A chuva caia miúda no final da tarde de ontem no Conjunto Lindóia, periferia norte de Londrina. Um Astra com todos os opcionais pára no número 33 da Rua Roncador. Do carrão, sai um rapaz de 1m78, 18 anos, com ritmo de quem, enfim, se livrou de todos os compromissos de um ano diferente de todos os outros.
O rapaz nem precisa abrir o portão um grupo de crianças corre para fazer isto em sinal de reverência e abre um sorriso sereno enquanto Aliomar Manzano, o Ticão, olheiro célebre do PSTC e dono do carro reluzente, continua a observá-lo como um troféu ambulante.
Fernandinho voltou ao seu habitat mas mal pode conferir os detalhes do que mudou em meses de ausência em seu antigo endereço. Os abraços são numerosos e longos. A receita que faz uma celebridade vai sendo aplicada pela mídia mas também pelos amigos e vizinhos: entrevistas, fotos, ligações no celular, saudações de rostos estranhos.
Aos poucos, Fernandinho vai entendendo a dimensão do seu feito, entendendo que marcar o gol do título mundial pela seleção Brasileira Sub-20, além de fama e dinheiro, significa garantia de prestígio, pelo menos até a primeira vaia ou revés. ''Sei que agora sou reconhecido nacionalmente e as pessoas passaram a ser mais carinhosas quando se aproximam. Mas sei que isso pode passar se não continuar trabalhando sério e mantendo meu nível'', avalia o jogador do Atlético Paranaense.
Depois do retorno dos Emirados Árabes Unidos, país do Oriente Médio onde foi disputado o Mundial, Fernandinho passou uma semana em Ribeirão Preto, na casa da mãe. Ontem, ao meio-dia, ele chegou na casa do pai (os pais são divorciados), Luís Carlos Roza, o Luisão. A tia, Aparecida Conceição Roza, auxiliar de enfermagem no Hospital Infantil, foi incumbida de preparar o prato preferido de Fernandinho, um dos que odiaram a comida do mundo árabe. ''Ele disse para deixar as entrevistas para lá e caprichar no almoço'', brinca Aparecida. Combinação pra lá de exótica: arroz, feijão com farinha, bisteca bovina e lasanha.
Ontem à noite, crianças que participam do Voluntários da Paz, projeto social a partir do futebol feito no campinho da Associação dos Moradores do Conjunto Mister Thomas, iriam homenageá-lo com uma festa-surpresa. A coordenadora da projeto e organizadora da festa, Ilda Maria Sabino, conta que Fernandinho foi um dos primeiros destaques do projeto.
Ela é uma das mais entusiasmadas na casa de 10 cômodos (até ir viver no alojamento do PSTC, Fernandinho não tinha quarto próprio, dormia em um colchão no quarto da tia). ''Sabíamos que ele tinha futuro, que ele é muito melhor que os outros'', comenta Ilda, vibrando quando o pupilo resgata sua primeira medalha, conquistada há seis anos em um torneio no Conjunto São Lourenço (zona sul).
A folga de Fernandinho acaba quinta-feira. Na sexta, começa a pré-temporada do Atlético. O jogador não tem planos de pescar ou participar de peladas: ''Bola só no ano que vem''. Mas o garoto que fez os espanhóis chorarem deve topar cada convite feito pelos amigos. Churrasco à vista. ''É muita saudade. Quero curtir estes dias porque não sei quando terei outra oportunidade''.

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