Munique - A caixa preta do fracasso brasileiro na Copa da Alemanha começa a ser aberta. Zé Roberto, melhor jogador da seleção de Carlos Alberto Parreira no Mundial, pelos critérios da Fifa, diz ter ''a consciência tranquila de quem deu o seu máximo e o seu melhor'', mas, sem citar nomes, e sempre polido, deixa claro que nem todos deram.
Sentado na varanda interna que dá para os jardins de sua ampla casa, num bairro elegante de Munique, onde vive com a mulher e três filhos, o meia, cujo contrato com o Bayern expirou dia 30 de junho, recebeu a reportagem do Globo no fim da noite de segunda-feira, 48 horas depois da derrota para a França. Zé Roberto se disse ''passado'', contou que ''ainda não caiu na real'' e desabafou.
''Ter sido eleito pela Fifa o destaque em dois de nossos cinco jogos me consola e me conforta, mas meu sonho ficou para trás. Eu soube que, se o Kaká não fizesse aquele gol na estréia contra a Croácia, eu também teria sido eleito o melhor da partida. Sem nenhum constrangimento, digo que me concentrei, me preparei, me doei todo. Não é do meu caráter apontar erros nos outros. Mas cada um que faça a sua auto-análise e veja se doou tudo o que podia pelo outro e se realmente se empenhou como deveria'', lamentou, amargurado, enquanto a mulher, Luciana, embalava os brinquedos dos filhos Endrik, 6 anos, Miriam, 3, e Isabelle, 4 meses, para a mudança. ''Vamos deixar esta casa. Foram oito anos neste país, onde fui muito feliz, mas, agora, basta de Alemanha''.
Num tom de respeito, que pareceu intencional, para empanar críticas a Parreira, Zé Roberto afirmou que Robinho tinha vaga no time (''sempre que entrava, a equipe crescia junto e se empolgava''). Não mencionou a palavra ''erro'', mas disse também que, no lugar do técnico, teria destacado um jogador para marcar Zinedine Zidane, carrasco do Brasil na tragédia de sábado, no Estádio de Frankfurt. ''Até quem não entende de futebol percebeu que era preciso pôr alguém em cima dele. Eu, particularmente, teria feito isso no segundo tempo, já pelo que tinha mostrado no primeiro. Fomos bem nos primeiros dez minutos, envolvemos a França, mas, depois dali, desandou. Os caras assumiram o controle do jogo e ficou complicado''.
Cercado de símbolos brasileiros em casa uma bola oficial pintada de verde-e-amarelo, duas bandeiras na fachada, uma na porta da frente e outra pendurada na sacada de um dos cômodos do segundo andar , Zé Roberto contou que ainda não conseguiu dormir direito. Só teve coragem de rever o lance do gol de Henry uma vez. Desde a volta para casa, a TV vive desligada. Não quer saber de Copa. Decidiu que não vai assistir nem à final, no domingo. ''De sábado para cá, não inteirei uma noite de sono. Dou umas cochiladas e acordo. Meu filho mais velho é que, de vez em quando, puxa o assunto. 'E a Copa, papai, e a Copa?' Mas, fora isso, procuro não pensar mais''.
Tem sido impossível. Zé Roberto ainda tenta reconstruir na memória as 24 horas que antecederam a derrota. Não se recorda de nada que possa ter atrapalhado o desempenho da equipe. Lembra que, na concentração, a expectativa entre os jogadores era a de que aquela tinha tudo para ser a melhor apresentação do time. Estavam todos confiantes.
A frase mais repetida, segundo ele, era que, contra os grandes, a seleção sempre cresce. Zidane também foi assunto. Mas ninguém esperava que pudesse jogar tão bem. Quando o ''baile'' começou, foi uma surpresa. ''Zidane fazia a diferença no Real Madrid, mas, pelos seus jogos, ultimamente, não achávamos que iria tão bem. Ele nos desconcertou''.
Dia normal Zé Roberto puxa mais da memória. Na véspera do jogo, quando Parreira anunciou quem entraria, Adriano não pareceu chateado com a barração. Nem Emerson. Os dois teriam entendido o argumento de que todos ali tinham condições de jogar, mas sua opção era tática.
O dia da partida começou como qualquer outro. O café da manhã se estendeu até 10h30 e, no almoço (''pasta, arroz, feijão, carne, peixe e frango''), servido ao meio-dia e meia, todos sorriam. Às 17 horas, tomaram o lanche e, às 18h45, Parreira exibiu um compacto dos jogos da França.
O técnico conversou com os 11 escalados, um a um, e escreveu na lousa a frase ''I have a dream'' (''Eu tenho um sonho''), título do histórico discurso de Martin Luther King no dia 28 de agosto de 1963, em Washington. Nele, o líder negro dizia: ''Se você não está pronto para morrer por alguma coisa, você não está pronto para viver''. Depois dali, o time embarcou no ônibus para o estádio, onde o sonho do hexa brasileiro morreria diante da França.
A roupa suja da tragédia deve começar a ser lavada, no entendimento de Zé Roberto, pela análise da entrada livre de Henry para marcar o gol que liquidou o Brasil. O meia soube da sequência de imagens que mostram Roberto Carlos ajeitando as meias, enquanto o atacante francês invade a área para estufar as redes de Dida. Mas evita o assunto. ''Não falo de quem errou no lance da bola parada, cruzada por Zidane. Mas fica na consciência de cada um quem poderia ter se doado mais ali. Tenho comigo um palavra da Bíblia, que diz: 'Aquilo que o homem plantar é aquilo que também colherá'. É claro que todo mundo perdeu junto. Mas houve desatenção''.
Em seu desabafo, Zé Roberto garantiu que seria um equívoco atribuir a descassificação a um racha no grupo. Chegou a citar a Copa de 1998, na França, quando, ''aí, sim'', havia ''alguns atritos''. ''Naquela Copa, às vezes, surgiam desentendimentos. O Dunga reclamava muito, até no rachão, e tinha jogador que não gostava'', revelou, oito anos depois. ''Mas, dessa vez, não houve nada disso. O planejameno foi bom, o ambiente era ótimo''.
Esquema O meia está convencido de que as razões do fracasso também não passam por Ronaldo, alvo de polêmica em torno de seu peso. ''Ronaldo treinava motivado, concentrado no objetivo de se recuperar''.
O esquema com dois centro-avantes, porém, apesar de elogiar Adriano, merecem ressalvas. E se Parreira lhe pedisse uma opinião, o que responderia? ''A pergunta é difícil. Eu até escalaria os dois. Mas... onde pôr o Robinho, que sempre entrava bem nas partidas e contagiava o time? Só não é verdade que tenha havido pressão de alguns jogadores pela escalação dele. Não teve isso''.
Ficaram na cabeça do camisa 11 brasileiro na Copa perdida o silêncio profundo no vestiário, encerrado o jogo, e a frase do filho Endrik, que foi com a mãe buscá-lo no hotel depois do jantar servido aos jogadores (''também silencioso, tudo muito triste''). ''Ele viu a mãe chorando, a minha tristeza, e disse: 'Pai, chora não. No outro jogo, o Brasil vai ganhar e ir para a final'. Como eu poderia explicar para o meu filho que não haveria outro jogo?''

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