Osmani Costa
De Londrina
Com a experiência de quem foi um dos primeiros treinadores brasileiros a trabalhar com sucesso no exterior, o auxiliar-técnico de Wanderley Luxemburgo na Seleção Brasileira, José Cândido Sotto Maior, o Candinho, alerta que os torcedores não devem se iludir com a suposta facilidade de vitória no Torneio Pré-Olímpico, e que há riscos concretos de não se conseguir uma das duas vagas para os Jogos de Sidney (Austrália).
‘‘As dificuldades serão grandes, porque são dez países lutando por duas vagas. Ou seja, temos matematicamente só 20% de chances de classificação’’, comenta Candinho, que nos anos 80/90 treinou alguns clubes estrangeiros e a seleção do Emirados Árabes. ‘‘Na fase eliminatória sul-americana para uma Copa do Mundo são as mesmas dez seleções, mas disputando quatro vagas diretas e mais um na repescagem. Aí, portanto, a situação do Brasil é sempre muito mais fácil’’, ele compara.
De acordo com o treinador-auxiliar – que já foi técnico do Corinthians, da Portuguesa e do Juventus, também da capital paulista –, está ultrapassada a idéia de que os adversários são fracos e de que o Brasil pode vencê-los com facilidade. ‘‘Esta falsa imagem é passada ao público por alguns profissionais da imprensa, que estão desatualizados, que não se preocupam em se reciclar. No mundo do futebol, não existe mais ninguém bobo. A época dos pernas-de-pau acabou; os times e seleções estão muito niveladas’’, ressalta Candinho. Leia a seguir, trechos da entrevista concedida por ele à Folha.
Folha – A Seleção Brasileira está bem preparada para o Pré-Olímpico?
Candinho – Estamos no meio do trabalho de preparação. Alguns jogadores vêm de férias; outros jogaram quase até o final do ano passado. Estamos preparando o grupo ainda do ponto de vista físico, mas logo vamos começar o trabalho tático-técnico com bola. A equipe vai estar bem preparada quando iniciar a competição.
Folha – Quais são as chances de classificação para as Olimpíadas de Sidney?
Candinho – São boas. Afinal de contas estamos jogando em casa, com o apoio da torcida e bem adaptados ao clima. Mas é preciso não iludir a torcida, com aquele discurso do ‘já ganhou’, que é moleza vencer os adversários sul-americanos. O torneio vai ser muito difícil. Não tem mais aquela história do Brasil goleando todo mundo de sete, oito a zero. Esta época já acabou. Hoje, as seleções, principalmente nesta faixa até 23 anos, estão num nível bastante parecido.
Folha – Mas o Brasil ainda pode ser considerado favorito?
Candinho – É lógico que, jogando em casa, o Brasil leva alguma vantagem. Mas não existe mais aquela história de franco favorito. Podem haver surpresas. Veja o exemplo da Copa do Mundo de 98. A França, que acabou campeã, no início não era considerada favorita nem para chegar às semifinais. No ano passado, nossa seleção principal foi vencida pela Coréia (1 a 0) num amistoso. Saímos daqui com uma temperatura de 30 graus, chegamos na Coréia estava dois graus abaixo de zero. Fomos jogar a Copa das Confederações no México, numa altitude acima de 2 mil metros, e os jogadores sentiram muito. Perdemos por 4 a 3. Estes fatores extracampo, como a pressão da torcida, ainda influenciam bastante.
Folha – O senhor diz que o futebol está muito nivelado. Foi o Brasil que caiu ou os outros países que subiram?
Candinho – Não é que o Brasil tenha caído. Digamos que nossa seleção – assim como a Argentina, a Itália e Alemanha – chegou no ápice, no topo. Não tem muito mais para onde evoluir. E as outras seleções foram crescendo de produção, se modernizando, importando treinadores e preparadores físicos. Veja as dificuldades que o Corinthians e o Vasco encontraram na primeira rodada do Mundial de Clubes, contra times teoricamente mais fracos. Hoje, vivemos a época do futebol globalizado. Ninguém mais dá chutão para cima, não. Os times e seleções da Ásia, da Oceania e da África estão jogando de igual para igual com as européias e sul-americanas, principalmente quando atuam em seus países.
Folha – As saídas de Denílson e Roni enfraquecem o grupo, geram intranquilidade?
Candinho – O grupo está bastante coeso e tranquilo. É um grupo forte, que sabe onde quer chegar e está trabalhando bastante para obter sucesso. Os dois novos jogadores que chegaram têm condições de aproveitar bem a oportunidade. O Edu, do São Paulo, estava em plena atividade no clube, jogou na quarta-feira e inclusive marcou gol. O Lucas, apesar de estar em férias, disputou com brilhantismo a classificatória da Libertadores da América, marcando muitos gols e ajudando o Atlético Paranaense a conquistar a vaga.

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