Exploração de rios. Caminhando sobre o leito do rio vamos superando obstáculos, entre pedras e corredeiras, entranhando-nos na exuberante floresta. O ruído da água correndo é tomado, à medida que nos aproximamos, pelo intenso barulho dos 25 metros de queda da cachoeira do Astor. O rapel sobre este alucinante véu cristalino nos espera! A vista de cima é fantástica: lances de água viajam ao encontro de um bonito lago, lá embaixo, formado pela própria ação da cachoeira. O verde da mata domina tudo!
Eis o canyoning. Uma expedição rumo à garganta do rio, que combina diversas técnicas verticais: rapel – positivo, negativo e guiado – cascading (descenso em cachoeiras), tirolesa, trekking, caving... Sim, às vezes o rio cava cavernas no subsolo ou mesmo atrás das quedas d’água, criando formas e espaços exóticos que fascinam o aventureiro. A caminhada entre a água, rochas e a densa floresta lava a alma. A vida é presente.
No alto da cachoeira, a analista de sistemas Gisleide Santana, esquece-se do mundo e é tomada pela ansiedade dos estreantes: ‘‘Adoro altura! Espero que seja bem alto! Quero muita emoção!’’, repetia entre sorrisos nervosos...
Carlos Zaith, o pai do canyoning
É um dos personagens mais conhecidos no cenário outdoor no Brasil. O paulistano Carlos Zaith, proprietário da agência de aventuras H2Omem, especializada em canyoning, começou por volta de 1976 sua carreira como fotógrafo fazendo trekkings em áreas preservadas nos estados de São Paulo e Paraná. Em 1981 iniciou-se na espeleologia, conhecendo e documentando as principais cavernas calcárias do Brasil. Foi nesta fase que tomou contato com a ‘espeleologia a céu aberto’ ou canyoning, sendo o principal mentor dessa prática no país, à frente do projeto H2Omem que perdura até os dias de hoje.
FA - O que são os canyons e como se formam?
Zaith - Os canyons são acidentes geográficos formados pela ação das águas que, ao longo de milhares de anos, escavam no leito rochoso, profundos sulcos, por vezes, com até dezenas e até centenas de metros de profundidade e largura. A dificuldade de acesso à esses locais e a sua beleza ímpar, fascinam o homem desde tempos imemoriais.
FA - E a prática do canyoning, como surgiu?
Zaith - A origem é franco-espanhola e remonta ao início do século XX, à partir de Edouard-Alfred Martel, famoso hidrogeólogo e o ‘Pai da Espeleologia’, que desenvolveu suas pesquisas em canyons e cavernas nos Pirineus, sul da França, berço da prática. Como atividade desportiva, surgiu no final da década de 70, depois do desenvolvimento das modernas técnicas de exploração vertical e também da evolução dos esportes de águas brancas (ou bravas), como o rafting e a canoagem. No Brasil, o Canyoning foi introduzido em 1989, através de um grupo de espeleólogos paulistas, que mais tarde (1991/92), se auto-denominaram H2Omem – hoje, referência desta atividade em nosso país.
FA - Quais são as técnicas utilizadas e o que mais atrai nesse esporte?
Zaith - O canyoning ou canionismo, consiste na exploração, no percurso, na permanência prolongada, na documentação e na preservação de canyons e rios acidentados. Nessa prática, além do rapel, se utilizam várias técnicas, como, caminhada, natação em corredeiras, saltos, slides (tobogãs), escalada e desescaladas... Mas a ‘vitrine’ da prática é mesmo o ‘rapel em cachoeiras’, denominado de cascading, amplamente praticado no Brasil.
FA - Para quem quer começar, qual é a melhor forma?
Zaith - Primeiro, procurar obter o máximo de informações à respeito, em seguida, realizar um ou mais cursos, com profissionais reconhecidos e ‘comprometidos’ com o esporte. Tomar todo o cuidado com os oportunistas que aparecem nas altas temporadas (verão), cujo intuito único é ganhar algum dinheiro, explorando esse filão, pouco organizado. A falta de regras bem definidas e uma rígida fiscalização, facilita a ação destes maus ‘profissionais’.
FA - Quais são os principais riscos nessa prática?
Zaith - A falta de técnica, equipamentos adequados e a má avaliação de uma situação pode fazer com que um desportista fique bloqueado sob uma queda d’água, podendo levá-lo à morte. Os riscos são vários, desde quedas de pedras sobre os praticantes, até o afogamento em águas brancas. Para uma travessia mais segura de canyons, é necessário observar as condições meteorológicas e preferir as épocas de estiagem para realizar expedições.
FA - Já houve acidentes sérios?
Zaith - O canyoning é um esporte que envolve riscos e já matou muitos praticantes europeus, que são os que mais se aplicam à essa atividade. No ano passado (julho 99) morreram 19 pessoas, de uma única vez, na Suíça, colhidos por uma enchente repentina (um dos maiores perigos do esporte!). Essa foi a maior tragédia ocorrida e esperamos que nunca mais se repita! Aqui no Brasil desde que a atividade começou, já houve alguns acidentes graves e algumas mortes também. Em 96, um praticante morreu, no Canyon Malacara (RS/SC), ao cair, depois de ficar por horas, numa corda mais curta que a cachoeira que tentava descer. Em 97, outra morte ocorreu, quando um praticante, ‘sozinho’, acabou escorregando e caindo do alto da Cachoeira dos Pretos em Joanópolis (SP). E mais recentemente, 21 de Maio de 2000, outra morte se deu, em Itirapina-SP, na famosa Cachoeira do Saltão, quando, por negligência e imperícia, uma dessas operadoras ‘meia-boca’, acabou derrubando, um de seus clientes, da corda.
FA - E o risco vale? Qual é a emoção de se descer canyons?
Zaith - A emoção é única! O desafio de percorrer um lugar em que ninguém ainda passou é a maior responsável pelo aumento de praticantes que se apaixonam pela magia dos canyons. A adrenalina (melhor seria: endorfina?) aflora frente às situações inesperadas. Nos momentos extremos, se exige bastante do nosso equilíbrio físico e psicológico. Sendo à superação de si, o que mais atrai e vicia nesta atividade.

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