Brilho eterno da seleção de 82
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quarta-feira, 05 de julho de 2017
Rafael Franco<br>Agência Estado 

São Paulo - Em sua gloriosa história de quem ostenta a única seleção pentacampeã mundial de futebol, o Brasil nem sempre conseguiu provocar nestas campanhas vitoriosas aquela sensação de encantamento que hipnotizou os torcedores do País durante a Copa de 1982, na Espanha. Com uma seleção com craques como Júnior, Zico, Sócrates e Falcão na equipe titular, despontou como grande favorita ao título, mas o time dirigido por Telê Santana acabou sendo eliminado da competição pela Itália ao sofrer a derrota por 3 a 2 que completou 35 anos na quarta-feira (5) e até hoje é lembrada como um dos momentos mais traumáticos da história do time nacional.
No dia 5 de julho de 1982, o Brasil foi vítima do carrasco Paulo Rossi, autor dos três gols italianos naquele confronto que ficou conhecido como a Tragédia do Sarriá, em alusão ao nome do estádio que ficava em Barcelona e seria implodido em 1997, levando junto com suas ruínas a dura lembrança que ficou tatuada na alma do torcedor brasileiro.
Entrevistados para recordar o drama que viveram como titulares daquele time comandado por Telê Santana, o ex-zagueiro Oscar e o ex-camisa 10 Zico revelaram que ainda recebem cartas de fãs que continuam idolatrando a magia daquela seleção e deixam em segundo plano o insucesso esportivo que ajudou a promover o pragmatismo visto em outras gerações do time nacional, como por exemplo no Brasil que triunfou de maneira sofrida no Mundial de 1994.
"Quando chegamos aqui no Brasil após a Copa eu pensei que seríamos hostilizados, mas a reação dos torcedores foi muito positiva. Por incrível que pareça, vários jogadores daquela seleção ainda recebem muitas cartas pelo futebol que jogamos lá. Eu mesmo recebo cartas até hoje só falando de 1982, com pessoas que pedem pra assinar fotos daquele time e mandar de volta. Isso não tem preço", ressaltou Oscar.
"Eu tive a oportunidade de ir a diversos lugares do mundo e todos falam e querem saber da seleção de 1982. Essa seleção marcou muito. É lógico que, se tivesse vencido a Copa, seria melhor, mas a derrota faz parte do jogo. Realmente foi uma seleção de grande técnica, de grandes jogadores, e que jogava um grande futebol", endossou Zico.
Ao voltar 35 anos no tempo, porém, é difícil separar a linha tênue que existe entre o futebol vistoso - e muitas vezes genial - exibido pelos craques daquela seleção e o insucesso esportivo amargado naquele Mundial. "Foi o baque maior que eu levei. O vestiário depois do jogo, aquele silêncio, o retorno para o hotel com os torcedores com a bandeira debaixo do braço. Antes dos jogos sempre tinha aquela batucada dos torcedores e foi triste ver o que aconteceu após a partida contra a Itália, em que o estádio estava 'pintado' de amarelo", relembrou Oscar.
TELÊ E O JOGO BONITO
Embora tenha ficado marcado como a seleção que brilhou, mas não ganhou, o time dirigido por Telê é, para muitos, o que apresentou o melhor futebol do Brasil desde então em uma Copa do Mundo. E o mestre, adjetivo que carregou até o fim de sua carreira, teve papel fundamental para que a seleção de 1982 encantasse com um estilo de jogo que sempre priorizou a busca incessante pelo gol e a lealdade campo. Ao falar do técnico morto em 2006, Zico e Oscar defendem que o treinador não pode ser criticado por ter sido fiel à filosofia que implementou na equipe até o fim, apesar da vantagem que o Brasil tinha de poder empatar com a Itália para avançar naquele Mundial.
"Logo depois que o Falcão empatou o jogo (em 2 a 2), o Telê já fez a substituição, tirando o Serginho (atacante) e colocando o Paulo Isidoro, e a gente passou a ter maior poder de marcação, assim como estávamos com dez jogadores dentro da nossa área quando eles fizeram o terceiro gol. Quando não tem quer ser, não acontece mesmo. O futebol tem dessas coisas. Naquele dia, individualmente, infelizmente erramos mais do que o normal", enfatizou Zico.
Oscar, por sua vez, fez questão de ressaltar que é um "fã" do trabalho de Telê, mas reconhece que o comandante pagou um preço por não abdicar de sua filosofia. "Uma coisa muito interessante é o fato de que o Telê era um treinador exigente, não gostava de carrinho. Em treinos, se alguém fizesse uma falta mais dura, ele ficava do lado do jogador falando 'meia hora', que tinha que roubar a bola sem falta. Tinha muito esse cuidado de valorizar a posse de bola. Ele tomava cuidado mais com as bolas paradas (dos rivais), sabia quem tinha que marcar este tipo de jogada nos escanteios, mas ele impunha seu estilo de jogo. Tanto foi que nós perdemos para a Itália talvez por esse motivo, por não jogarmos com o regulamento debaixo do braço", analisou o ex-defensor.
'Ganhar é muito mais do que erguer troféu'
São Paulo - Um dos maiores craques da história do futebol brasileiro, Paulo Roberto Falcão ainda se emociona quando fala da reverenciada seleção que defendeu como titular do meio-campo do time comandado por Telê Santana na Copa do Mundo de 1982. Embora o Brasil tenha sido eliminado de forma traumática, o ex-jogador ressaltou que no final das contas o mais importante foi o legado histórico e a impressão altamente positiva que aquela equipe deixou para os torcedores em todo o mundo.
O próprio fato de esta seleção ainda ser exaltada pelo futebol arte que exibiu, apesar de ter caído antes das semifinais daquele Mundial, já é considerado por Falcão um argumento mais do que suficiente para que aquele time seja reconhecido como um dos maiores que o Brasil e o próprio futebol viu jogar ao longo da história. E ele citou exemplos de outras seleções que deixaram saudade mesmo sem ficar com o título de uma Copa.
"A Hungria de 1954, por exemplo, eu não vi jogar, mas era a favorita a ganhar a Copa naquele ano e não ganhou. Tem times que não ganharam que ficaram na história, como a Holanda de 1974 (vice-campeã no Mundial daquele ano). Eu gosto de time que jogue bem. Gosto de time que jogue bola, do goleiro ao número 9. É claro que não é fácil perder, mas nós poderíamos simplificar assim o que aconteceu em 1982: o futebol não é uma questão de justiça. O futebol é um jogo e pode acontecer de tudo em um jogo. A justiça não faz parte de futebol", afirmou Falcão em entrevista exclusiva ao Estado, por telefone, direto da Itália, onde estava para receber um prêmio como lenda do futebol e onde alcançou o apelido de Rei de Roma pelos feitos históricos que conquistou pelo clube na primeira metade da década de 1980.
Falcão lembra que não é por acaso que a seleção brasileira de 1982 ainda é exaltada, fato que ele considera único para uma seleção que sequer chegou às semifinais de uma Copa, diferentemente do que aconteceu por exemplo com a Hungria e com a Holanda, que caíram com grandes esquadrões e não confirmaram o favoritismo que defendiam em decisões contra a Alemanha, respectivamente nas Copas de 1954 e 1974.
"Trinta e cinco anos depois é muito difícil falar sobre a seleção de 1982 e a comparar com outras seleções. E quem tem 40 anos hoje não lembra daquele time. Fica difícil fazer algum comentário pra quem não viu a seleção de 1982 jogar, mas ainda se fala daquele seleção, e que não ganhou. Repito: que não ganhou. Até fiz um livro para falar sobre isso, cujo título é 'O time que perdeu a Copa e conquistou o mundo'", afirmou o ex-meio-campista ao citar a publicação da editora AGE que foi lançada no início de 2012, ano em que se completaram três décadas da Tragédia do Sarriá.
Também ex-técnico da seleção brasileira, pela qual teve passagem curta entre 1990 e 1991 depois de ter defendido o time nacional como jogador no período entre 1976 e 1986, Falcão ressaltou que, mais do que ganhar títulos, uma equipe ou seleção precisa deixar uma marca de quem ao menos tentou apresentar um futebol bonito ou bem jogado aos olhos dos torcedores. "As pessoas se enganam quando dizem que ganhar é levantar troféu. Ganhar é muito mais do que isso". (R.F)


