BIG WALL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de agosto de 2000
Andrés Baró De Curitiba 
O Big Wall tradução: enorme parede é sem dúvida uma das modalidades mais radicais na arte de escalar montanhas. Quem explica é o escalador profissional Phillip Gugelmin: A escalada de um Big Wall exige um alto comprometimento pessoal. Uma vez que se está no meio de uma parede deste porte não há chances para recuos ou desistências, a saída tem que ser por cima, afirma Gugelmin, integrante da equipe que desafiou os 480 metros da Rota Franco Brasileira da Pedra do Sino, localizada no Parque Estadual da Serra dos Órgãos, em Teresópolis, Rio de Janeiro.
A expedição contou com três escaladores paranaenses, José Luis Verbiski, Adriano Oliveira e Philipp Gugelmin, que partiram para o desafio de encarar esse paredão em quatro dias de escalada, em sua segunda repetição apenas duas equipes de escaladores conseguiram realizar tal façanha. Segundo Philipp, no Brasil esta modalidade está sendo mais explorada no Rio de janeiro.
A escalada da Pedra do Sino exige dos atletas um alto nível técnico. Numa escala de 1 a 11, ela ocupa o sexto nível de dificuldade. É do tipo livre, no qual sobe-se a parede na mão sem o uso de qualquer artifício fixo na rocha. As cordas são usadas como um instrumento de segurança: se o escalador escorregar, a corda impede que ele se espatife no chão.
Ao chegar no parque, os paranaenses foram surpreendidos por longos dias de chuva, o que comprometia seriamente o êxito da empreitada. Após a espera de uma semana, aproximando-se a data limite para a entrada na via, a equipe resolveu se arriscar e confiar na previsão do tempo que indicava melhoras. Acordaram às quatro da matina e partiram em direção à montanha, uma caminhada de 12 horas debaixo de chuva... As apostas voltavam-se para que esse fosse o último dia de tempo ruim.
A trilha estava úmida e fria. Com suas pesadas mochilas, passaram pela difícil descida de uma grota, viram a nascente do Rio Soberbo e, quando chegaram à base da escalada, localizada no fundo do vale, os termômetros acusavam míseros 3 graus... às três horas da tarde!
Cansados da empreitada e molhados até os ossos, decidiram arrumar as coisas para o bivaque dormir ao relento, sem o uso de barracas. Como o terreno era muito irregular, o bivaque aconteceu na maca de parede, uma espécie de rede com capacidade para duas pessoas que acolheu, nas quatro noites, os três integrantes da expedição. Alto comprometimento! Como diria Philipp, nesta condição não conseguíamos dormir, só passávamos a noite.
Início da empreitada Felizmente as preces foram ouvidas, e o tempo abriu na primeira noite. Na manhã seguinte, bem cedo, os escaladores deram início à aventura. Já na primeira cordada, de uns 50 metros, na qual o guia que vai escalando na frente prende a corda na parede, a equipe constatou que a parede, além de fria, estava molhada. E assim permaneceu pelo trajeto do primeiro dia. O fato de que os raios de sol não alcançavam em momento algum do dia a enorme rocha, explicou o fenômeno. Na verdade, toda rota da escalada fica na área sombreada da montanha.
Nos primeiros metros de subida, o primeiro susto: o escalador que guiava, José Luís despencou sete metros ao quebrar uma garra (saliência) da parede. Felizmente, a corda o conteve e ninguém se machucou. Os atletas continuaram em seu rumo. A maior dificuldade está em achar a rota: como a escalada é livre, sem uso de artifícios fixos, as pistas que indicam o caminho adotado pelos que os antecederam nesta via eram escassas.
Os grampos das paradas noturnas metais encravados na rocha pelos conquistadores da via eram o único sinal de que continuavam no caminho certo. A primeira parada para descanso só foi acontecer à meia-noite, quando alcançaram o Platô do Escorpião, a 160 metros do chão. Por ser plano e ainda oferecer o conforto do mato, o bivaque, desta vez, dispensou a maca e propiciou aos atletas uma boa noite de sono nos sacos de dormir. Todos tinham consciência do desconforto das próximas noites....
A partir do segundo dia, a escalada começou a ficar negativa (referente à inclinação da parede); apesar da dificuldade aumentar, a parede não absorvia a umidade, pelo menos permanecia seca. Esta era a parte de adrenalina: Como a inclinação da parede se projeta para fora, se deixássemos cair alguma coisa, ela cairia diretamente no solo, sem bater na parede, relata José Luis, em menção à radicalidade do trecho.
Com o transcorrer do tempo, a escalada da Rota Franco Brasileira foi colocando a paciência dos escaladores à prova. O frio, a parede molhada, as noites mal dormidas, a convivência... O importante no Big Wall é ter perseverança. A prioridade é alcançar as metas, descreve Philipp, referindo-se ao desafio de chegar aos grampos fixos, onde penduravam a maca para o descanso noturno. A média diária ficou em 18 horas, vencendo 150 metros de escalada de alto nível técnico.
O visual desde a parede revela paisagens únicas da Serra dos Órgãos. À medida que iam ganhando altitude, a vista revelava momentos únicos: a exuberante e densa natureza da região, a luz fraca e amarelada do amanhecer presenteando com cor e vida a cada elemento daquela exótica paisagem, o espetáculo dos andorinhões, pássaros que anunciavam o fim-de-tarde, aproximando-se velozmente e escondendo-se em suas tocas nas fendas da parede. Vale ressaltar o visual da ensolarada Baía da Guanabara, imagem que contrastava com o intenso frio que importunava os escaladores na eterna sombra do Pedra do Sino.
O trecho final A melhora do tempo determinou o sucesso da expedição. Mas a ameaça de uma possível virada estava presente no interior de cada escalador. O guia José Luis lembra: Tínhamos dois dias de tempo bom e limpo desde o Platô do Escorpião. Agora era o nosso quarto dia e tinha que ser o último. O tempo parecia querer mudar.
Restava pela frente mais duas cordadas, a última, fácil. Mas a primeira... a mais difícil da via, de nível A3+ (significa que os riscos são de lesões físicas moderadas). Só esta cordada valeu todo o empenho até então, recorda José Luis.
Já era madrugada quando estes persistentes escaladores chegaram no final da escalada, num costão. Estariam no cume? Como era tarde e com os corpos totalmente exaustos, a equipe resolveu descansar no bivaque entre umas moitas super acolchoadas... Na manhã seguinte, constataram que se encontravam a uns 150 metros do topo. Carregando as pesadas mochilas, caminharam por uma trilha íngreme e fechada por 30 minutos até alcançarem o tão sonhado objetivo.


