Ex-lateral esteve em Londrina no fim de semana, participando de evento de divulgação do álbum de figurinhas da Copa do Mundo
Ex-lateral esteve em Londrina no fim de semana, participando de evento de divulgação do álbum de figurinhas da Copa do Mundo | Foto: Ricardo Chicarelli



Foram oito peneiras até ser aprovado como jogador, persistência recompensada com dois títulos mundiais com a seleção brasileira e três de clubes com o São Paulo e o Milan, entre tantas outras conquistas. Único jogador a disputar três finais consecutivas de Copa do Mundo, o ex-lateral Cafu esteve em Londrina no último domingo (6), como parte de uma promoção do Boulevard Londrina Shopping e da Panini, editora do álbum da Copa do Mundo. Em meio a fotos e autógrafos com fãs, o multicampeão falou sobre as chances do escrete canarinho na Rússia-2018, racismo no esporte, a crise na CBF, a relação com fãs e, ao ver uma TV ligada, mostrou que o futebol está no sangue. "Volta lá, estava passando Campeonato Italiano", cobrou do responsável pelo controle remoto.

O jogador defendeu uma melhor organização do futebol brasileiro por parte dos clubes, para que o campeonato volte a ficar entre os melhores do mundo. Mesmo assim, Cafu vê a nova geração do futebol brasileiro com qualidade para trazer o hexa da Rússia, independentemente da crise política na CBF (Confederação Brasileira de Futebol), para devolver ao País o orgulho pela camisa verde e amarela.

Quem mais o assedia, pais ou crianças?
Por incrível que pareça, é geral, pais e crianças. Até porque hoje a informação é rápida, pela internet e mídias sociais, o que faz com que as crianças interajam de forma mais rápida. E, quando se fala de Copa do Mundo, a imagem que passa toda hora é levantando a taça (na Copa de 2002), em entrevistas, documentários, então fica mais visível para as crianças, mesmo que muitas não tenham me visto jogar.

Como avalia as chances da seleção na Copa do Mundo?
Tem todas as chances de ganhar a Copa. Toda grande seleção que disputa a Copa tem chance. O Brasil vem de grandes resultados, com jogadores jovens em termos de Copa, mas experientes em seus times e que já disputaram Eliminatórias, Liga dos Campeões, jogos internacionais. As seleções com tradição são sempre as que vão dar trabalho. A Inglaterra tem uma seleção jovem e muito boa, a Argentina é sempre perigosa e Portugal tem sempre uma arma preciosa. A Espanha é uma das que têm o melhor futebol do mundo pela maneira de jogar, a França, que vem com grandes jogadores. Todas vão dar bastante trabalho. E tem a Bélgica, com grandes jogadores e que pode dar trabalho também.

A sua posição hoje é uma das que ainda têm vagas em aberto na seleção. Quais jogadores têm mais chances de ir para a Copa?
O Daniel Alves é um que vai. Só não falo o nome de outro lateral para não influenciar e nem acabar deixando para trás outros grandes laterais. O Tite sabe do que precisa, quem levar, na direita e na esquerda, então quem ele convocar é porque já viu e sabe o que esse atleta pode fazer pela seleção.

Como capitão, como avalia o jogo em que a seleção perdeu por 7 a 1 na Copa passada?
O 7 a 1 acabou, passou. Não podemos entrar em 2018 com a lembrança dos 7 a 1, como não entramos nas outras copas com a lembrança de 1950, quando perdemos no Maracanã, para o Uruguai. Passamos a borracha. Toda derrota traz um aprendizado. Perdemos em 1998 e ganhamos em 2002, mas não entramos em 2002 pensando na derrota de 98. Entramos pensando em ser campeões do mundo e é o que tem de acontecer agora. Nem sabemos se vamos enfrentar a Alemanha novamente. O que aconteceu só vai acontecer de novo em cem anos, e olhe lá.

Você havia dito que o Dunga não deveria ter o trabalho interrompido. Ainda pensa dessa forma?
Penso. Tenho minha personalidade, minha maneira de pensar. Ele não deveria ter saído, mesmo que o Tite tenha feito esse excelente trabalho, classificando para a Copa com quatro jogos de antecedência. O que sempre falei é que, com o Dunga, também iríamos para a Copa, mesmo que nos classificássemos no último jogo, no sufoco. O que não concordo é interromper o trabalho de um treinador, seja quem for, durante uma competição. Os treinadores fazem uma programação de começo, meio e fim, e, se interromper no começo, é óbvio que vão falar que esse treinador não presta. Nada contra o Tite, pelo contrário, ele entrou e deu outro padrão de jogo para a seleção brasileira, mas não concordo com a maneira como o Dunga foi mandado embora.

E isso acontece muito isso no Brasil...
Isso parece regra no Brasil e temos de acabar com esse paradigma. O treinador tem de ter tempo para trabalhar, não pode ser mandado embora com três meses de trabalho. É uma falta de respeito.

O Tite promove um rodízio com a braçadeira de capitão. Não ter uma figura centralizada, como era no seu caso, pode atrapalhar?
De maneira nenhuma. Depois que o Tite começou a fazer esse rodízio, a seleção começou a andar, os meninos começaram a criar responsabilidade. Ele deu responsabilidade aos jogadores. Antes, a responsabilidade era de um único jogador, do Neymar, de fazer tudo. Hoje ele divide essa responsabilidade com os outros meninos, e isso é legal.

A CBF passa por um momento turbulento, com presidente que cai, outro que é preso. Isso pesa de alguma maneira no grupo?
Não. É óbvio que ter um presidente que não pode viajar com a seleção atrapalha, não é o normal. O presidente tem de estar em todas as competições. Infelizmente não tínhamos um presidente atuante, devido a motivos já conhecidos, mas isso não influenciou os atletas. Tanto que nos classificamos com quatro jogos de antecedência, sem que nosso presidente viajasse com a seleção. Não temos de usar isso como uma desculpa. É triste, é chato, mas temos um novo presidente (Rogério Caboclo) assumindo que vai acompanhar a seleção.

Como avalia a organização do futebol brasileiro, em relação à CBF, aos clubes e aos campeonatos?
O futebol brasileiro não é tão profissional quanto os outros campeonatos. Falta profissionalismo na organização dos campeonatos. Há muitos anos, tínhamos um dos melhores campeonatos do mundo e hoje já não é mais. Perdemos para outros que nem poderíamos imaginar, mas acho que falta um pouco mais de profissionalismo e responsabilidade de dirigentes para organizar um campeonato brasileiro. Não são só os jogadores, eles são importantes também.

Você já comentou sobre o racismo no Brasil e já sofreu com isso na Itália. Na Rússia, houve casos do tipo com jogadores brasileiros. Acha que isso pode atrapalhar a Copa?
É um problema do mundo. Vivemos isso aqui, em casa, então como vamos cobrar algo dos russos se na nossa própria casa sofremos com esse tipo de preconceito?

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