Bernardinho adora lapidar atletas
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quarta-feira, 09 de setembro de 2009
Fabrício Lima<br> Agência Estado 
São Paulo - O início no vôlei foi em 1972. Na reserva, Bernardo Rocha de Rezende ganhou pela seleção brasileira duas medalhas de prata: no Mundial de Buenos Aires/82 e na Olimpíada de Los Angeles/84. Pouca gente lembra desses títulos de Bernardinho como jogador. Isso porque na função de treinador, que assumiu em 1989 no time do Perugia, da Itália, o carioca de 50 anos tem história bem mais invejável.
Hoje ele comanda a seleção brasileira masculina e o time feminino do Rio de Janeiro. Só para falar em seleção, foram cinco títulos com as mulheres e com os homens conquistou nada menos que 17 troféus - sete da Liga Mundial, e a medalha de ouro olímpica, em Atenas/2004.
Admirado pelos muitos atletas que já passaram pelo seu comando, Bernardinho tem como principal virtude a transformação e a evolução do atleta para atingir o auge do nível técnico. Foi assim com Giba, Gustavo, Ricardinho, Nalbert, Rodrigão, Escadinha, Bruno...
Agência Estado - De onde vem essa capacidade de conquistar as pessoas com quem trabalha no vôlei? Você sempre soube que tinha esse poder de lapidar um atleta, de colocá-lo na melhor função e da melhor maneira possível?
Bernardinho - Às vezes a gente acha que nasce com alguma virtude específica, mas não é bem assim. É uma série de fatores... E eu percebi que como jogador, como atleta, eu não era acima da média. O que eu podia era tentar ser uma ferramenta para ajudar em algum processo desse desenvolvimento. E a principal missão que um treinador pode exercer, eu acho, é ajudar a viabilizar processos.
AE - Um desses processos é encontrar e trabalhar os novos talentos?
Bernardinho - Quando você detecta um potencial, uma pedra bruta, você pensa: 'poxa, eu quero lapidar essa pedra para que ele se torne realmente um belo e brilhante diamante'. Isso faz parte da nossa missão como treinador.
AE - Então trabalhar como técnico te dá mais prazer no vôlei?
Bernardinho - Como jogador, tive grandes experiências, grandes amizades, grandes momentos, mas talvez eu tenha me encontrado mais como treinador, à beira da quadra. Acho que porque o técnico tem mais essa atribuição, essa função, essa missão de transformar, de ser a ferramenta principal de um processo maior. Sabe quando você descobre: 'pô, é aqui que eu quero estar, que eu gosto mais...' É como se eu tivesse me descoberto no vôlei.
AE - Você foi assistente técnico do Bebeto de Freitas em Seul/88, mas foi na Itália que teve essa descoberta como técnico?
Bernardinho - Na verdade foi meio por acaso, mas na Itália as coisas começaram a dar certo. Peguei jogadoras que não tinham grandes condições, mas que foram à seleção italiana, jogaram Olimpíada...
AE - O seu sucesso e a facilidade que parece ter ao comandar a seleção brasileira tem a ver com essa experiência na Itália?
Bernardinho - É. Eu percebi que dava para conquistar muita coisa na nova função que eu estava abraçando. Aí, quando me chamaram para treinar a seleção, o alcance aumentou muito, porque você tem um universo muito maior para garimpar novos talentos. Dá para achar a pepita mais brilhante.
AE - Você gosta disso, não?
Bernardinho - Ah, muito, muito mesmo. Cada um tem um barato com a história, e esse é o meu barato. E não importa se tem 30 ou 22 (anos). Trabalho o lado intuitivo, psicológico, e tem ainda a coisa do sentimento, das relações humanas.
AE - Quer dizer então que os mais experientes podem sonhar com a seleção? O Bruno machucou e você levou ao Sul-Americano o Marlon, um jogador de 32 anos... Essa mescla é o segredo nesse próximo ciclo olímpico?
Bernardinho - Depende da nossa necessidade, os que estiverem em melhores condições serão chamados. Temos de pensar no ciclo olímpico, pensar em perspectiva. Mas a seleção não pode fechar a porta para ninguém, nunca. Nosso objetivo é ganhar títulos, e vamos usar sempre os melhores jogadores, independentemente da idade.
AE - Essas caras novas que você utilizou na campanha dos títulos da Liga Mundial e do Sul-Americano, como o Thiago Alves, o próprio Marlon, o Sidão, o Vissotto... A rapaziada está preparada para a pressão, eles terão condições de segurar a bronca?
Bernardinho - O Bruno, por exemplo, resistiu a momentos de pressão e dificuldade enormes, assim como a Dani Lins (na seleção feminina, ao substituir a Fofão). Agora, se essa geração será grande ou não, eu não sei dizer ainda. Mas eles já mostraram capacidade necessária. Agora, cabe à nós (da comissão técnica) desenvolvermos a técnica de todos eles. Eles todos já têm características essenciais a um campeão em qualquer área de atividade.


