Quinta-feira, duas da tarde. As duas quadras de fundo da Academia Point Tênis (APT), na zona sul de Londrina, estão tomadas por garotos treinando com a maior dedicação e mostrando uma técnica afinada com a raquete. No estacionamento da academia, não se vê nenhum carro dos pais, que normalmente levam os seus filhos para treinar. Ao invés dos veículos, o meio de transporte desses tenistas é a bicicleta. E nenhum deles começou a treinar por influência dos familiares. Afinal quem são esses personagens?
São boleiros, aqueles garotos que você sempre vê nos jogos, no fundo ou no meio da quadra, catando as bolas que param na rede ou que saem das quatro linhas. Eles vêm de diferentes academias da cidade para, uma vez por semana, treinarem gratuitamente nas quadras da APT. Quem cede o espaço é o dono da APT, o professor Valdenir de Almeida Silva, Valdena, que também foi boleiro na infância e adolescência.
''Tive a idéia de oferecer essa oportunidade à molecada que cata bola pela cidade porque eles adoram o esporte e muitos têm um talento nato. E se não fosse dessa forma nunca teriam possibilidade de aprender tênis, devido ao custo do material e à restrição nos clubes e academias'', afirmou Valdena, que é o coordenador da seleção de Londrina na categoria Sub-17 (Juventude).
Colocando-se no lugar dos boleiros, ele idealizou há um ano o projeto ''Jogue Tênis'', realizado em parceria com a Fundação de Esporte de Londrina (FEL), que conta hoje com aproximadamente 15 garotos que trabalham na APT, na Associação Cristã de Moços (ACM), na escola Play Tennis e em quadras particulares espalhadas pelos condomínios da cidade. Para participarem do projeto os garotos precisam obrigatoriamente estar matriculados e com boas notas na escola. ''Afinal ninguém aqui será tenista profissional, isso é praticamente impossível. O objetivo é formá-los para terem uma boa profissão, que é ser professor de tênis, e também fazerem uma faculdade'', esclareceu.
Virar professor de tênis é a tendência da maioria dos garotos que começam como boleiros - o próprio Valdena é um exemplo. ''Aqui em Londrina 90% dos que dão aula hoje cataram bola na infância. E não é vergonha pra ninguém dizer isso. Aliás, é motivo de orgulho, pois viraram profissionais respeitados'', frisou.
Dois deles são os professores Antônio Pereira, o Toninho, 33 anos, e Wanderley Carvalho, 26, que colaboram com o projeto ensinando os garotos. A dupla é responsável pelas seleções masculina e feminina da cidade que disputam os Jojup's, e ambos são formados em Educação Física. Toninho, casado e dois filhos, é professor há 18 anos. ''Sou muito feliz de ter feito minha vida por meio do tênis'', diz o ex-boleiro que hoje dá aulas em condomínios particulares. Já Wanderley começou catando bola na APT há 12 anos e é professor na academia desde 2000.

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