PARIS - A seleção brasileira entrou na segunda etapa do mundial, literalmente, com o pé direito. Dos quatro gols no Chile, três foram feitos por jogadores destros. O que não deixa de ser uma curiosidade numa equipe que tinha em campo nada menos que quatro canhotos, todos com poder de chute: Rivaldo, Denílson, Leonardo, e Roberto Carlos. Pra quem é supersticioso, como Zagallo, aí está um bom sinal. Dizem que a sorte está sentada à mão direita de Deus. Bons ventos sopram a favor do Brasil, não há dúvida. Os fados parecem tramar um destino bem mais risonho pra seleção que pros outros favoritos.
Se ao Brasil tocou uma presa fácil, na oitava, aos demais pesos pesados tocaria um fardo sem tamanho. A Inglaterra cruza com a Argentina, e a Holanda, com a Iugoslávia. Dois verdadeiros festins antropofágicos. Quatro grandes a se comer vivos, enquanto o Brasil passa pelo Chile, sem sobressaltos. Nem precisou usar o full power de suas poderosas turbinas. Mesmo à meia-força, jogou com seriedade. Em nenhum momento, fez corpo mole. Portou-se como manda a prudência: gato escaldado não se permite brincar com a sua presa.
Zagallo, eufórico, lembra que faltam apenas três jogos pro Brasil ser finalista. Parece pouco, mas não é. A equipe ainda não chegou ao ponto ideal. Mesmo em noite de triunfo pleno, contra o Chile, a seleção continuou a alternar breves momentos de inspiração e largos períodos de desarmonia coletiva. Já se sabe que o jogador brasileiro exerce, como ninguém, a arte única de encantar uma bola. Mas não custa nada a seleção procurar agir mais coletivamente. Viu-se, anteontem, que à falta de uma consciência tática, o Brasil chegou a passar uns maus bocados, no princípio do jogo. Convém não perder de vista que os três primeiros nasceram de bola parada.
Daquela bola que vem do quase-nada. Sinceramente, prefiro o gol concebido na vertigem do jogo. O gol que nasce da trama, da trama que inflama. De qualquer modo, a cruz dos caminhos não será o adversário da quarta-de-final. O grande desafio, tudo faz crer, vai ser a semifinal. Uma vez ganha a penúltima batalha, a seleção brasileira terá chegado a um lugar que lhe é de todo familiar. Se o assunto é Copa do Mundo, ninguém prepara um happy-end melhor que o Brasil. Pelo menos, é o que diz a história.
De olho na imprensa
Itália e Brasil são os temas em destaque na imprensa européia. Os jornais italianos não estão muito embalados com a performance da ‘Azurra’ contra a Noruega. O La Repubblica enaltece Vieri e Pagliuca, mas diz que ‘‘a partida foi longa, sofrida, um prólogo inquietante da próxima etapa.’’ O Gazzetta dello Sport, na mesma linha, resume assim o jogo da Itália: ‘‘Uma vitória que poderia ter sido bem maior. Tirando o gol maravilhoso de Vieri, a seleção perdeu diversas oportunidades. Se não fosse Pagliuca, o final seria um vexame.’’ Já o Brasil parece ter agradado um pouco mais aos italianos, apesar de ‘‘não ter sido nenhum show.’’ O título do La Repubblica que o diga: ‘‘Façanha de Sampaio, Chile a nocaute. Agora, o Brasil dá medo.’’ Pro Gazetta dello Sport, ‘‘o Brasil volta a ser o Brasil’’. Ronaldinho, ‘‘a estrela do mundial’’, mesmo abatido, é o xodó dos jornalistas esportivos na Itália. No El Pais, ‘‘os triunfos não convencem: Itália e Brasil ganham, mas os jogos de ambos decepcionam.’’ Na Inglaterra, o Times elogia a atuação do atacante Vieri, ‘‘que, talvez, não seja o mais charmoso dos atacantes, mas, é, certamente, um dos mais eficientes.’’ Os franceses, sempre apaixonados pelo Brasil, rasgam elogios. Pro Journal du Dimanche, o Brasil esteve, ‘‘simplesmente, irresistível, e o Chile não conseguiu manter o ritmo’’, e num jogo de palavras, define a seleção: ‘‘Um César e um imperador Ronaldo.’’ E pro L’Equipe, o Brasil, ‘‘frente aos chilenos, um pouco enfraquecidos’’, acabou em ‘‘samba’’: ‘‘Ninguém duvidava da sua capacidade, bastava querer e, no meio de tanto talento, que cada um tivesse um pouco de boa vontade.’’


RÁPIDAS E RASTEIRAS
De férias em Paris, Carlos Alberto Parreira divide seu tempo de lazer, vendo futebol, de cadeira, e visitando museus. Parreira é pintor nas horas vagas. De futebol, anda falando pouco. Gosta da Holanda, pela fluidez da equipe, gosta da Argentina, pela solidez, e devota um grande respeito à Itália. Acha que a ‘Azurra’ começa mal, sempre, mas acaba amadurecendo na hora certa.
- A entrevista de despedida do técnico Acosta, do Chile, foi um exemplo de fidalguia. Exaltou o Brasil, aplaudiu a Copa, falando sempre, num tom civilizado. Um ‘‘gitano’’ legítimo esse uruguaio, Nélson Acosta.
- O atacante Gallardo representa na Argentina o mesmo papel de Denílson, no Brasil. Ambos são meio-titulares. Ambos simbolizam o que de mais bonito existe na escola sul-americana de futebol. Entram já no fim da peça. É como se numa peça de teatro Paulo Autran só entrasse em cena no fim do terceiro ato. Um esperdício de talento.
- A equipe da Bulgária, com vergonha da surra espanhola (6 a 1) que a escorraçou da Copa, fretou um avião pra só chegar a Sofia às três da madrugada. Temia ser recebida a pontapés. Deu certo: no aeroporto, só havia o abraço acolhedor de parentes e amigos.
- A Colômbia foi embora, deixando na memória dos estádios a sombra frondosa da flamante cabeleira de Valderrama. É o maior exemplo de vida mansa que já passou pelo mundial. Tão devagar é o rapaz que já não passa mais a bola: a bola é que passa por ele, impressentida como o tempo.
- O futebol é capaz de fazer gato e sapato de um ser humano. Em Bucarest, um cidadão está ficando quatro horas por dia com a cabeça enfiada numa banheira cheia de água benta, usando uma máscara de mergulhador. Promessa pra Romênia ganhar a Copa. Acha a mulher que é mais fácil o marido morrer afogado do que a Romênia vencer o mundial. Eu, que não sou da família, concordo com ela.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar
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