Em 20 de agosto de 1995, na final da extinta Supercopa São Paulo de Futebol Júnior, no Pacaembu, muita gente acompanhou estarrecida pela TV, a brutal invasão do gramado por torcedores são-paulinos e palmeirenses. Paus e pedras de uma obra do estádio e o ódio pela camisa do rival abasteceram a batalha até que o sangue derramasse em rede nacional. O estudante Márcio Gasparin da Silva, de 16 anos, tombou morto. A história comoveu o país. O episódio funcionou como um alerta para a opinião pública ter a dimensão da gravidade da guerra entre as agremiações, formadas sobretudo por jovens. Pressionado, o poder público tomou medidas duras para tentar controlar a escalada de episódios cada vez mais sangrentos
Quem personificou a luta contra a violência nas praças esportivas que começava a partir dali foi o então promotor Fernando Capez, hoje com 48 anos. Dezessete anos depois, as notícias de violência entre as torcidas ainda se sucedem, mas com outras características, afirma Capez, que esteve em Londrina na semana passada para um evento do curso de Direito da PUC. ''Não há praticamente violência no interior ou nos arredores do estádio. Os conflitos se alastraram pela cidade, em pontos de confronto combinados, por vezes falsos para despistar a polícia pelas redes sociais''.
O hoje procurador de Justiça licenciado e deputado da Assembleia Legislativa de São Paulo afirma nos últimos 10 anos os conflitos entre as organizadas se tornou mais uma questão de segurança pública do que um assunto circunscrito ao universo esportivo.
A sugestão de Capez para reduzir o número de mortes em dias de jogos é a ação de policiais com ''know-how'' no combate ao crime organizado. O procurador pede a criação de uma divisão específica para as torcidas nos departamentos de combate ao crime organizado espalhados pelo país. ''Não diria que as torcidas organizadas só são compostas por marginais mas eles estão infiltrados lá com absoluta certeza''.
O procurador de Justiça vai além. Ele acredita que a criação da divisão das torcidas na polícia será ''extremamente produtivo'' para o combate à criminalidade como um todo. ''A situação é muito grave: nas torcidas há muitos assassinos, traficantes e assaltantes. A violência praticada no âmbito das organizadas é um delito que está interligado com outros crimes'', afirma.
Para Capez, investigando as torcidas será possível prender criminosos de várias quadrilhas. ''Se for feita uma pesquisa de pessoas procuradas pela Justiça em dias de jogos, muitos mandados de prisão serão cumpridos''.
Outros avanços na visão de Capez seria a consolidação de um Cadastro Nacional de Torcedores, previsto pelo Estatuto do Torcedor mas ainda não implementado, e um monitoramento mais efetivo dos torcedores nas redes sociais.
O deputado lamenta que o Estatuto do Torcedor, criado em 2003, tenha entrado no rol das leis que não pegaram. ''O prazo de tolerância para as adequações já está esgotado. O poder público tem que apertar a fiscalização para o cumprimento da lei''. Ele acredita que a construção das modernas arenas para a Copa do Mundo podem ajudar a legislação ser respeitada. ''O cumprimento do estatuto também será um golpe contra a violência'', aposta.

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