torcer pra outro time. Se os outros perdem, nem sentem muito. A gente, não. Quando o Corinthians é derrotado, dá até vergonha de sair na rua'', admite seo Silvio, que afirma que dificilmente será visto pelos amigos hoje. ''Em 70 anos como corintiano, nunca vi meu time perder uma final tão fácil, jogando tão sem raça''. E é por isso que Rogério, Kléber e Guilherme, entre outros ''hereges'' da final do Brasileiro de 2002, não têm seus pecados perdoados.

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