Lúcio Horta
De Londrina
Dia de estádio lotado é dia de ação de cambistas. E foi exatamente o que ocorreu ontem à tarde no Estádio do Café, poucas horas antes da partida entre Chile e Uruguai. Com praticamente todos os ingressos da rodada dupla vendidos – só sobraram para as arquibancadas especiais, a R$ 30,00 –, as bilheterias do estádio não abriram e os cambistas, dezenas deles, puderam agir livremente, cobrando até 300% mais caro pelo ingresso. Não havia ingresso para arquibancada comum ou meia-entrada em lugar nenhum de Londrina.
Sobrou reclamação do torcedor que deixou para comprar na última hora. Por volta das 16 horas, cerca de 300 deles ainda tinham esperança de que houvesse uma sobra de ingressos e se acumularam em frente às bilheterias. Pouco tempo depois, quando veio a confirmação de que só haveria ingressos para as especiais, ninguém se conteve.
Por pouco não ocorre um incidente. A Polícia Militar acompanhou tudo de perto, mas não se envolveu.
Uma parte dos torcedores, revoltada com a situação, retornou para casa; outra parte, igualmente revoltada, preferiu pagar caro e assistir aos jogos. Às 17 horas, o valor dos ingressos de arquibancada comum custavam entre R$ 20,00 e R$ 25,00 nas mãos dos cambistas. Mas a tendência era a de que mais caro ficasse na medida em que se aproximava o horário de Brasil x Argentina. No começo da noite era possível encontrar quem pedisse até R$ 40,00 ou R$ 50,00 pelo bilhete que na Caixa ou casas lotéricas eram vendidos – enquanto havia estoque – por R$ 10,00.
‘‘Ficamos aqui duas horas, esperando a bilheteria abrir, e ninguém veio dar satisfação. O duro é que perguntamos em todos os lugares, no shopping, na Caixa, na lotérica, e disseram que só haveria aqui. Agora não tem porque para cambista eles vendem de 50, 100 ingresso. E para gente nada’’, revoltou-se Ari José Dias, 68 anos. ‘‘Agora não vou poder pagar mais caro. Vou pra casa.’’
Quem também estava indignado era o mecânico Daniel dos Santos Alves, 22 anos, que ‘‘matou’’ o serviço para comprar os ingressos na bilheteria. Esperou duas horas e perdeu a viagem. ‘‘A cada dois passos tem um cambista oferecendo ingresso. A organização deveria limitar a venda ou avisar a gente que não tem mais. Mas ninguém avisou, até agora há pouco. Fiquei aqui à toa. O povo está sendo enganado’’, reclamou. Luiz Antônio da Silva, 47 anos, concorda: ‘‘Aqui ninguém dá sinal de vida. Só cambista. É um absurdo!’’
O pedreiro Lupércio Paiva da Silva, 45 anos, que foi ao estádio tentar comprar ingresso para os dois filhos, era um dos mais agitados. Ele chegou a discutir acirradamente com um cambista. ‘‘Isso é revoltante, é uma sacanagem. Sacanagem de quem organizou o evento e do prefeito também. Fiquei duas horas esperando e agora tem cambista oferecendo ingresso por R$ 40,00, até R$ 50,00. Eu ganho R$ 150,00 por mês, como é que vou fazer?’’.
A Folha também tentou falar com cambistas, mas poucos se dispuseram a dar informações. Um deles, que se apresentou como André, disse que veio de Cambará, comprou 18 ingressos e já tinha vendido quatro. ‘‘Ninguém falou que não pode. Então tá limpo’’, afirmou. Outro rapaz, que disse ter vindo da Bahia para ‘‘trabalhar’’ no torneio, informou que comprou 30 ingressos – alguns torcedores disseram que ele tinha muito mais. ‘‘Não estou fazendo nada de mais. A gente tem que ganhar a vida.’’

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