BRASIL EM CRISE

Revolta de Edmundo amplia problemas; time está desunido e Zagallo, abatido
Das agências
France PresseA fera rugeEdmundo (ao lado de Aldair) discutiu com Leonardo, acusou companheiros de boicotá-lo contra o Bilbao e tumultuou o ambiente na SeleçãoA comissão técnica da Seleção Brasileira tenta abafar a crise aprofundada por uma discussão aos berros provocada pelo atacante Edmundo, domingo, após o empate de 1 a 1 contra o Athletic, em Bilbao (região basca da Espanha). Dizendo palavrões e gritando, Edmundo acusou companheiros de boicotá-lo, não passando a bola. O meia Leonardo interveio e bateu boca com Edmundo. O chefe da delegação, Fábio Koff, confirmou ontem a discussão, usando a palavra ‘‘incidente’’, dando a entender que houve agressão, o que não foi confirmado por jogadores e membros da comissão técnica.
O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, chegará amanhã a Paris decidido a acabar com a crise na Seleção Brasileira. O grupo rachou depois da discussão entre Edmundo e Leonardo e do prolongado processo de fritura de Romário. Alguns jogadores nem sequer se falam, o time está desunido e a comissão técnica recorreu até ao engenheiro Evandro Mota, o guru espiritual da Seleção, para acalmar Edmundo e evitar que o craque abandonasse o grupo às vésperas da estréia do Brasil na Copa do Mundo.
Um novo episódio ontem aprofundou a tensão na equipe: o capitão Dunga condenou publicamente a ida do time a um evento promocional da Nike, patrocinadora da CBF, pedindo mais treinos no lugar de festas. A incerteza sobre o desempenho, dentro da própria Seleção, cresceu depois da derrota para a Argentina (1 a 0), o empate com o Athletic de Bilbao (1 a 1) e a vitória apenas por 3 a 0 sobre a seleção de Andorra, 185ª colocada no ranking da Fifa.
Entre os jogadores, houve divisão sobre o corte, ocorrido terça-feira, do atacante Romário. Edmundo é amigo do jogador afastado da Copa. Leonardo é mais próximo de Bebeto, que já teve choques com Romário. Como Romário não treinava desde que a Seleção se reuniu, Bebeto estava - e está - ocupando o seu lugar, derrotando Edmundo na disputa pela vaga.
O principal atacante do time, Ronaldinho, considerado o melhor do mundo, não marcou nas três últimas partidas. ‘‘Na hora certa os gols virão’’, disse ontem Ronaldinho. Abatido, completamente diferente do seu estilo ufanista habitual, o técnico Zagallo conversou separadamente, à tarde, com Leonardo e Edmundo. O primeiro deu entrevista dizendo que houve apenas discussão normal no domingo. Edmundo se recusou a falar.
Enquanto isso, a equipe não está aproveitando nem metade dos períodos (manhã e tarde) para se preparar. Agora, deixará de treinar de manhã. Na segunda-feira, Ronaldinho disse que a união do time de 98 ainda não se assemelha à do de 94. O zagueiro Júnior Baiano já disse que ‘‘dá para sentir que não é o mesmo clima de 94’’. Ele não participou da Copa dos EUA.
No Mundial de 94, Zagallo fazia, a cada partida, a contagem regressiva, tipo ‘‘faltam tantos jogos para o Brasil ser campeão’’. Agora, ele exibe outra fisionomia, não a do treinador que sempre foi decisivo para entusiasmar os jogadores dirigidos por ele. Zagallo afastou da Copa Juninho, Flávio Conceição e Márcio Santos por contusões não muito esclarecidas ou por suposto mau estado físico. Até agora, Zagallo não estudou a tática dos rivais na primeira fase (Escócia, Marrocos e Noruega).
Na chegada da equipe à França, na semana retrasada, o treinador afirmou que não iria fazer improvisações no ataque da Seleção. Com a agressão de Edmundo e o corte de Romário, Zagallo passou a afirmar que os meias Denílson, Rivaldo e Giovanni podiam ser aproveitados no ataque. A preocupação de Zagallo foi tanta, que o técnico chegou a conversar com Moraci Sant’Anna, preparador físico do São Paulo, sobre a performance de Denílson no último Campeonato Paulista. O meia foi improvisado na posição durante o torneio. Sant’Anna informou a Zagallo que Denílson foi muito bem na nova função.
Para Fábio Koff, ‘‘pequenos atritos acabam sendo normais numa equipe de futebol. Zico mostrou mais preocupação do que Koff. ‘‘Não comento nada sobre o que se passa dentro dos vestiários e nas reuniões da comissão técnica’’, afirmou.
Zagallo ameaçado? A crise da equipe na França atingiu o técnico Zagallo. O treinador teria sido ameaçado de demissão pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, caso não tivesse cortado Romário. O secretário-geral da CBF, Marco Antônio Teixeira, chegou ontem a Paris e afirmou que essa ameaça nunca foi feita. ‘‘Quem conhece o Ricardo sabe que ele jamais falaria isso para o treinador.’’ Segundo Marco Antônio, a dispensa de Romário foi uma decisão tomada em conjunto.
O treinador quase foi demitido em fevereiro, após o fracasso da Seleção na Copa Ouro, nos EUA. Em seguida, Zico foi nomeado coordenador-técnico da equipe. Nos seis treinos que o Brasil fará até a partida com a Escócia, na quarta-feira, Zagallo tem o desafio de dar um padrão tático não obtido em quatro anos de trabalho.

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