Todo mundo que pratica ou praticou futebol sabe: aquelas jogadas horrorosas feitas no campo, depois, na mesa cheia de cerveja, se transformam em atuações magistrais. Quanto mais os anos passam mais memoráveis elas se transformam.
Neste dia 22, quinta-feira, feriado de Corpus Christi, na Associação Cristã de Moços (ACM), em Londrina, acontece a já tradicional reunião dos ‘‘boleiros’’. É uma confraternização democrática. Vão estar presentes craques e pernas de pau, árbitros, gandulas ou meros torcedores que fizeram – e fazem – a história do futebol profissional e amador da cidade. Todos estão convidados. Basta gostar de futebol e, lógico, comprar o convite.
Desde o Esporte Clube Londrina, de 1937, que formava com Etelvino; Emílio Tasca, Braguinha, Otávio, Moacir, Brigada Lima, João Viado, Renato Bueno, Neto, Bruno e Odilo até os dias de hoje, milhares de jogadores e simples peladeiros correram pelos gramados de Londrina. Histórias não faltam para contar.
O prefeito em exercício Jorge Scaff foi campeão amador pela equipe do Fuganti em 49. Depois seguiu carreira profissional, sendo artilheiro do antigo time do Britânia de Curitiba. O mais folclórico presidente do Londrina, Carlos Antônio Franchelo, também foi peladeiro na juventude. Em 49, era jogador do Clube Atlético Londrinense.
Curiosamente, a idéia de reunir os amigos para jogar conversa fora e relembrar os velhos tempos nasceu num momento de tristeza e não de alegria. Foi em 97, no enterro do Zé Ferreira. Zé morreu de câncer. Foi um dos melhores meias que passaram pelo Corintinha, Posto Cicle e Londrina. Fez muitos amigos durante sua vida de esportista, mas, no velório, havia poucas pessoas.
‘‘Como um cabra desse morre e não tem ninguém no velório?’’, disse, na época, o boleiro Miguel Antônio Ramos, de 55 anos. Foi então que ele e alguns amigos decidiram criar o encontro anual dos boleiros. Organizado, Miguel tinha a ficha de centenas de jogadores e ex-jogadores. Mandou convites para todo o País e, a partir daí, o encontro não parou mais de acontecer.
A cada ano muitos são obrigados a faltar por motivo de força maior, bem maior. No dia 22 não estarão presentes Reinaldo Ramon, Sebastião Politi, Adir Ferreira, Baixinho e Murilo Zamboni. Todos eles morreram nos últimos meses.
Todos grandes esportistas. Só para citar dois deles, Reinaldo Ramon foi o criador do curso de Educação Física da Universidade Estadual de Londrina e o idealizador dos Jogos Abertos do Paraná. Já Murilo Zamboni foi barbeiro, roupeiro, técnico e presidente do Londrina Esporte Clube. Além, é claro, de comentarista esportivo. Zambeta sabia como poucos comentar sobre o jogo da bola com a linguagem do povo. Foi enterrado com a bandeira do Londrina ao som do hino do clube.
Preocupado com as ausências forçadas, Miguel Ramos até brinca dizendo que estava pensando em antecipar a data do encontro para evitar novas ‘dissidências’. Mas ele espera que a reunião dos boleiros seja mais uma vez um sucesso já que, pra muita gente, ele brinca, esta pode ser a última.
No encontro do ano passado compareceram 210 pessoas. A festa foi tão animada que o pessoal só foi embora depois de ‘‘convidado a se retirar’’. O motivo é óbvio: nesses encontros não faltam cerveja, churrasco, peladas (no bom sentido, é claro) e muita, muita história para relembrar.
O ingresso custa R$ 5,00 e pode ser encontrado nas lojas Capital Disco, em Londrina. Ele dá direito ao churrasco. Cerveja, cada um paga a sua. Mais informações podem ser conseguidas com o Miguel, pelo telefone (0xx43) 9991-7933.

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