Titular absoluto da seleção brasileira de vôlei, com a qual conquistou tudo o que era possível, o meio-de-rede Rodrigão faz planos para voltar ao vôlei brasileiro. Há três temporadas no Lube Macerata, da Itália, o paulistano que completa 30 anos no próximo dia 17 sentiu saudades das quadras brasileiras e deve ser mais uma estrela do time multicampeão de Bernardinho a retornar ao País.
Rodrigão, de 2m05, ouro na Olimpíada de Atenas e prata em Pequim, falou à FOLHA sobre sua intenção de voltar a jogar a Superliga. Rodrigão também comentou a renovação que sofrerá a seleção brasileira para o próximo ciclo olímpico e do fortalecimento do vôlei disputado no país. ''A Superliga precisa de uma TV aberta com mais jogos sendo transmitido'', cobrou.
Rodrigão também comentou o desespero dos italianos com o terremoto que atingiu a Itália esta semana. ''As imagens são muito tristes, de pessoas que perderam familiares, amigos e agora não têm nem onde morar. Todo o país está mobilizado para auxiliar as áreas mais atingidas e diminuir o sofrimento das famílias'', disse Rodrigão. Confira a entrevista:
Folha: Você tem afirmado que pretende voltar ao Brasil. O que está te motivando a voltar a disputar a Superliga?
Rodrigão: O que motiva é estar no Brasil, jogando em casa, perto da nossa torcida. Isso é mais legal. E também o nível que está aumentando, com vários jogadores voltando e muitos a fim de fazer o mesmo. Só falta a nossa Superliga ter um maior espaço na mídia, para que os patrocinadores tenham um retorno melhor e também para que o público possa acompanhar. Não adianta a TV transmitir um jogo por mês, porque ninguém vai entender como aqueles times chegaram à final. E não adianta só exibir as partidas na TV fechada, porque no Brasil a maior parte da população não tem acesso à TV por assinatura.
Folha: As principais estrelas do vôlei brasileiro estão deixando a Europa para voltar a jogar por um clube daqui. Isso é um sinal de que o vôlei no Brasil está se reestruturando e crescendo ou o europeu que está em crise ou menos atrativo?
Rodrigão: O Brasil está mesmo melhorando mas, como eu disse na resposta anterior, a Superliga precisa de uma TV aberta com mais jogos sendo transmitidos. Isso tornaria o campeonato muito mais importante e atrativo para o público e os patrocinadores. Já o vôlei europeu está, sim, enfrentando alguns problemas relacionados à crise mundial, mas a diferença é que o Campeonato Italiano, por exemplo, tem uma cobertura muito maior da mídia. Aqui (na Itália) também ele só é transmitido pela TV paga, mas a diferença é que quase todo mundo é assinante. Além disso, os jogos são tratados como grandes eventos e os ginásios estão sempre lotados. Dessa forma, os patrocinadores se sentem motivados a continuar investindo nas equipes.
Folha: Você viveu a emoção de ser campeão olímpico e de tantas outras competições com a seleção, porém, viveu a experiência contrária no ano passado, com as derrotas como a da Liga Mundial e da Olimpíada, com um time que era considerado até então imbatível. O que atrapalhou a seleção em 2008?
Rodrigão: Não vejo nada que possa ter atrapalhado. Tivemos, é verdade, algumas lesões que deixaram alguns jogadores sem poder treinar por um tempo, outros que não puderam jogar quando era preciso. Isso realmente interfere em uma reta final de competição, pois você precisa estar com o grupo bem preparado no momento decisivo e, em 2008, ao contrário dos outros anos, teve essas lesões que atrapalharam muito. Eu mesmo fiquei quatro meses sem jogar, o Giba ficou uns dois meses, o Anderson teve uma contusão no pé pouco antes da final, o Samuel sentiu uma lesão no ombro, enfim... São coisas que não justificam, mas com certeza atrapalham muito. Mas, apesar de muita gente ter criticado e nós também ficarmos querendo mais, a verdade é que nos orgulhamos muito de todos os resultados obtidos, inclusive a medalha de prata em Pequim.
Folha: Gustavo e Anderson já anunciaram a saída da seleção. Essa renovação que se inicia a partir de 2009 deve ter qual foco na sua opinião, uma vez que os resultados podem não aparecer de imediato?
Rodrigão: O foco é sempre a próxima Olimpíada. Não sei quem vai continuar ou não, mas o importante é que quem for ficar tem que se dedicar como sempre fez, como se nunca tivesse conquistado nada antes. Afinal, o que ganhamos no passado não garante que vamos ganhar no futuro. O que faz um time vencedor é uma boa preparação e muita dedicação de todos.
Folha: O que esperar dessa nova geração?
Rodrigão: O que se pode esperar de uma seleção comandada pelo Bernardo é que esse novo grupo vai se preparar muito para vencer a qualquer momento.
Folha: Como é a vida na Itália e como foi a adaptação? Cultura, idioma, comida, frio rigoroso...
Rodrigão: Me adaptei rápido ao idioma, até por ser parecido com o nosso. A comida também foi bastante tranquilo. Aliás, o difícil aqui é comer de forma moderada, porque a comida é muito boa e, com o frio, parece que dá ainda mais vontade de comer. Mas eu estou muito bem aqui na Itália. Já são cinco anos em que venci muitas competições e, acima de tudo, aprendi muitas coisas.
Folha: Aconteceu alguma história engraçada durante a adaptação?
Rodrigão: Teve uma situação muito legal comigo e com minha esposa no primeiro ano, quando eu jogava no Ferrara. Nos primeiros dias após a chegada, tivemos que ir até o aeroporto de Bologna, que era o mais próximo. No meio do caminho, já quase chegando à cidade, vimos uma placa em que estava escrito 'Interporto di Bologna'. Aí nós ficamos na dúvida se a entrada era ali mesmo ou não, pois não sabíamos como se dizia 'aeroporto' em italiano. Achávamos que era da mesma forma que em português, mas quando vimos aquela placa apontando para o tal 'interporto', achamos que era lá mesmo e fomos em frente. Mas, depois que entramos, rodamos pra lá e pra cá e no lugar só tinha caminhões, mas nada de avião. Depois de algum tempo, em que até nos perdemos, conseguimos voltar para estrada e, aí sim, chegamos ao lugar que estávamos procurando. Foi dessa forma que aprendemos que 'aeroporto' em italiano é 'aeroporto' mesmo...

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