São Paulo - O volante Moisés, do América-MG, não suportou o calor durante a partida contra o América, de Teófilo Otoni, no domingo passado, pelo Campeonato Mineiro, ficou tonto, desmaiou e teve de ser substituído aos 15 minutos do segundo tempo. ''Estava quente, senti uma forte tontura, tudo escureceu e eu caí'', relembrou o volante após o jogo.
No Rio Grande do Sul, Grêmio e São Luiz empataram por 1 a 1 no dia 3 de fevereiro, no Olímpico, sob sol escaldante e temperatura de 41 graus. Durante o jogo, o comentarista e ex-jogador Batista desmaiou na cabine da Sportv. Ao final, médicos dos clubes tiveram trabalho para prestar assistência a jogadores que passavam mal, desidratados ou com quedas de pressão.
No Rio de Janeiro, o calor que tem feito os cariocas ''derreterem'' levou a mudanças no horário das partidas. Em São Paulo, jogos marcados para as 11 horas ou às 16 horas também têm provocado discussão. A Federação Paulista de Futebol, que vendeu a transmissão para a Rede Globo - e pagou altas cotas de participação aos clubes (os pequenos receberam R$ 1,4 milhão e os quatro grandes R$ 7,5 milhões) - respondeu por intermédio de sua assessoria que está estudando o caso.
As críticas, porém, são muitas. Turíbio Leite de Barros, fisiologista do São Paulo e do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte (Cemafe), entende que os atletas correm risco de morte ao se exporem a temperaturas tão elevadas. ''São três riscos: desidratação, hiponatremia e hipertermia. A combinação destes três fatores pode ser explosiva'', advertiu. ''Por isso, marcar jogo para as 11 horas nesta época do ano é uma atitude no mínimo irresponsável. Para não dizer criminosa''.
E o fisiologista cita exemplos. ''Existem casos de manifestações sub-clínicas, ou seja, problemas que, em condições normais, não representam risco, mas, em situações extremas, podem ser complicadas. O mais conhecido é o do deputado federal Luís Eduardo Magalhães (morreu dia 21 de abril de 1998), que tinha um problema cardíaco que só veio à tona por causa da perda de líquidos e sais minerais em uma atividade física''.
O presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo, Rinaldo Martorelli, acrescenta ainda outro problema. ''Tem também a exposição aos raios solares, que pode provocar câncer de pele'', disse.
Apesar disso, considera difícil convencer clubes e jogadores a abrirem mão do horário das 11 horas. ''Os clubes dependem da televisão e os atletas sabem que só assim receberão seus salários. Se você perguntar se eles querem cuidar da saúde ou garantir o emprego, vão escolher a segunda opção''.
Turíbio Leite de Barros explica que alguns pontos servem para mensurar os limites. ''No caso da desidratação, o atleta nunca pode perder mais de 4% do peso corporal. Ou seja, quem pesa 80 quilos, não deve superar a perda de 3,5 quilos de água. No caso da temperatura corporal, um jogador chega a 40 graus quando disputa uma partida com forte calor. Nem é preciso dizer que ninguém deve chegar a 40 graus. E, no caso da perda de sódio, só se pode mensurar com exame de sangue, mas quando um maratonista passa mal, por exemplo, chega a receber transfusão''.
A nutróloga Valéria Goulart, também do Cemafe, explica que a perda de líquido está diretamente ligada ao rendimento. ''Se a pessoa perde 5% do peso corporal, o rendimento cai 30%, independentemente do condicionamento físico''. E ensina um segredo: ''A cada quilo perdido com suor, a pessoa deve repor um litro e meio de líquido. O cálculo é sempre 150%''. (Colaboraram Bruno Lousada, Élder Ogliari e Ivana Moreira)

mockup