Briguento mas nem tanto
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sábado, 13 de agosto de 2016
Lucas Vettorazzo, João Pedro Pitombo e Guilherme Seto<br> Folhapress 

Rio, Salvador e São Paulo - Quando criança, Robson Conceição, 24 anos, sonhava em lutar. Não no ringue, mas nas ruas do Carnaval de Salvador. De porte franzino, decidiu que tinha que aprimorar suas técnicas para levar a melhor sobre outros meninos. O objetivo era alcançar o mesmo nível de prestígio do tio materno, um dos maiores brigões da capital baiana.
Um amigo que já treinava boxe passava as técnicas ao menino, então com 13 anos, no quintal de casa. A manopla (espécie de almofada que os boxeadores usam para golpear em treinos) era improvisada com sandália de borracha. A atadura, usada sob a luva para proteger o punho, Conceição conseguia no pronto-socorro ao forjar pequenos acidentes. Criado pela avó no bairro de classe média baixa de Boa Vista de São Caetano, Conceição trabalhou como vendedor de picolé, ajudante de cozinha e feirante.
Foi devido à abertura de um projeto social no bairro, onde eram ministradas aulas de boxe, que o menino viu abrir portas e oportunidades. Ele foi campeão brasileiro aos 17 anos, lutando com um oponente que tinha quase o dobro da sua idade. Hoje, ele disputa a semifinal do peso leve (até 60kg) às 12h30 contra o cubano Lázaro Jorge Álvarez e garante pelo menos mais uma medalha de bronze ao Brasil na Olimpíada do Rio-16.
Conceição é bicampeão Pan-Americano, prata no Mundial do Cazaquistão-13 e bronze no Qatar-15. Medalha olímpica era o que faltava em seu currículo. "Foram quatro anos sofridos de treinamentos depois de Londres. Hoje estou mais maduro. O erro de hoje nos faz colocar a cabeça no lugar no dia seguinte."
Conceição divide seu tempo entre Salvador, onde vive com sua mulher, Érika, e a filha do casal, Sophia, 2, e São Paulo, onde treina o time de boxe do Brasil.
O pugilista pediu a mulher em casamento pela TV, no Pan-Americano de Guadalajara, México, em 2011, após garantir a medalha de bronze. "Espero ganhar a medalha de ouro como presente de dia dos pais."
Questionado se seguirá o exemplo dos irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão, que migraram para o boxe profissional depois de conseguirem medalhas em Londres, Conceição desconversou. "Não estou pensando no que vai acontecer depois. Estou bem concentrado na medalha."
Três dos nove representantes brasileiros do boxe na Rio-2016 se formaram na mesma academia, a Champions, comandada pelo treinador Luiz Dórea, na periferia de Salvador. A Bahia é há 12 anos o principal estado a fornecer atletas para o esporte no País.
Também treinados por Dórea, Robenilson de Jesus segue na competição na categoria de peso galo (até 56 kg) e enfrenta hoje o norte-americano Shakur Stevenson, às 12h15, pelas oitavas de final, e Adriana Araújo lutou, mas não conseguiu evitar a eliminação na sexta-feira.
A Champions funciona como projeto social e atendeu cerca de seis mil crianças e adolescentes nas últimas três décadas com aulas gratuitas de boxe. O projeto é mantido por Dórea com recursos próprios e com a ajuda de ex-alunos.
"É quase um milagre formar tantos atletas de nível sem nenhum apoio do poder público. Conseguimos fazer da Bahia o coração do boxe no Brasil", diz Dórea, que foi treinador da seleção brasileira de boxe em Atenas-2004 e Pequim-2008.
A Bahia teve destaque em quase todas das últimas participações do boxe brasileiro na Olimpíada. Nos últimos quatro Jogos - Rio, Londres, Pequim e Atenas - 17 das 30 convocações foram direcionadas a atletas do estado.


