Bolão sobrevive por 'teimosia' em Londrina
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
Alberto Macedo<br> Especial para a FOLHA 
Se modalidades de apelo popular como o futebol e o basquete vão mal das pernas em Londrina, outras como o futsal e o handebol sobrevivem graças ao apoio de entidades e patrocínios, o que dizer das demais, que ainda seguem em frente graças à ''teimosia'' de poucos abnegados que lutam como podem para que não venham a ser extintas.
Um exemplo do que acontece não só em Londrina, mas na maioria das cidades brasileiras, é que várias modalidades (esportivas/recreativas) estão simplesmente desaparecendo. Muitas delas, que deram alegrias para a comunidade e tinham um grande número de participantes, hoje tendem a sucumbir pela falta de locais para a prática dos mesmos, da renovação de seus praticantes e, principalmente, pelo fator financeiro.
Em Londrina, um exemplo desta ''teimosia'' responde pelo nome de Maria Nilsa da Silva, mais conhecida por Nicinha que, aos 73 anos, carrega há décadas, ao lado de outras amigas, o bolão feminino londrinense. ''Hoje somos pouco mais de 15 aficcionadas que mantemos o bolão vivo na cidade. Se pararmos, ele acaba, como já aconteceu com o bolão masculino'', alerta Nicinha. O bolão masculino de Londrina deu seu último suspiro no início da década de 80.
O que faz essa simpática avó, que começou a praticar o bolão em 1951, e há 36 anos participa dos Jogos Abertos (como jogadora e atualmente como dirigente) e que aos 56 anos teve de fazer a faculdade de Educação Física para poder continuar à frente da modalidade, ter motivação? ''Você tem que ter paixão pelo que faz. Comecei a jogar aos 14 anos e desde então estou envolvida neste esporte que é maravilhoso. Conheci muita gente praticando bolão, muitas jogadoras me acompanham até hoje. Antigamente era emocionante ver o empenho de pai, mãe e filhos, embuidos em um só objetivo. Já hoje é um meio de manter, no nosso caso de Londrina, pessoas da terceira idade em atividade, já que não existe quase renovação'', relembra.
Início
Nicinha vem comandando o bolão de Londrina desde o seu início, em 1951, quando a modalidade foi implantada na cidade pelos alemães, que fundaram a AREL (Associação Recreativa e Esportiva Londrinense). ''Nossa sede e a pista funcionava na Rua Hugo Simas, 61'', conta Nicinha, lembrando ainda que a primeira participação do bolão londrinense nos Jogos Abertos do Paraná se deu em 1964.
De lá para cá muita coisa mudou. Naquela época existiam o bolão masculino e feminino. ''Tínhamos várias equipes e cada uma delas contava com cerca de 25 a 30 atletas e eram conhecidas por nomes como 'Sai da Frente', 'Incríveis', 'Teimosas', 'Esperança' e 'Bracinho Forte'. Era muito legal ver o envolvimento das pessoas'', diz Nicinha.
Os tempos mudaram. A pista da rua Hugo Simas não existe mais. ''Com a construção da nova sede da AREL, ficamos isoladas lá, até 2006, quando viemos para o Canadá Country Club, que tinha uma pista que era pouco utilizada. A AREL fez um acordo com o Canadá e paga a anuidade pelo uso do local. Os demais gastos ficam por nossa conta'', conta Nicinha.
O pessoal treina toda terça e quinta-feira. Nicinha já não joga mais. É só dirigente. ''Parei em 1995, pois operei a coluna, o braço e os dois joelhos. Não sei se foi por causa do esforço. Hoje trabalho no sentido de manter o bolão vivo'', diz. Daquela turma antiga ainda estão na ativa ou sempre aparecem durante as competições Alexandrina Sandra Lessa, de 80 anos; Olga Dehe, de 75 anos e que junto com Nicinha foi uma das precursoras da modalidade feminina; Edwirges Baggio, 73 anos; Diléia Barreto, 70 anos; Laura Peri, 68 anos; e as ''caçulas'' Cleide Weffort, 50, e Rosinete Duarte, 48, entre outras.
Nos dias de hoje é esta turma que ainda mantém o bolão vivo em Londrina, porém com muitas dificuldades. ''O pessoal faz promoções para pagar as viagens. Não temos ajuda. Seria bom se tivéssemos um apoio maior dos órgãos públicos e dos clubes'', avalia Alexandrina, que aos 80 anos não joga mais, mas está sempre ao lado das amigas. ''Continuamos lutando para manter a modalidade viva na cidade'', completa.
Nicinha lembra que antigamente os clubes estavam sempre cheios e por isso o bolão tinha uma grande número de praticantes. ''Era de pai para filho e de mãe para filha. Fazíamos muitos jogos fora, pois o Paraná é um estado em que até hoje várias cidades mantém o bolão em alta, principalmente no Oeste, como em Cascavel, Toledo, Marechal Cândido Rondon, sem contar Curitiba'', explica.
Ela diz ainda que aos poucos, o interesse foi diminuindo por vários fatores. ''Naquela época muitas mulheres não trabalhavam. A modalidade era um lazer para elas. Viajávamos muito e chegávamos a ficar até uma semana fora. Hoje não dá para fazer isso. A vida é corrida e o pessoal trabalha e estuda. Já os filhos participam até certa idade e quando chegam na adolescência desistem por causa dos estudos e de outros esportes. Por isso estamos nós aqui. Hoje não temos condições de arcar até com as premiações. Quando sediamos uma competição regional ou estadual temos que fazer jantares, promoções, para pagar as despesas. Até a arbitragem. Eu já não podia estar mais aqui, mas não tem quem lidere e junto com o pessoal seguimos lutando'', desabafa.


