São Paulo - O hexacampeonato da Liga Mundial é o atual desafio da seleção brasileira masculina de vôlei, que ainda disputará o Mundial do Japão, em novembro. Em cinco anos, o time do obstinado técnico Bernardo Rezende ganhou quatro edições da Liga (2001, 2003, 2004 e 2005) e foi segundo em outra (2002) o outro título (1993) não pertence a esta geração. Hoje, as equipes começam a decidir a Liga torneio de US$ 20 milhões em Moscou. A estréia da seleção brasileira será contra a Bulgária, às 7 horas (horário de Brasília).

O Brasil, campeão mundial e olímpico, será caçado pelos rivais. Bernardinho sabe disso e espera que continuem a prevalecer a busca pela excelência e o espírito de equipe. Diz que é parte de um grupo de pessoas que concordam em ''pagar o preço'' e fala de assuntos como divisão de prêmios, de quartos, balada, brincadeiras...

Agência Estado - Por que a seleção dá certo? Qual seu papel nesse processo?

Bernardinho - A seleção vem dando certo há muito tempo. Sempre me pergunto a razão. Pode ser pela preocupação constante com as próximas competições e o inconformismo dos integrantes da comissão técnica. O questionamento está sempre presente. Fico preocupado quando alguém se acomoda.

Agência Estado - Preocupado com a Liga Mundial?

Bernardinho - Com a temporada. Não crescemos o bastante. Acho que estamos no mesmo nível de 2005 nesta fase do ano, mas as outras seleções cresceram mais.

Agência Estado - E seu papel nesse inconformismo?

Bernardinho - É minha característica cobrar. Estou sempre propondo pequenos desconfortos, é minha atribuição. Cada técnico tem seu jeito. Este é o meu, que tem dado certo com este grupo.

Agência Estado - Em ordem de importância, do que um time precisa para vencer?

Bernardinho - É fundamental ter espírito de time, consciência coletiva. Depois, vem o preparo físico, técnico e emocional , o planejamento, o envolvimento no processo. Esta geração do Brasil nem é mais talentosa que a de outras seleções, mas o comprometimento com o trabalho a deixa acima da média.

Agência Estado - Como manter comprometimento?

Bernardinho - Temos a fortuna de ser uma geração oriunda de duas gerações, a de prata e a de ouro. Nossa obrigação, como herdeiros, é não repetir erros. Fui da geração de prata (Los Angeles/84), desbravadora. Tivemos dois dos mais importantes membros da geração de ouro (Barcelona/92), o Giovane e o Maurício. Acho que a atual é a que mais venceu no mundo em todos os tempos e num sistema em que o equilíbrio é cada vez maior. Este grupo tem estado em alerta constante. As zonas de desconforto, como os treinos bem cedo, mostram se há disposição para fazer sacrifícios, para pagar o preço.

Agência Estado - Como são as regras de comportamento? Baladas são autorizadas?

Bernardinho - Filho de advogado, sei que regras são feitas para serem burladas. Não há proibições, não tenho como monitorar se alguém sai para a balada. Mas vou saber no dia seguinte. É preciso ter vida compatível com o nível exigido. Não há proibições, mas consciência e padrões de referência. Como posso proibir que o cara saia com a mulher da vida dele ou festeje o aniversário da mãe, da mulher? Como impedir que os colorados Gustavo e André Heller vejam a final da Libertadores até a meia-noite? Não vejo mal nisso. Mas os jogadores sabem o que é importante para a carreira. E que não existe vida pessoal quando se está num projeto coletivo. Mas sempre respeito as folgas.

Agência Estado - Os jogadores viajam na classe executiva, questão de conforto para quem tem 2 metros?

Bernardinho - É uma necessidade. Foi o único pedido feito à Confederação após Atenas. Mas só os campeões olímpicos têm esse direito. Os outros terão de conquistá-lo. E a comissão técnica vai na classe econômica.

Agência Estado - Nos hotéis, os quartos são divididos? E os prêmios?

Bernardinho - O quarto é dividido. Quanto aos prêmios, a Confederação deixa 100% com a seleção pela primeira colocação, 80% pela segunda e 70% pela terceira. Pelo quarto lugar, nada. Tudo é dividido em partes iguais. Uma das demonstrações do espírito de equipe é que não existe premiação individual.

Agência Estado - E se o jogador ganha um prêmio individual?

Bernardinho - Fica com 50% e divide os outros 50% com a equipe.

Agência Estado - Como você se protege do estresse de dirigir um time desse nível?

Bernardinho - Cada um é como é e eu sou mesmo assim, explosivo. Só fico aborrecido quando cometo erros, excessos, mas peço desculpas. Não tenho como me poupar, sou assim.

Agência Estado - Há espaço para brincadeiras?

Bernardinho - O trabalho é sério, sobra pouco tempo, mas sempre há espaço para o bom humor. Há brincadeiras e também discussões, nem sempre as relações são harmônicas num ambiente de trabalho.

Agência Estado - Você se preocupa com críticas, com o que a mídia fala de você?

Bernardinho - Não acesso nem sites. Mas as pessoas me contam. Quantas pessoas são hoje efetivamente capazes de escrever sobre vôlei? E nada do que disserem, para o bem ou para o mal, vai mudar o que preciso fazer no dia seguinte.

Agência Estado - Você é chamado para fazer vários anúncios. É pela imagem positiva?

Bernardinho - Jogadores que poderiam ser escolhidos, como o Giba, estão fora do Brasil. Acho que sou muito chamado por representar um grupo que mostra seriedade e profissionalismo.

Agência Estado - É bom estar perto do Bruno?

Bernardinho - Como pai, gosto de observar como as pessoas gostam dele. É muito querido e respeitado. Isso me enche de orgulho.

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