Curitiba - Curtindo merecidas férias no Litoral catarinense, o técnico Caio Júnior, que em 2007 assumirá o desafio de transformar o Palmeiras em uma equipe capaz de honrar suas tradições, relembra sua trajetória profissional, que teve como ponto alto a conquista da vaga na Libertadores da América, pelo Paraná Clube. Habitualmente tranquilo, o treinador não se altera nem quando lembra dos momentos difíceis, que o afastaram dos gramados e o levaram de volta ao posto de comentarista esportivo. Nesta entrevista, Caio também lembra com carinho das duas passagens pelo Cianorte, que projetaram nacionalmente seu trabalho.

Folha de Londrina - Qual é a sua expectativa para dirigir o Palmeiras no ano que vem?

Caio Júnior - É um motivo de muito orgulho e satisfação assumir este desafio em uma grande equipe do futebol brasileiro. Tenho que destacar que só consegui chegar neste patamar graças ao período indescritível que vivi no Paraná Clube no último campeonato, coroado com a conquista histórica da vaga na Libertadores. Não estou deslumbrado e nem iludido e sei que terei muito trabalho pela frente.

Folha - O Palmeiras é conhecido por ser um barril de pólvora prestes a explodir, graças à famosa turma do amendoim. Como é enfrentar mais este desafio?

Caio Júnior - Esta estrutura de pressão e cobrança é parte da cultura do futebol brasileiro, só varia em intensidade de acordo com o tamanho de cada clube. Para superar isto a única resposta possível é o trabalho sério e incansável. Se tiver tempo para trabalhar tenho certeza que tudo dará certo.

Folha - Você ainda pode ser considerado um técnico em início de carreira. Como é chegar neste momento a um clube tradicional do País?

Caio Júnior - Em primeiro lugar eu acho que não existe idade certa nem para jogador, nem para treinador. O que é preciso é ter competência. Basta ver o exemplo do Dunga, que nunca tinha sido técnico e assumiu a seleção brasileira. Todos os grandes treinadores do País começaram da mesma forma e assumiram cedo o desafio de dirigir grandes clubes. É só ver a trajetória do Luxemburgo para comprovar isso. Eu não vejo grandes diferenças entre trabalhar no Paraná, no Cianorte ou no Palmeiras. Mudam apenas a pressão e as cobranças.

Folha - Independente do tamanho ou da estrutura, qual é o segredo para obter sucesso?

Caio Júnior - A primeira coisa a ser feita é conquistar o respeito dos jogadores. Se o grupo tiver confiança em sua liderança e em seu trabalho os resultados com certeza virão. As conquistas que tive como jogador e técnico sempre tiveram esta marca.

Folha - Sua primeira experiência como treinador foi no Paraná Clube e sua maior conquista também. Como foram as duas passagens pelo clube?

Caio Júnior - Antes de treinar o Paraná, tive a alegria de conquistar o título estadual como jogador. Como técnico, assumi a equipe em um momento muito difícil, em 2002. A situação econômica não era boa e as chances de rebaixamento para a Segunda Divisão, faltando dez rodadas para o final do campeonato, eram, se não me engano, de 80%. Com muito esforço conseguimos manter o time na Série A, onde permanece até hoje. Foi uma conquista tão grande quanto a de um título. Já nesta segunda vez o clube estava melhor estruturado e com um grupo bem montado, que venceu o Estadual. Ajudei a reforçar a equipe com mais alguns atletas com o mesmo espírito vencedor. Os resultados foram excelentes e a vaga para Libertadores premiou nosso trabalho.

Folha - Outro clube em que você passou com sucesso foi o Cianorte. Como foram suas duas experiências no comando da equipe?

Caio Júnior - No Cianorte eu comecei o processo de formação do elenco em um clube que adotava até então um trabalho quase amador. Mas com a confiança da diretoria e muito esforço de todos no clube, fomos semifinalistas já em nosso primeiro Campeonato Paranaense, conquistando também uma vaga para a Copa do Brasil. Quando retornei no ano seguinte o trabalho já estava bem mais profissional e eu tinha certeza que passaríamos da primeira fase da Copa do Brasil.

Folha - Depois destas agradáveis experiências você viveu alguns percalços na carreira. As passagens por Londrina e Gama fizeram com que você decidisse abandonar a profissão. O que o levou a tomar esta decisão?

Caio Júnior - Acho que acontecimentos desagradáveis são comuns na carreira de qualquer treinador. Mesmo os mais famosos já viveram momentos muito ruins. O Felipão, por exemplo, já teve que sair escondido do estádio. Acho que tudo aconteceu porque tenho a virtude, que às vezes pode ser defeito, de acreditar nas pessoas com quem trabalho. Infelizmente, nestas duas equipes eu tive problemas. No Londrina tive a desagradável experiência de ser substituído pelo supervisor da equipe. No Gama o supervisor também tentou manipular o meu trabalho e eu não tinha como permanecer. Depois disso recebi algumas propostas, mas repensei se valia a pena tanto sacrifício para seguir na profissão. Voltei a ser comentarista e também abri uma escolinha de futebol em Curitiba. Foi quando fui surpreendido pela proposta do Paraná.

Folha - O que levou você a aceitar esta proposta depois de descartar outros convites?

Caio Júnior - Eu já conhecia o presidente Miranda e sabia que ele era um verdadeiro idealista, um tipo de dirigente que quase não existe mais no futebol. Ele me ofereceu a oportunidade de voltar ao clube e me deu prazo de uma hora para pensar. Eu estava no estúdio da rádio e tive que fazer uma escolha difícil.
Folha - No ano que vem o Paraná disputará a Libertadores graças ao bom trabalho desta temporada. O que você espera da participação do clube na competição continental?

Caio Júnior - Vou torcer muito para o Paraná passar pelo Cobreloa nesta primeira fase. Infelizmente o sorteio não foi muito favorável e o time terá um adversário de muita tradição. Acho que o primeiro jogo, no Chile, será fundamental. Tenho conversado bastante com o Zetti e trocado informações sobre nossos atuais clubes. Acredito que o Paraná possa passar desta fase, o que representaria um grande salto em exposição na mídia e retorno financeiro. O mais importante agora é conhecer e estudar o adversário para poder superá-lo.

Folha - Voltando ao Palmeiras, como está o trabalho de formação da equipe para a próxima temporada? E o que a vinda de reforços que você indicou traz de positivo neste processo?

Caio Júnior - Tenho evitado conversar com a imprensa nesta época de especulações, mas estou feliz por poder contar com jogadores que trabalharam comigo recentemente. Além do Edmilson e do Pierre a diretoria ainda tenta trazer o Gustavo, todos ótimos atletas. Minha idéia é ter um grupo menor e mesclado, com jogadores mais conhecidos e outros jovens valores. Esta etapa de formação da equipe, que começa efetivamente no dia 3 de janeiro, é uma fase muito importante. Temos um bom trabalho pela frente.

mockup