Caio Júnior, sinônimo de perseverança Teve todos os motivos possíveis para abandonar o futebol Foi sacaneado em clubes pequenos e viu a torcida do Flamengo invadir um treino seu e jogar bomba no gramado Porém, encontrou a redenção no Oriente Médio Aos 45 anos, o ex-atacante do Paraná e do Grêmio vive um momento especial na carreira Após uma rápida passagem pelo Vissel Kobe do Japão, o cascavelense chegou ao Al Gharafa, time dos brasileiros Juninho Pernambucano e Araújo, no meio de 2009, quando a equipe havia acabado de conquistar o bicampeonato nacional Não deixou o nível cair Faturou o tri da Liga do Catar, a Stars Cup e Copa do Sheik Tamin, todas no país árabe Hoje, é ídolo por lá
Caio Júnior foi eleito melhor técnico da última Liga, e vê com bons olhos a realização da Copa de 2022 no Catar''Vai ser a Copa mais 'vip' da história do futebol'', sentenciou Ele conversou com exclusividade com a Folha Confira:
Folha: Como é sua vida no Catar? Se acostumou fácil aos costumes e ao calor?
Caio Júnior: Me acostumei e gosto muito de viver aqui em Doha
Folha: Quais as diferenças entre trabalhar no Brasil, Japão e Catar?
Caio: Muito grandes No Japão é tudo perfeito em termos de organização e estrutura e a relação com a torcida é uma coisa muito bonita Aqui existe estrutura, mas falta organização e também não tem torcida o que é bem diferente do Brasil
Folha: Claro que você tem a missão de manter o Al Gharafa no topo do país, mas há algum pedido dos dirigentes ou até mesmo um ideal seu em tentar revelar jogadores locais e melhorar o nível dos nativos?
Caio: Meu principal objetivo é levar o Al Gharafa às finais da Champions League da Ásia Chegamos perto esta temporada, perdemos nas quartas de final para o Hilal, da Arábia Saudita, em dois grandes jogos Lançar jogadores me dá muito prazer, estou fazendo isso aqui, mas tem que ter paciência e trabalhar bastante
Folha: As grandes estrelas da Liga do Catar são estrangeiras Até que ponto isso é bom para o desenvolvimento do futebol local?
Caio: Não tem como não ser assim As estrelas tem que dar bons exemplos como o Juninho (Pernambucano) dá Isto é mutio importante na formação dos novos jogadores
Folha: Mesmo na seleção, os principais nomes são naturalizados, como o Fábio Montezine, que é daqui de Londrina Pelo que é feito hoje aí, acha que o Catar conseguirá formar um time competitivo até 2022?
Caio: Há um centro de formaçao de atletas aqui fantástico, a segunda maior estrutura do mundo, acho que até lá muitos meninos serao formados
Folha: Queria que você comentasse a escolha do Catar para o Mundial de 2022
Caio: Não foi surpresa para mim A capacidade financeira do país é absurda Eles terão tempo para fazer uma Copa inesquecível Vai ser a Copa mais''vip'' da história do futebol
Folha: Doha é um grande canteiro de obras e todas suntuosas Há muito dinheiro no Catar Mas mesmo assim, acha que eles vão conseguir fazer tudo aquilo que está no projeto?
Caio: Com certeza A cidade, que já é pura obra, deve piorar muito a partir de agora
Folha: Como é sua rotina de treinos? Tem as orações, o calor, tudo isso faz com que seja diferente daqui?
Caio: Treinamos só à tarde, o que facilita a vida com a família No verão é impressionante, passa dos 50 graus, é impossível andar na rua O horário de treino é adaptado aos horários das orações
Folha: Você passou por alguma situação constrangedora por conta de alguma diferença cultural ou até mesmo do idioma? Pode nos contar?
Caio: Tenho um intérprete que me salva muitas vezes, por telefone, quando não consigo resolver uma situação sozinho, mas o lado bom é que estou estudando e melhorando meu inglês No Japão era mais difícil, pois quase ninguém fala inglês Aqui, a maioria das pessoas se comunica bem em inglês
Folha: Seus resultados no Al Gharafa já o credenciam a assumir a seleção do Catar Já recebeu algum convite? Já se imaginou comandando a seleção local em uma Copa?
Caio: Não recebi convite, mas pensaria seriamente se recebesse Treinar uma seleção é um grande objetivo que tenho
Folha: Você passou momentos de tensão no Flamengo Até bomba no treino teve Com tudo isso e com a forma como é tratado aí no Catar, você pensa em voltar a trabalhar no Brasil?
Folha: Me revolta quando lembro das coisas que ainda acontecem no Brasil Em algumas situações, somos muito atrasados em relaçao à Europa, por exemplo No Japão, em todos os jogos, ganhando ou perdendo, os jogadores circulam nas arquibancadas e agradecem o público, que aplaude sempre os ''artistas do espetáculo''
Folha: Sua passagem pelo Londrina foi curtíssima, mas serviu para te ensinar alguma coisa? Principalmente sobre os bastidores dos clubes?
Caio: Olha Thiago, o meu início de carreira foi muito difícil, como da maioria dos treinadores É muito sofrimento, pressão, injustiças etc Aí, no Londrina, fui traído pelo supervisor (Antonio Nunes, o Lico, que foi campeão mundial com o Flamengo), que queria meu lugar, foi muito triste Mas, como diz o Muricy, a ''bola pune''

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