Quando o árbitro Sidrack Marinho apitar hoje o início da partida entre Vasco e Corinthians, os torcedores, no estádio ou assistindo ao jogo pela TV, terão de se reeducar. De 10 de junho até a perda da Copa pela Seleção, há 13 dias, o enorme espaço dedicado pela mídia à competição os tornou íntimos das maiores estrelas do futebol mundial.
Quem dará o pontapé inicial do encontro do Maracanã, abrindo o Campeonato Brasileiro, não será mais Ronaldinho, Michael Owen, da Inglaterra, Davor Suker, da Croácia, ou o argentino Gabriel Batistuta, como todos se acostumaram a ver por mais de um mês. A torcida terá de conviver com outra realidade, menos glamourosa que a da Copa, como a representada pelos esforçados, mas menos famosos Mirandinha, do Corinthians, e Donizete, do Vasco.
Apenas seis dos 22 convocados por Zagallo para o Mundial da França participarão da competição, assim como somente seis atletas de outras seleções estão no elenco dos 24 clubes do Brasileiro. Ao mesmo tempo, porém, existe a tese de que é bom para o futebol a ausência da maioria dos craques da Copa, podendo revelar uma nova geração de jogadores.
Apesar de não pagar ingresso para assistir aos jogos da Copa, os torcedores gastaram um bom dinheiro nesse período, acrescenta Luis Felipe Scolari, do Palmeiras, o que contribui para afastar o público dos estádios. ‘‘Programaram só clássicos para essa primeira rodada para criar uma expectativa maior, mas depois o interesse cairá novamente.’’ A sua visão é semelhante à de Luxemburgo quanto à projeção do Brasileiro. ‘‘Daqui a um mês, mais ou menos, os números voltarão a ser os mesmos dos registrados nas últimas edições do campeonato.’’
Mas nem tudo é pessimismo quanto ao que pode acontecer nos estádios do Brasil durante o Brasileiro. O grande período de preparo que os clubes tiveram, em razão da pausa das suas atividades por causa da Copa, elevará o nível da preparação de modo geral, física e técnica. A explicação é de Luxemburgo. ‘‘Não vai ser fácil conseguir uma vaga entre os oito finalistas, haverá maior equilíbrio entre as equipes.’’ O próprio regulamento está ajudando para que a disputa seja intensa. ‘‘De novo quatro times serão rebaixados’’, observa o treinador.
A renovação que deve ser promovida na Seleção é lembrada pelo ex-jogador Clodoaldo, campeão do mundo em 1970, como o maior estímulo para os atletas que irão disputar o Brasileiro. ‘‘O Brasil tem essa qualidade, renovar seus craques e, com o fim de uma geração, este é o momento certo para aparecer.’’ Sua análise coincide com a de Scolari, que explica a presença de apenas seis jogadores da Seleção no Brasileiro como uma opção de Zagallo.
‘‘Ele achou que era melhor recorrer aos nossos jogadores que atuam no exterior, há atletas aqui perfeitamente capazes de jogar na Seleção.’’ A renovação que se aproxima do time do Brasil é tambem citada por Luxemburgo. A exemplo de Clodoaldo, o treinador do Corinthians acredita que muitos atletas têm consciência de que campeonato que começa hoje representa uma grande chance de mostrar seu trabalho.
Para muitos profissionais de futebol do País, portanto, não há mistério: o Brasileiro terá três fases distintas de interesse. A primeira, que começa hoje, com os principais clássicos regionais, onde a atenção da torcida será grande. Logo a seguir o campeonato experimentará um fase de recessão de interesses. Por fim, quando a competição estiver próxima de definir seus oito finalistas, a Copa do Mundo já estará longe, as despesas com as comemorações do Mundial absorvidas e as partidas serão mais atrativas. Será hora de os torcedores se animarem para voltar aos estádios.

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