Paulo Briguet
Prezado leitor do ano 3000:
Aqui e agora, neste final do segundo milênio, as pessoas adoram um jogo que dura 90 minutos. Não sei se você já ouviu falar. O esporte é disputado por dois times de onze pessoas cada um, dentro de um gramado retangular. O campo tem duas redes, uma de cada lado. A finalidade do jogo é botar uma esfera branca dentro da rede da equipe adversária, utilizando somente os pés. Quem mandar mais vezes a esfera pra dentro da rede do outro time, ganha a partida.
De vez em quando, um homem de terno e gravata escolhe os melhores jogadores do país e dá camisas amarelas para eles. É a Seleção. Todo mundo quer ver essa equipe jogar contra os times dos outros países.
Três dias depois que chegou o ano 2000, o time de camisa amarela veio para nossa cidade. Como muita gente da cidade conhece os jogadores porque já os viu numa caixinha que exibe imagens à distância (chamada televisão), o time foi recebido com festa.
Está difícil de entender, leitor do futuro? Calma, calma. Ao topar com palavras desconhecidas nos documentos históricos do ano 2000, não desanime. Oriente-se pelo pequeno glossário a seguir.
BOLA: a esfera branca que todo mundo quer colocar dentro da rede.
CRAQUE: o jogador que sabe fazer isso.
CABEÇA-DE-BAGRE: o jogador que não sabe fazer isso e bate no que sabe.
TIETE: a moça que grita e chora sempre que o craque, o cabeça-de-bagre ou o cozinheiro da Seleção aparecem.
ENTREVISTA COLETIVA: ocasião em que várias pessoas se reúnem para ouvir o homem de terno e gravata falar a mesma coisa.
TÉCNICO: é o homem de terno e gravata. Ele manda nos jogadores de camisa amarela. Não sei por quê, mas o pessoal nunca tem muita simpatia por quem ocupa esse cargo. Em caso de derrota, ele é o culpado. Em caso de vitória, não fez mais que a obrigação. Tem 150 milhões de conselheiros.
JUIZ: homem que anda vestido de preto, com um apito na boca, no meio dos 22 jogadores. Ele tenta evitar que uns batam nos outros. Mesmo com essa nobre tarefa, ele e seus familiares são constantemente ofendidos com palavras de baixo calão.
CARTOLA: até hoje discute-se a função desse personagem.
GALVÃO BUENO: melhor deixar esse pra lá, senão vou acabar falando bobagem. Só direi que ele trabalha na tal caixinha de imagens.
TORCIDA: amontoado de pessoas que assiste aos jogos em estado de semi-demência. Seus componentes – os torcedores – balançam panos, berram palavras de ordem, tiram fotos, xingam o juiz, botam camisa de um time que não ganha há anos, xingam o técnico, xingam os jogadores, ovacionam os jogadores, endeusam os jogadores, tomam bebida quente num saquinho plástico, mudam de humor com rapidez inacreditável, às vezes brigam e – o que é pior – pagam pra fazer tudo isso. Mas são felizes assim.
GOL: A bola no fundo da rede. A única – e solitária – razão que justifica tamanha loucura nos homens do ano 2000. Feliz o homem que grita gol. Feliz a humanidade, se o futebol ainda existir daqui a mil anos.

LÁ E CÁ
DESMAIO É POUCO
- Não é tarefa simples esperar a chegada da Seleção Brasileira ao aeroporto, sob este Sol senegalês de janeiro em Londrina. Para piorar, o vôo que trazia os jogadores atrasou uma hora. No meio da multidão, uma jovem não suportou o calor: passou mal, caiu e por pouco não perdeu os sentidos. Mas, assim que se recuperou, a moça não pensou em ir embora. Permaneceu firme e esperou a chegada dos ídolos. É preciso muito mais que isso: fã que é fã não liga para quase desmaio.
BELINATI E A BANDA
- O prefeito de Londrina, Antonio Belinati (PFL), que volta de férias, esteve presente ontem pela manhã à assinatura de acordo para a venda de ingressos do Pré-Olímpico, firmado entre o município e a Caixa Econômica Federal. Belinati não recepcionou a Seleção no aeroporto e no Hotel Crystal. Ele foi representado pelo coordenador do Comitê Organizador local, Gustavo Santos. Outra ausência notada foi a da Banda Municipal, conhecida por Furiosa, arroz-de-festa nessas ocasiões.
PERGUNTE AO ARCEBISPO
- O desembarque da seleção brasileira, ontem de manhã, não foi muito prestigiado pelas ‘‘autoridades’’. Uma das únicas presenças mais notórias no aeroporto foi o arcebispo de Londrina, Dom Albano Cavallin. Mas foi apenas uma coincidência. ‘‘Não vim recepcionar os jogadores. Vim trazer as irmãs que vão embarcar agora’’, explicou Dom Albano, que estava acompanhado do bispo auxiliar Dom Vicente Costa. Não conte ao arcebispo, mas uma das irmãs aproveitou para dar uma espiadinha na Seleção.
ALEX, O PARANAENSE
- Primeiro jogador a chegar a Londrina ontem pela manhã, o meia palmeirense Alex disse que está muito feliz por ‘‘jogar pela Seleção em casa’’, ou seja, no Paraná. Ele foi recebido calorosamente por torcedores no alambrado do aeroporto. Distribuiu muitos autógrafos, principalmente a torcedores do Palmeiras... e do Londrina. - Adriano, do Atlético Paranaense, já estava em Londrina desde a noite de domingo. Na chegada, houve um contratempo: sua bagagem havia desembarcado antes do dono, na escala do avião em Maringá.