Campeão mundial tem jiu-jitsu como negócio e objetivo de vida
Arte suave virou case de sucesso de Fábio Gurgel, tetracampeão do mundo na modalidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de dezembro de 2025
Arte suave virou case de sucesso de Fábio Gurgel, tetracampeão do mundo na modalidade

O empresário e atleta Fábio Gurgel, de 55 anos, é um dos nomes mais notórios do jiu-jitsu brasileiro. O esporte, em ascensão, deu a ele o status de lenda no tatame e também o reconhecimento de homem de sucesso fora dele. Gurgel é sócio da academia de jiu-jitsu Alliance, uma rede com 305 franquias espalhadas por 32 países. Em novembro, ele esteve em Londrina para a inauguração da primeira academia de sua rede na cidade e para ser o palestrante de encerramento do evento Londrisoft Camp, que abordou temas como gestão e liderança.
O tetracampeão mundial atendeu a FOLHA e falou sobre sua vida como empresário, os benefícios da arte suave para os praticantes e o alto nível competitivo que o jiu-jitsu atingiu nas últimas décadas, especialmente após ser difundido no Brasil pela família Gracie.
Das origens ao MMA
“Quando o jiu-jitsu chegou ao Brasil, ninguém sabia o que era. A família Gracie se estabeleceu em Belém, depois no Rio de Janeiro, e começou a desafiar as pessoas para mostrar que o jiu-jitsu era a luta mais eficiente que existia. Vinham lutadores da capoeira, do caratê, e o jiu-jitsu se reafirmava como o mais eficiente”, relembrou Gurgel.
O avanço global do esporte veio mais tarde: “Na década de 1980, o filho do Hélio Gracie foi para os Estados Unidos e usou a mesma estratégia. Os americanos criaram um evento, e começou a nascer o UFC”, conta Gurgel, que conquistou a faixa preta aos 19 anos, em 1989, e fez parte do início das artes marciais mistas.
“No início, era sem regra nenhuma: trancavam dois numa jaula e o melhor saía. O protótipo do primeiro octógono tinha até um riacho ao lado, onde queriam colocar jacarés para mostrar que ninguém poderia fugir. Isso está no museu da família Gracie, nos Estados Unidos, mas, claro, a ideia não foi adiante. A disputa de uma luta contra outra era a essência. Depois, o esporte evoluiu. Hoje, todos precisam fazer jiu-jitsu, wrestling, muay thai… as lutas se combinaram até formar o MMA”, explicou.
A arte suave
Apesar do viés competitivo, o multicampeão defende que o jiu-jitsu vai muito além da força bruta, recebendo a alcunha de “arte suave” justamente por sua complexidade técnica.
“O jiu-jitsu, na origem, é criado a partir de movimentos instintivos. Em uma situação de risco, acionamos o instinto, mas o instintivo nos leva ao erro. O jiu-jitsu cria uma técnica para lidar com isso. Ao aprender a técnica, você substitui a reação instintiva por algo mais inteligente. Você precisa criar uma técnica para a técnica do adversário, e isso gera milhares de conexões em tempo real”, aprofundou Gurgel.
Para o atleta, a modalidade exige um esforço completo: “Além de ser uma atividade física muito completa, que trabalha o corpo inteiro, é preciso extrema inteligência para conectar tudo no tempo certo. Vira um grande jogo.”
O veterano ressalta o papel do controle emocional na luta: “No jiu-jitsu esportivo praticado nas academias, depois da fase inicial da defesa pessoal, mostramos o movimento instintivo, as técnicas simples, depois as complexas, até desenvolver e tomar o controle do corpo. O jiu-jitsu fica puramente técnico. Mas, quando a qualidade técnica se iguala, entra o componente emocional. Se você não controla a emoção, volta ao instinto, e isso acontece invariavelmente na luta. A falta de recurso técnico, o cansaço físico, o desgaste emocional, te colocam no modo instintivo, que é quando você perde”.
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Uma chance ao jiu-jitsu
Fábio Gurgel defende que “ninguém é bom de jiu-jitsu no sentido absoluto”, pois é quase impossível combinar perfeitamente os principais fatores da luta: recurso técnico, energia física e equilíbrio emocional. Por isso, a complexidade é o primeiro aprendizado.
“A maioria das pessoas procura o jiu-jitsu para ter defesa pessoal, o que é muito importante. Saber se defender te coloca em outro nível de segurança e autoconfiança. Você não se sente tão vulnerável. Depois, você entende sua capacidade física real. A luta tira tudo: é você e o adversário. Você entende exatamente sua capacidade física e o quanto a técnica faz diferença. Quando aprende técnica, você potencializa por milhares de vezes o que achava que tinha de capacidade física. É encantador”, explicou.
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Após a fase inicial, o esporte passa a ter um significado ainda mais profundo: “Pergunte a quem está no jiu-jitsu há algum tempo. A resposta é sempre: ‘é onde eu me desenvolvo individualmente; treino minhas virtudes; me acalma; é onde faço amigos; é um ambiente generoso; é uma segunda família’. Todos esses motivos juntos fazem com que qualquer pessoa mereça se dar uma chance no jiu-jitsu.”
Para Gurgel, os estereótipos sobre o jiu-jitsu são uma barreira que precisa ser quebrada. O empresário e atleta citou o lema de Hélio Gracie para explicar a essência da modalidade.
“Temos que quebrar essa barreira de acharem que o jiu-jitsu é lugar de ‘casca grossa’. É um lugar de desenvolver pessoas fortes. Isso não significa que você precisa ser forte para começar. É ao contrário. Hélio Gracie já dizia: jiu-jitsu é a luta onde o fraco pode vencer o mais forte”, afirmou. “Precisamos trazer ainda mais o jiu-jitsu para a sociedade. Um indivíduo forte torna a sociedade menos vulnerável. É isso que queremos para nossa comunidade. Queremos levar o jiu-jitsu ao maior nível possível.”

Expansão
A academia comandada por Gurgel se expandiu por dezenas de países, e a chegada a Londrina é mais um passo para aumentar o número de filiais e difundir o jiu-jitsu. “A Alliance surgiu em 1993 com o objetivo de ser uma equipe de competição. Era para solucionar um problema: meus alunos e os alunos do meu professor (Romero Cavalcanti, o Jacaré) se enfrentavam nos campeonatos, o que não fazia sentido. Éramos uma família. Juntamos todo mundo sob uma bandeira e criamos essa fusão”, explicou.
Com o tempo, o projeto se tornou maior: “Entendemos que havia mais ali: um sentimento de pertencimento àquela forma de tratar o jiu-jitsu, como o meu professor cuidava da gente. Aí começamos a tentar organizar. Não foi fácil, porque o jiu-jitsu não era um negócio. As academias eram pequenas e amadoras.”
A ascensão internacional, impulsionada pelo UFC, mudou o cenário. “Viajamos o mundo para ensinar o jiu-jitsu e estabelecemos a academia nesses lugares, até torná-la um negócio organizado e diferente de uma franquia normal. A franquia tradicional cresce a partir de um negócio de sucesso e depois escala. O nosso já nasceu escalado: a questão era como organizar. É um processo inverso. Com metodologia, sistematizamos e passamos a entregar um padrão, oferecendo essa experiência para que cada professor tivesse sua academia funcionando com sucesso”, destacou.
Busca ela excelência
Gurgel, que se declara amante de filosofia, entende que os resultados alcançados não explicam sua história e seu legado. Por isso, ele mantém o foco na expansão do esporte por meio de seus negócios.
“O resultado não te define exatamente. O que te define é a busca incessante da excelência. Se você tem isso, responde ao resultado ruim com a prática no dia seguinte. A chance de você conquistar coisas é muito maior. Eu não conquistei tudo o que disputei, perdi várias vezes, mas tive persistência e resiliência muito grandes”, ponderou.
Ele garante que ainda há muito a conquistar: “Eu ainda não levei a Alliance a todos os lugares, não fiz o jiu-jitsu chegar onde eu gostaria que estivesse, mas sigo fazendo. O resultado não me molda, porque não penso tanto nele.”
Para Gurgel, o foco excessivo no resultado pode levar a dois caminhos ruins: “A soberba, de se achar o melhor do mundo, o que nunca é verdade, porque você ganha por uma conjuntura, não exatamente por ser o melhor, e a frustração, porque, quando você perde, o que é sempre mais provável, você desanima de continuar fazendo.”
O empresário finalizou: “O campeonato, as metas, são apenas parâmetros que vão te dizer sobre a sua expectativa. Outras pessoas fazem melhor do que você, e isso não te define”.


Matheus Camargo
Repórter de Esportes, com foco no Londrina Esporte Clube.





