Rio - Atual campeão brasileiro pelo Flamengo, Andrade está desempregado desde abril e tenta vencer um adversário implacável: o tédio. Para quem fez dos gramados seu habitat natural, ver-se longe do ambiente do futebol é tão duro quanto ficar sem ganhar salário. ''Estou em casa há três meses e não sei o que fazer. Nunca vivi isso. Vou do quarto para a sala e vice-versa para me distrair. É um momento chato, mas tenho de ter paciência'', disse em entrevista à Agência Estado.
Com o troféu erguido no ano passado, Andrade passou a ser o esportista com maior número de títulos brasileiros conquistados: seis no total - cinco deles como jogador, um volante de fino trato com a bola. Agora, seu único desejo é voltar a treinar. ''Essa profissão não dá garantia nenhuma. Nem os bons resultados me seguraram na Gávea. Em qualquer lugar do mundo, eu merecia um crédito de pelo menos mais dois anos de trabalho''.
Agência Estado - Como explicar o atual técnico campeão brasileiro estar desempregado há três meses?
Andrade - Essa é uma situação chata e nova para mim. Não pensei que essa profissão fosse tão difícil. Achava que trabalhar no Flamengo e ser campeão nacional abririam outras portas, mas...
AE - Sua forte ligação com o clube carioca acaba prejudicando você a assumir outras equipes?
Andrade - Não sei bem. Reconheço minha forte identificação com o Flamengo e acho também que sou um treinador novo no mercado, apesar do título brasileiro e de ter sido eleito o melhor técnico do Brasileirão de 2009. Tive propostas de outros times - o Goiás foi um deles -, mas as conversas não evoluíram.
AE - Não está acostumado a ficar tanto tempo longe dos campos.
Andrade - Fico entediado. Estou em casa há três meses e não sei o que fazer. Nunca vivi isso. Vou do quarto para a sala e vice-versa para me distrair. É chato, mas tenho de ter paciência.
AE - Ao dispensá-lo, a diretoria insinuou que lhe faltou pulso com as estrelas rubro-negras (Vágner Love, Adriano, Bruno). Isso arranhou sua imagem no mercado?
Andrade - Com certeza. A forma como (a demissão) foi feita, me deixou chateado. Saí com 75% de aproveitamento e um título nacional. Essa profissão não dá garantia nenhuma. Nem os bons resultados me seguraram na Gávea. Em qualquer lugar do mundo, eu mereceria um crédito de pelo menos mais dois anos de trabalho.
AE - Como viu a chegada de Zico como diretor do Flamengo?
Andrade - Ele vai trazer credibilidade, é o maior jogador da história do clube. Dá uma oxigenada, uma acalmada na Gávea. A presença dele é muito importante para o futuro do Flamengo.
AE - Com Zico no comando do futebol rubro-negro, aumenta sua chance de retornar?
Andrade - Não tenho esperança de voltar. Na verdade, acho difícil voltar agora. O Flamengo tem treinador (Rogério Lourenço) e respeito isso. Mas não fechei as portas. No futuro, tudo é possível.
AE - Tem assistido aos jogos?
Andrade - Sim, principalmente os do Flamengo. Mas vejo outros também. Acompanhei Santos x Vitória, no Barradão, pela decisão da Copa do Brasil, e São Paulo x Inter, pela Libertadores. Dois jogos acirrados, disputados.
AE - E os Meninos da Vila?
Andrade - O time do Santos é diferente. Quando a bola se aproxima dos pés de Neymar, Ganso e Robinho, dali vai sair algo bom. Com esse trio acima da média, o futebol não vive só da parte tática. Vive do talento individual. Eles fazem a diferença. Comandar um deles já é bom, imagine os três juntos.

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