Há 11 anos, o ciclista Luciano Pagliarini embarcava para a Europa com um sonho: representar o Brasil nos principais torneios mundiais. Depois de faturar mais de 50 títulos, agora está de volta à sua terra natal por onde vai competir e treinar pela Memorial Santos, de São Paulo. Dentre os projetos que desenvolve, o principal se chama ''Revelando Talentos'', onde recruta jovens ciclistas brasileiros e encaminha a clubes da Europa. Hoje, são quatro brasileiros que estão com contratos renovados para 2010. Agora poderá acompanhar e escolher mais de perto os novos talentos do ciclismo nacional.
Em entrevista exclusiva à FOLHA, Pagliarini, nascido em Arapongas e radicado em Londrina, revela que o principal projeto da sua carreira atualmente é buscar a classificação para os próximos Jogos Olímpicos, em 2012, em Londres. Ele acredita que o período em que atuou como atleta profissional na Itália trouxe experiência de sobra para vencer mais esta etapa da carreira. ''Mas vamos ter que trabalhar porque é uma competição muito difícil''.
Folha - Porque decidiu voltar ao Brasil?
Pagliarini - Meu objetivo sempre foi fazer carreira na Europa e assim que tivesse a possibilidade a intenção seria voltar para o Brasil. No ano passado, por problemas de doping de dois companheiros houve o encerramento da equipe que defendia: a Saunier Duval. Depois de 10 anos, isso me fez pensar muito e deu vontade de voltar, mas ainda não era a hora. Neste ano, havia fechado com uma equipe francesa, que teve problemas jurídicos junto a União Internacional de Ciclismo (UCI), que acabou não sendo liberada para correr a temporada 2009. Foi aí que percebi que era hora de voltar. Fiquei seis meses parado na transição, mais cinco no ano passado que perfazem 11 meses.
Folha - E agora, como vai seguir com a carreira?
Pagliarini - Surgiu uma oportunidade de fazer um projeto visando as Olímpiadas de 2012, na Inglaterra. Lancei a proposta para a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) que topou e concordou em bancar o projeto durante três anos e meio para tentar a classificação olímpica na pista, no velódromo e na estrada. Há 15 dias retornei ao ciclismo nacional na Volta de São Paulo, onde sofri um acidente com suspeitas de fratura. A prova foi muito forte e senti um pouco depois de alguns meses sem treinar. Mas agora já estou entrando em forma e visualizando as provas da temporada pelo Brasil.
Folha - Como você pretende estruturar os treinamentos até 2012?
Pagliarini - Vamos ter que trabalhar porque é uma competição muito difícil. Mas com 11 anos de experiência como profissional, correndo com os melhores atletas e equipes do mundo acho que é possível. O Brasil não possui a melhor estrutura, mas espero colaborar com minha experiência. A CBC já me deu o carta branca e vamos precisar do apoio, como do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), para viabilizar treinamentos e viagens para torneios internacionais. Dentro do país, viajar para cidades com maiores estruturas, como centros de treinamentos no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba (onde há um velódromo para fazer treinamentos de pista).
Folha - Por que você fechou contrato com o Memorial de Santos?
Pagliarini - Podem não ser os melhores do Brasil, mas é a que tem mais condições de melhorar. Foi isso que levei em conta. Lá tem boas pessoas, grande potencial e está num ponto que dá para crescer. Talvez, se fosse uma equipe com grande estrutura o trabalho poderia ser mais limitado. O dono é o senhor Pepe, é um apaixonado por ciclismo, e o técnico Cláudio Diegues, que é uma grande pessoa, está cheio de projetos e objetivos que somados à minha experiência e vontade de correr de bicicleta pelo Brasil será uma união de forças fantástica. Estamos armando uma equipe muito interessante para 2010 com investimentos do exterior, no caso a Itália. São patrocinadores que também vão atuar como fornecedores técnicos e tudo isso vai somar nesta estrutura. A partir de agora vamos escutar falarem bem do Memorial de Santos cada vez mais.
Folha - Como avalia experiência que adquiriu vivendo na Itália?
Pagliarini - Foram 11 anos morando na Itália, mas eu corri pela Europa inteirinha. Todos os finais de semana eu estava em lugares diferentes como Alemanha, Holanda, Bélgica, Polônia, Portugal, Malásia, Arábia e até nos Estados Unidos. Estes anos ensinaram muito e trouxeram resultados, estrutura e me ajudaram a crescer como atleta e também como homem. Sempre respeitando todas as regras e colecionando amigos foram anos que não imaginava.
Folha - Quantos títulos ganhou na Europa? Quais as três provas que mais marcaram?
Pagliarini - Foram mais de 50 vitórias internacionais dentro do ciclismo profissional. Isso é muito mesmo. Teve uma prova, que não é a mais importante delas, mas me marcou muito. Foi em 2003, quando na Volta da Espanha bati o alemão Erik Zabel, que na época era Campeão Alemão e o melhor sprintista do mundo e meu grande ídolo. Foi um sprint onde batemos guidão na reta final após correr 180 quilômetros. Outra vitória importante foi na Volta do Missouri (EUA), quando minha equipe ganhou de uma das melhores do mundo: a americana. Teve também a Volta da Califórnia, onde ganhei uma etapa em cima do Paolo Bettini, que na época era o atual campeão olímpico e mundial. Na Volta da Holanda, na categoria Pró-Tur, que é o limite do ciclismo mundial, eu também fui o primeiro brasileiro a ganhar a prova.
Folha - Hoje, jovens ciclistas se espelham no seu trabalho. O que você acha disso?
Pagliarini - Eu acho fantástico. Quando estava na Europa, todos os anos passava dois meses no Brasil (novembro e dezembro) nos finais de temporada e observava essa mudança. Havia assédio de atletas mais novos e alegria ao treinar junto ou pegar um autógrafo. Eu sempre trabalhei para isto, para difundir a ideia de que 'se o Pagliarini está lá fora competindo a gente pode também'. Esta porta aberta ajudou muitos que começavam no Brasil a acreditar. No ano passado, lancei um projeto chamado 'Revelando Talentos', onde abro as portas no exterior para ciclistas nacionais. Com a Confederação, firmei um acordo para bancarem alguns custos, como passagens e viabilização do projeto e os contatos que tenho lá fora ajudaram a levar alguns atletas. Hoje são quatro ciclistas inseridos na categoria onde comecei há 10 anos: equipes semi-profissionais. Agora, para passar para o profissional depende de resultados e do tempo.
Folha - Quem são essas revelações?
Pagliarini - Tem o Carlos Alexandre Maranello, de Foz do Iguaçu, que tem 19 anos e ganhou duas provas, em 2009, e neste ano ganhou mais uma. Tem o Rafael Andreatto, um velocista de Maringá que já ganhou quatro corridas. O Gideoni Monteiro, do Sergipe, que está se inserindo aos poucos no semi-profissional. Por último, o Murilo Fischer (já defendeu a equipe de Londrina) que está há mais tempo. Esse projeto continua e comigo no Brasil é mais fácil avaliar os candidatos. Todos estão com contrato renovado para 2010 e isso é fantástico. Na hora que tiver um garoto que tiver potencial eu posso mandar. Como todos estes anos fora me renderam amigos e as portas estão abertas.

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