São Paulo - Aquele centroavante grandalhão, com a 9 nas costas, não existe mais. É uma espécie em extinção. E não é um atacante qualquer. É aquele que há bem pouco tempo atrás - na década de 80 ainda eram abundantes - era chamado de centroavante, sinônimo de gol numa partida. Jogador raro. Sempre foi. Morreu pelas mãos do futebol moderno.
Pelo menos é assim que entendem especialistas da função, que marcaram época no futebol brasileiro e deixaram saudades na arquibancada. Careca, Serginho e Evair foram autênticos fazedores de gols, cada um a seu estilo. ''Primeiro sumiram com os pontas. E o resultado disso foi a extinção do atacante de área'', diz Careca, ex-Guarani, São Paulo e seleção, que tem no invejado currículo o fato de ter jogado no Napoli, da Itália, ao lado de Maradona.
Técnicos renomados do futebol paulista também foram chamados para a discussão. E suas opiniões são diferentes. O corintiano Paulo César Carpegiani promete resistir a essa tendência, para ele mundial. ''Os grandes times do mundo todo abriram mão do atacante de área. Eu ainda não. Tenho o Finazzi aqui no Corinthians. Mas sei que o problema já contaminou até a formação dos meninos na base'', diz.
Caio Júnior, do Palmeiras, multiplica o problema da ausência do 9. Para ele, tem muito mais gente desaparecendo dos gramados. ''Não é só o camisa 9 que anda em falta. Os meias de criação e os laterais que sabem defender também estão em extinção. A explicação para isso é o errado uso do sistema 3-5-2 nas categorias menores'', disparou o técnico - ele próprio um camisa 9 nos tempos de jogador.
O resultado é tão dramático quanto a falta dos pontas. ''Formam-se, dessa forma, alas que só atacam, meias que priorizam a marcação e atacantes de mais mobilidade'', disse Caio Júnior. Com jogadores dessa qualidade, qual técnico então consegue se sustentar no cargo escalando um homem de área, paradão lá na frente?
Virou senso comum no Brasil, e também nas rodinhas de futebol, discutir a carência que as equipes têm de homens-gol. Todos querem, ninguém forma. Esse é o pensamento do técnico são-paulino Muricy Ramalho. ''Falta um camisa 2, um 8, como eu fui, um 10. A verdade é que a formação não é legal. Eu sempre converso com o Zé Sérgio e o Vizolli, que são técnicos da base, para investir na formação dos garotos da maneira tradicional. Na medida do possível, formar dois laterais, dois volantes, dois meias e um centroavante, como era antes.''
Ocorre que o que se prega, quase nunca se cumpre. Muricy bem que tem apostado nessa referência na área. Aloísio é a maior prova disso. Fixo entre os marcadores, o grandalhão do Morumbi - que joga com a 14 - faz bem o pivô para os meias e vai trombando para dentro do gol. Mas ele só não desapareceu porque Muricy é teimoso. Já recebeu críticas por manter no time um atacante que não faz gols.
Vanderlei Luxemburgo, do Santos, que já dirigiu o Real Madrid e a seleção brasileira, modernizou-se com o futebol. Ele não gosta de atacantes de única função. ''O último que tive no time foi o Evair (Palmeiras). E mesmo assim, ele sabia fazer outras funções em campo, além de gols.''
Para Luxemburgo, não é de hoje que o futebol vem perdendo suas referências. Ele diz que na história do futebol quem sempre encantou e fez gols foram os camisas 10, como Platini, Zico, Pelé, Maradona. ''O atacante de área sempre foi bem marcado. E se ele não tivesse habilidade, não fazia nada'', defende o treinador.
Saudosistas e velocistas - Na década de 80, chegou a ser um chavão nacional a brincadeira do humorista Jô Soares com o técnico da seleção brasileira, Telê Santana, na qual ele dizia, ao berros, para o treinador ''botar ponta'' no time. Era a Copa do Mundo de 1982. Serginho Chulapa é um dos saudosistas da época. Ele próprio um dos jogadores de Telê que disputaram o Mundial de 82, com a camisa 9 às costas.
''O que o atacante vai fazer paradão na área se não existem mais pontas no futebol moderno? Quem vai cruzar a bola para ele?'', pergunta. ''Quando eu jogava, tinha, por exemplo, o Zé Sérgio na esquerda. Era só esperar pelo drible e o cruzamento.'' E Chulapa foi um centroavante de verdade, daqueles de trombar com zagueiros e goleiro até a bola entrar.
Serginho conta ainda que os treinadores com quem trabalhou até que pediam para ele ajudar a cercar o zagueiro quando o time rival saía para o jogo, mas ele - um rebelde de carteirinha - não obedecia. ''Meu negócio era fazer gols. Tanto era que eu treinava a semana toda finalização, sempre perto ou dentro da área.''
A vez é dos velocistas na frente. São atacantes que se movimentam o tempo todo e ajudam na marcação. Como Emerson Leão gosta de dizer, são atletas que transpiram. Com a rapidez que o futebol ganhou, ataques e contra-ataques em questão de minutos, os times têm por tendência se concentrar no meio. E na área, só o goleiro. O 9 de antigamente desapareceu.

mockup