Bastante difundido nas colônias japonesas, esporte conquistou descendentes de várias etnias
Bastante difundido nas colônias japonesas, esporte conquistou descendentes de várias etnias | Foto: Gustavo Carneiro

No calendário de eventos da Acel (Associação Cultural e Esportiva de Londrina), há 30 anos o último final de semana de agosto é reservado ao softbol. Durante todo o sábado e domingo, o Campeonato Brasileiro atrai milhares de atletas e torcedores vindos de todas as partes do Brasil e até do exterior. Dentro do País, o esporte é bastante difundido nas colônias japonesas, mas ao longo dos anos foi conquistando adeptos descendentes de várias etnias que descobriram no esporte um meio de interagir socialmente, fazer novos amigos, cuidar da saúde e se divertir. No campeonato, o resultado do placar dos jogos não é o mais importante e o que vale mesmo é a integração entre os competidores. O clima é de uma grande confraternização.

O softbol está para o beisebol assim como o futebol suíço está para o futebol, explica Miguel Nishihara, coordenador do Campeonato Brasileiro de Softbol pela Federação Brasileira de Beisebol. As duas modalidades têm regras similares, mas no softbol a dimensão do campo é menor, a bola é maior e os arremessos são feitos por baixo e não pelo alto, como no beisebol. A versão “soft” do esporte anglo-saxão foi criada no final do século 19 por um norte-americano e chegou ao Brasil na década de 1950.

A ideia de fazer um campeonato em Londrina foi a forma encontrada para reunir os praticantes da modalidade, mas a Acel, que sempre organizou os torneios, instituiu um modelo próprio de competição. As equipes, todas amadoras, são obrigadas a disputar, no mínimo, dois jogos no sábado e dois no domingo, independente de resultados. “Neste ano, tivemos 70 equipes inscritas. Foram 140 jogos por dia, sendo 280 jogos no campeonato. O que atrai o pessoal não é ganhar ou perder, mas a confraternização entre os atletas. Temos participantes de todas as regiões do Brasil e também do Peru e do Paraguai”, comenta o coordenador-geral do campeonato, Celso Hayashi. Segundo ele, o ponto alto do evento é o jantar que acontece no sábado. No último sábado (24), a boa comida e o karaokê agregaram duas mil pessoas. “O evento tornou-se muito tradicional e promove o encontro de famílias. Tem uma família cujos membros se reúnem aqui todos os anos há três edições.”

Só para mulheres

A Central Glória é uma equipe de Curitiba exclusivamente feminina. As atletas jogam juntas há cerca de 30 anos e nem mesmo a vida profissional e a rotina familiar as afastaram do esporte. Elas levam adiante a tradição iniciada por seus pais e avós e se mantêm na ativa mesmo com filhos pequenos. No ano passado, oito integrantes do time deram à luz. Nesta edição do campeonato, as crianças, devidamente uniformizadas, acompanhavam a performance de suas mamães do lado de fora do campo. “Jogo softbol desde a infância e sempre participei desse campeonato. Com filho é mais difícil, é um olho na bola e outro na criança, mas dá para jogar”, disse Débora Kajita, mãe do Kenzo, de um ano.

Kajita conta com o apoio da mãe, Marilda Oda, que começou a praticar o esporte já casada e com filhos. “Tenho quatro filhas e todas elas jogaram softbol. A mais nova nasceu no campo. Uma delas acabou desistindo, mas as outras três continuam. Quando eram mais novas eram mais competitivas, hoje se divertem mais, é mais uma recreação. A equipe está há 30 anos junto. Eu digo que elas têm mais sincronia do que treino”, comentou Oda.

“Estamos indo rumo ao decacampeonato. Desde pequenas a gente joga. Casamos, tivemos filhos e hoje sou técnica dos filhos. Estamos aqui, mantendo a tradição. O esporte passa de geração a geração na minha família”, contou Kelly Hitomi Watanabe, da Central Glória.

'No esporte a gente libera tudo'

Quem também se esforça para levar o esporte adiante é Mayumi Eakakura. Paranaense de Umuarama (Noroeste), já jogou pela seleção brasileira de softbol em um time que reunia atletas de sua cidade natal, Maringá e Londrina. Ao se mudar para o Pará, continuou praticando a modalidade e atuou como técnica. Aos poucos, transfere o legado para a filha, Karina, que comanda o Sants, equipe feminina formada por atletas de Santa Isabel e Santo Antônio, cidades localizadas a pouco mais de 40 quilômetros da capital, Belém.

O estado do Norte do Brasil tem a terceira maior comunidade japonesa no País. Além da Sants, o Pará conta com outras duas equipes na modalidade – Castanhal e Tomé-Açu. A Castanhal também marcou presença na Acel neste final de semana. “O softbol para mim foi muito importante. Comecei a jogar em Curitiba, quando entrei na faculdade. No esporte a gente libera tudo. Grita, corre, chora, ri. Depois passei 25 anos treinando outros atletas”, contou Eakakura. (S.S.)

A tacada na melhor idade

Há 15 anos, a pedido dos atletas mais experientes, os organizadores do evento na Acel criaram uma chave específica para jogadores acima dos 60 anos de idade. Os anos passaram e, recentemente, tiveram de atender um novo pedido: a formação de uma chave para atletas acima dos 70. “Agora estou vendo alguns deles perto dos 80 anos. Já falei que essa é a última chave”, brincou Miguel Nishihara.

Um deles é Luiz Noda, 78, que compete pela equipe de Dourados (MS) ao lado do irmão Motoshi Noda, 76. “Jogo beisebol desde os 12 anos de idade e comecei no softbol há 30 anos”, contou o mais velho. “A gente vem para se divertir porque nessa idade não é mais para competir. É só diversão mesmo. Tenho outros dois irmãos mais velhos que também jogavam, mas agora pararam. O gosto pelo esporte começou com meu pai.”

Roberto Yoneyama, 70, descobriu a modalidade mais tarde, aos 46 anos de idade, em razão de uma tendinite adquirida no tênis de campo. “Vi que no softbol eu conseguia jogar, apesar da tendinite, e comecei a praticar. Hoje eu incentivo a molecada lá de Dourados a entrar no beisebol. É um ótimo esporte.” (S.S.)

mockup