Roseane Santos, a Rosinha, tornou-se em Sydney a primeira mulher brasileira a ganhar dois ouros em uma mesma edição de Jogos Olímpicos ou Paraolímpicos. Antes dela, Luis Cláudio Pereira conseguiu o ouro em três provas – o arremesso de peso e os lançamentos de disco e de dardo – na Paraolimpíada de Seul, em 88.
Rosinha, que já venceu o arremesso de peso e o lançamento de disco na Paraolimpíada-2000 (categoria F58, para atletas que competem sentadas), pode repetir o feito de Pereira, mas diz que, se isso acontecer, será um ‘‘absurdo’’.
A atleta de 29 anos, que conquistou também os recordes mundiais das duas provas, disputará o lançamento de dardo amanhã à noite. ‘‘Vou ficar em quarto ou terceiro. Se conseguir ganhar uma prata, vai ser um absurdo.’’ Rosinha, que participa de sua primeira Paraolimpíada, era considerada zebra nas duas provas que venceu. No arremesso de peso, sua melhor marca era 7,77 metros. A tunisiana Khadija Jaballah, então dona do recorde mundial, tinha como melhor marca 8,50. Em Sydney, ela chegou aos 9 metros. Khadija ficou com a prata.
No lançamento de disco, Rosinha tinha a marca de 28,60 metros. O recorde mundial, de 29,95, novamente pertencia a Khadija. O duelo entre as duas foi apertado. Em seu terceiro lançamento, Rosinha conseguiu 30,1 metros. Khadija, contudo, melhorou a marca em sete centímetros.
Na segunda série de três tentativas, com as oito melhores atletas, Rosinha obteve dois recordes mundiais: 30,44 (quarto lançamento) e 31,58 (sexto). Khadija lançou 30,29 (quinto) e 30,82 (sexto).
Para o técnico de Rosinha, Francisco Matias, a falta de treinamento é a razão para a dificuldade da brasileira no lançamento de dardo. Segundo ele, o único dardo que a ADM (Associação dos Deficientes Motores) – entidade de Recife pela qual Rosinha compete no Brasil – possui foi doado em 1985. A atleta chega a treinar com dardos de bambu.
‘‘A ADM não tem recursos para adquirir outro. Dardo no Brasil é muito caro, custa entre R$ 600 a R$ 1.250’’, disse Matias. Ele explicou que o problema de treinar com apenas um dardo é o fato de ter que buscar o objeto após cada arremesso, prejudicando o aquecimento da musculatura.
Além disso, desde que a ADM recebeu o dardo de presente, a Iaaf (Federação Internacional de Atletismo) mudou as regras da prova e o centro de gravidade do objeto, o que altera toda a técnica para o lançamento.
Segundo Matias, que além de orientar os atletas também produz cadeiras personalizadas para seus pupilos, uma das vantagens de Rosinha é sua cadeira. Ele diz que todas as cadeiras que viu em Sydney são ruins e poderiam ficar mais próximas da linha-limite.
Apesar de dizer que Rosinha não tem tantas chances no lançamento de dardo, Matias fez questão de ressaltar que a atleta evoluiu muito e pode surpreender. ‘‘No Pan de 99, ela conseguiu 7,77 (peso). Agora, 9 m. Ela é quem mais evoluiu no mundo.’’ Apesar de dizer que ‘‘conseguir a prata será um absurdo’’, Rosinha concorda que pode surpreender no dardo. ‘‘Na primeira Paraolimpíada, ganhar duas provas e quebrar dois recordes mundiais também é absurdo, não é?’’
Rosinha soube ontem que havia ganho uma prótese em Recife, onde mora. Contudo, ela disse que pretende comprar uma da Alemanha, que custa R$ 16 mil. ‘‘É a melhor que existe.’’ Atualmente, a atleta recebe por mês, de dois patrocinadores, cerca de R$ 900.
Segundo o técnico Matias, a vontade da atleta, que nunca usou prótese, é andar de bicicleta e dançar. Rosinha perdeu parte da perna esquerda após um acidente em 1990. Ela foi atropelada, na calçada em frente de sua casa, por um caminhão e, traumatizada, ficou quase dois anos sem sair de casa.