O estádio do Café completa 50 anos neste sábado (22), justamente em um dia de jogo oficial, mas sem perspectiva de casa cheia, pelo contrário. Palco de grandes momentos do Londrina Esporte Clube, de partidas da seleção brasileira, e de confrontos entre alguns dos principais times do país, o estádio vive hoje uma realidade bem diferente.
Atualmente, o Café recebe principalmente jogos da Terceira Divisão do Campeonato Paranaense, além de eventos corporativos e até chá revelação de influenciadores. O Londrina, que por décadas teve o estádio como sua principal casa, se estabeleceu no Vitorino Gonçalves Dias (VGD) e utiliza o Café apenas para alguns treinamentos ou quando o VGD não tem condições de receber partidas.
Neste sábado, às 15h30, City London e PSTC se enfrentam pela fase de grupos da Terceirona. A expectativa é de um público pequeno para o maior estádio do interior do Paraná, que atualmente tem capacidade liberada para apenas 19.999 torcedores.
O número está muito distante dos 54.178 torcedores que lotaram o estádio em 15 de fevereiro de 1978, na partida entre Londrina e Corinthians pelo Campeonato Brasileiro de 1977. O Tubarão venceu por 1 a 0, naquele que permanece como o maior público da história do Café. Foi a melhor participação do LEC na Série A do Brasileiro: o time eliminou Caxias, Flamengo, Corinthians, Santos e Vasco no seu grupo e foi à semifinal contra o Atlético-MG. Acabou eliminado pelo Galo, de Reinaldo e Toninho Cerezo, e terminou na quarta colocação atrás de Operário-MS, Atlético-MG e São Paulo, campeão de 1977.
“O estádio do Café nasceu para o Londrina ser grande.” A frase, repetida há décadas pelo radialista Jota Mateus, ajuda a dimensionar a importância que o local teve para o futebol da cidade. Hoje, porém, a relação com o Londrina é bem mais discreta.
Em 2026, o Tubarão disputou todo o Campeonato Paranaense no Café, incluindo a decisão contra o Operário, visto que o VGD passou por uma troca de gramado. A final, perdida nos pênaltis pelo time alviceleste, levou 19.965 torcedores ao estádio e estabeleceu o maior público da temporada. Também foi, até agora, o último jogo de elite realizado no local.
Desde então, Portuguesa Londrinense e City London passaram a utilizar o Café em partidas da Terceira Divisão do Campeonato Paranaense.
Na história do Tubarão
Quatro dos principais títulos da história do Londrina foram conquistados no estádio do Café. No local, o Tubarão levantou dois troféus do Campeonato Paranaense (1981 e 1992), a Copa da Primeira Liga, torneio nacional já extinto, em 2017, e a histórica Taça de Prata, a Série B do Campeonato Brasileiro, em 1980.
A conquista nacional de 1980 foi uma das mais importantes da história alviceleste. Diante do CSA, o Londrina venceu por 4 a 0, diante de mais de 43 mil torcedores. Zé Antonio, Lívio e Paulinho Canhão de Pinhal, duas vezes, marcaram os gols da vitória. Com o resultado, o Tubarão se tornou o primeiro clube paranaense a conquistar um título nacional, e fez isso dentro do Café.
No ano seguinte, o Londrina voltou a comemorar um título no estádio. O time foi campeão paranaense de 1981 diante do Grêmio Maringá. Depois de vencer o primeiro jogo por 3 a 2, o Tubarão ganhou a partida decisiva por 2 a 1. O gol do título foi marcado de cabeça por Carlos Alberto Garcia, maior ídolo da história do clube.
Em 1992, o Café voltou a ser palco de uma decisão histórica. Londrina e União Bandeirante disputaram os três jogos da final do Campeonato Paranaense no estádio, por decisão da diretoria do União, que também levou para o local o mando de campo.
Depois de dois empates, o Tubarão conquistou o título no terceiro confronto, com uma vitória por 1 a 0. O gol da conquista foi marcado pelo zagueiro João Neves, em outro momento que entrou para a história do estádio e do clube.
Em 2015, o Café foi palco de uma conquista que não valia taça, mas teve clima de título. Depois de dez anos longe da Série B, o Londrina garantiu o retorno à segunda divisão nacional diante do Confiança. Com gol de Luizão, o Tubarão venceu por 1 a 0 e fez o estádio explodir em uma das maiores festas de sua história recente.
O Londrina voltaria a levantar um troféu no Café somente 25 anos depois do título estadual de 1992. Em 2017, o clube conquistou a Copa da Primeira Liga em uma campanha marcada por duas grandes decisões contra gigantes mineiros.
Na semifinal, o Tubarão enfrentou o Cruzeiro e chegou a estar perdendo por 2 a 0. A equipe reagiu, buscou o empate por 2 a 2 nos minutos finais e garantiu a classificação nos pênaltis.
A decisão foi disputada em jogo único no Café. Do outro lado estava o Atlético-MG, que tinha jogadores como o goleiro Victor e os atacantes Robinho e Fred. Após empate sem gols no tempo regulamentar, o título foi decidido novamente nos pênaltis.
O então jovem goleiro César foi o grande personagem da decisão. Ele defendeu duas cobranças e ajudou o Londrina a conquistar a Primeira Liga, em uma das noites mais marcantes da história recente do estádio do Café.

O Brasil no Café
Ao longo de 50 anos, o estádio do Café foi palco de partidas que colocaram Londrina no roteiro dos grandes clubes do futebol brasileiro. No jogo de inauguração, em 22 de agosto de 1976, o Flamengo foi o convidado do Londrina para a estreia oficial do estádio. As equipes empataram por 1 a 1.
O confronto inaugural foi apenas o começo. O próprio Londrina recebeu no Café alguns dos principais clubes do país em partidas oficiais, como Corinthians, Santos, Vasco, Botafogo, Atlético-MG e Cruzeiro, entre outros.
O estádio também se tornou uma alternativa para grandes clubes que, eventualmente, escolhem Londrina para disputar partidas. A tradição continua até hoje, principalmente com equipes do futebol paulista.
Em 2026, o Palmeiras foi ao Café para o confronto contra o Jacuipense-BA pela Copa do Brasil. Mais de 17 mil torcedores acompanharam a partida. Corinthians e Santos também já utilizaram o estádio em competições nacionais. O Timão disputou no local partidas da Copa do Brasil e da Série B, enquanto o Santos também jogou a segunda divisão no Café.
O estádio ainda recebeu amistosos de grande repercussão. Em 2012, por exemplo, Flamengo e Corinthians se enfrentaram no Café em um jogo de pré-temporada.
Além dos grandes clubes brasileiros, o Café também recebeu a seleção brasileira. Em 1991, o Brasil enfrentou a Romênia em um amistoso no estádio, sob o comando do técnico Paulo Roberto Falcão. A equipe venceu por 1 a 0, com gol de Moacir, naquela que foi a primeira vitória de Falcão à frente da seleção.
Nove anos depois, Londrina voltou a receber a seleção em uma competição oficial. Em 2000, o Café foi uma das sedes do Torneio Pré-Olímpico Sul-Americano, que definiu os representantes do continente nos Jogos Olímpicos de Sydney.
A cidade recebeu 15 partidas de seleções em 18 dias de competição. O Brasil, comandado por Vanderlei Luxemburgo, disputou sete jogos no estádio, com cinco vitórias e dois empates, e garantiu a classificação para as Olimpíadas.
Na primeira fase, a seleção empatou com o Chile por 1 a 1 e venceu Equador por 2 a 0, Venezuela por 3 a 0 e Colômbia por 9 a 0. No quadrangular final, derrotou a Argentina por 4 a 2, o Chile por 3 a 1 e empatou com o Uruguai por 2 a 2.
A campanha teve entre os protagonistas jogadores que se tornariam grandes nomes do futebol brasileiro, como Ronaldinho Gaúcho e Alex. Durante aqueles 18 dias, o estádio do Café foi o centro das atenções do futebol sul-americano.

E agora?
Em contato com a FOLHA, a FEL destacou uma série de melhorias realizadas no estádio do Café nos últimos meses, com recursos próprios, para atender às exigências de segurança e infraestrutura. Entre as intervenções está a troca do sistema de irrigação, incluindo aspersores e tubulações, além do reparo da bomba d’água e da automatização do sistema.
Também foram pintadas as escadarias da arquibancada descoberta e os muros dos anéis superior e inferior. Para atender às exigências da Polícia Militar, foi instalado um obstáculo visual fixo para separar as torcidas mandante e visitante, além de 22 câmeras de segurança.
As torres metálicas de iluminação receberam novos reatores e lâmpadas. Também foi instalado ar-condicionado na sala destinada à arbitragem e ao VAR. No gramado, foram realizados serviços de descompactação, aeração, aplicação de adubo orgânico e plantio de grama de inverno.
Outra intervenção foi a criação de um sistema autônomo de abastecimento de água na primeira fase da área das cadeiras cobertas. Foram instalados 240 metros de uma nova rede de interligação, destinada a dez caixas d’água com capacidade de 10 mil litros cada.
Para atender às exigências do Corpo de Bombeiros, o estádio também ganhou seis novas escadarias na primeira fase da arquibancada descoberta. A obra acrescentou 254 degraus e 96 corrimãos duplos de três metros.
A FEL informou ainda que foi instalado um novo transformador elétrico para atender à rede das torres da área coberta. As intervenções fazem parte das medidas adotadas pelo município para manter o estádio do Café em condições de receber partidas e eventos, enquanto não avança um projeto mais amplo de modernização do complexo.

Expectativa
A principal aposta para viabilizar uma modernização efetiva do estádio do Café passa pela iniciativa privada. Em junho deste ano, a Prefeitura de Londrina abriu um chamamento público para receber estudos técnicos que servirão de base para um projeto de concessão unificada de todo o complexo esportivo, formado pelo estádio, pelo Autódromo Internacional Ayrton Senna e pelo Kartódromo Luigi Borghesi.
A proposta prevê conceder a gestão do complexo à iniciativa privada por 35 anos, com expectativa de atrair investimentos capazes de recuperar estruturas que hoje sofrem com o desgaste provocado pelo tempo. Até o momento, porém, a Prefeitura ainda não divulgou o andamento da fase de estudos.
O presidente da Fundação de Esportes de Londrina (FEL), Felipe Prochet, afirmou em mais de uma oportunidade que apenas uma intervenção básica no estádio do Café exigiria cerca de R$ 35 milhões. O valor seria destinado à recuperação da parte elétrica, das torres de iluminação, da rede hidráulica e de outros sistemas estruturais, sem alterar o desenho ou a configuração das arquibancadas.
O orçamento dessa primeira etapa já estaria pronto. O desafio, no entanto, é encontrar recursos para executá-lo. Um investimento desse porte é considerado difícil de ser assumido exclusivamente pelo poder público.
A ideia de recorrer à iniciativa privada não é nova. Em outubro de 2023, ainda na gestão do ex-prefeito Marcelo Belinati, um grupo de arquitetos apresentou um projeto de revitalização do estádio do Café. Na ocasião, Belinati afirmou ver a proposta "com bons olhos", mas condicionou sua viabilização a uma parceria público-privada.
Quase três anos depois, o projeto continua sem sair do papel, enquanto o estádio chega aos 50 anos aguardando a definição de um modelo capaz de devolver protagonismo a um dos principais patrimônios esportivos do Paraná.

