Dortmund - O que são números para descrever o futebol brasileiro? Num dia em que o Brasil só foi Brasil nos números finais do jogo, é muita coisa. Ainda sem empolgar, a seleção enfiou 3 a 0 em Gana e chegou às quartas-de-final da Copa da Alemanha, em que enfrentará a França, sábado, em Frankfurt. Foi uma exibição simbólica do time de Parreira e sua arte, talvez inigualável, de ganhar bem sem jogar bem. Para uma história gloriosa como a brasileira, a vitória ganha a pompa esperada graças à série de recordes individuais quebrados em 90 minutos.
Poucos torcedores brasileiros guardarão esse como um jogo inesquecível de Copa do Mundo. Mas Ronaldo o fará, pois ontem ele passou a ser sozinho o maior artilheiro da história dos Mundiais, com 15 gols, um a mais que o alemão Gerd Muller. Cafu também se lembrará desta terça-feira daqui a 30, 40 anos. Nela, superou Taffarel e Dunga como o maior participante brasileiro em Copas (19). Até Adriano, que anda em baixa por aqui, teve a honra de marcar o 200º gol da seleção brasileira no torneio. E, num país que não dá muita bola para zagueiros, Lúcio chegou ao seu quarto jogo seguido sem cometer uma falta. Pelo mesmo motivo, em 1998, o paraguaio Gamarra foi exaltado como o beque mais leal do planeta.
São números e fatos para qualquer outra seleção morrer de inveja. A do Brasil sempre é cobrada um pouco mais, até por torcedores alemães que ontem foram ao Estádio de Dortmund vaiar os brasileiros. Medo de enfrentá-los, talvez, mas também um pouco de decepção por não verem um show em campo. A seleção venceu com a autoridade de pentacampeã, porém mais por ser isso mesmo, pentacampeã, do que por ter brilhado. Seus jogadores são tão superiores aos de Gana e mais experientes, mais disciplinados, mais técnicos, etc que puderam jogar metade do que sabem.
Com quatro minutos, bastou a Ronaldo receber bom passe de Kaká para avançar como nos velhos tempos e dar drible humilhante no goleiro Kingson antes fazer seu gol histórico. No estádio, foi a hora de ouvir um grito típico do Maracanã, com palavrão e tudo, que termina com as palavras ''Ronaldo apareceu''.
Adriano também apareceu livre, aos 13, na frente do goleiro ganês, mas tentou imitar Ronaldo no drible. Perdeu a bola e ganhou um cartão amarelo por simular o pênalti. Por alguns minutos, os torcedores brasileiros devem ter praguejado contra Adriano porque, a partir daí, Gana ameaçou a vitória. Com uma forte marcação e aproveitando-se dos passes errados do Brasil, os africanos tiraram a seleção brasileira do altar e foram para cima. Ali poderia ter complicado o jogo, mas não o fez. Aos 23, Amoah recebeu a bola sozinho mas chutou para fora. Aos 41, Dida fez sua defesa mais importante na Copa até agora ao salvar com o pé uma cabeçada de Mensah.
O Brasil mostrou como se faz aos 46, é verdade que com ajuda da arbitragem. Num contra-ataque puxado por Lúcio, a bola chegou até Cafu, que cruzou para Adriano, impedido, marcar de coxa o seu gol histórico.
Gilberto Silva voltou para o segundo tempo no lugar de Emerson. Ao contrário do que se esperava, o Brasil não melhorou os toques no meio tanto que, até o fim, Gana teve mais o domínio da bola. Depois que Roberto Carlos perdeu um gol feito, aos 12, os africanos voltaram a perder o respeito por seus ídolos. Pressionaram, rondaram a área brasileira mas esbarraram na falta de pontaria e na ótima atuação de Dida. O goleiro evitou duas vezes o gol de Asamoah. Pouco depois, aos 36, o atacante foi expulso por simular um pênalti. E quando o Brasil já tinha perdido o interesse pelo jogo, Ricardinho, que acabara de substituir Kaká, encontrou Zé Roberto livre na área. O apoiador coroou sua ótima atuação com um drible em Kingson e um toque para o gol vazio, aos 39 minutos.

BRASIL 3

Dida; Cafu, Lúcio, Juan e Roberto Carlos; Emerson (Gilberto Silva), Zé Roberto, Kaká (Ricardinho) e Ronaldinho; Adriano (Juninho Pernambucano) e Ronaldo. Técnico: Carlos Alberto Parreira

GANA 0

Kingson; Pantsil, Mensah, Pappoe e Illiasu Shilla; Eric Addo (Boateng), Appiah, Muntari e Draman; Amoah (Tachie-Mensah) e Asamoah Gyan. Técnico: Ratomir Dujkovic

Árbitro: Lubos Michel (ESL)
Estádio: Westfalenstadion, em Dortmund
Gols: Ronaldo, aos 5, e Adriano, aos 46 minutos do 1º tempo; Zé Roberto, aos 39 minutos do 2º tempo
Expulsão: Asamoah Gyan

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