Ela é morena, alta, bonita e dona de uma simpatia ímpar. Com todos estes atributos, Michelle de Jesus bem que poderia ter escolhido o caminho das passarelas. Mas não foi bem essa a carreira que ela resolveu seguir. Para não dizer que não há nada ver a ver com as passarelas, a bela moça escolheu desfilar, sim, mas ao invés de apresentar novas coleções de roupas, ela esbanja competência e elegância pilotando carros de corrida nas pistas brasileiras.
Tudo começou meio que sem querer, aos 14 anos, quando ela foi ajudar o pai, que era mecânico. Era o primeiro contato com os carros, mas o ambiente nada propício para uma mulher, na época, não lhe animou muito. A paixão pelos 'velozes e furiosos' só se fortaleceu de vez no início dos anos 2000, quando ela começou a acompanhar algumas corridas de Stock Car no Autódromo de Interlagos, em São Paulo.
A estreia nas pistas foi em 2006, no Campeonato Paulista de Marcas. Sem patrocínio, Michelle foi obrigada a dar um tempo no sonho e só conseguiu voltar três anos depois. Em 2010, foi vice-campeã paulista de Marcas concorrendo com 62 carros e ganhou sua primeira chance no nacional. Depois de passar também pelo Mitsubishi Lancer Cup, a piloto paulista, de 33 anos, encara neste ano o grande desafio da carreira, na Fórmula Truck.
Em Londrina, onde fez seu primeiro treino oficial na última terça-feira, Michelle revela que ainda sofre para se adaptar, mas diz estar feliz pelo novo desafio. "É uma reprogramação mental muito grande. Tudo é muito diferente, estou tentando reprogramar minha mente para tentar entender como funciona o caminhão. Não é uma coisa simples, mas não é tão difícil", conta a piloto, que até então só havia corrido em carros de turismo. "O caminhão é uma coisa muito nova, nunca tinha andado para nada, nunca nem tinha sentado em um, quanto mais um dia correr de caminhão".
Por outro lado, a adaptação com o ambiente já não é problema. A bela já está acostumada com o mundo das feras e conta que não tem problemas no dia a dia. "Tenho escova de cabelo e maquiagem na bolsa. Como tive oficina durante 15 anos, não tenho mais dificuldade de ter que lidar com o sexo masculino, principalmente se tratando de um ambiente até hostil, que é o box", descreve Michelle. "A minha vida é corrida, carros, pistas, por isso que estou cheia de calos", completou a piloto, que também é apresentadora de um programa de automobilismo.
Em um cenário predominantemente masculino, o assédio torna-se inevitável, mas as cantadas passam despercebidas. "Se acontece não dou nem conta, nem registro. Sou tão distraída, então nem percebo", despista a piloto, que curiosamente engatou namoro justamente com um piloto, mas de outra categoria.
Na Truck, Michelle vai viver uma situação inédita e não será a única mulher do grid – terá a companhia da veterana Débora Rodrigues. Ainda é pouco para o cenário que ela sonha ver em um futuro breve. "A mulher hoje já está em todas as áreas, em todos os esportes, e ainda desejo de verdade um dia competir só com mulher. A gente já teve que brigar tanto com homens na pista, e talvez se fosse só mulher, a gente estaria sempre na frente. Seria ótimo", brinca ela, que vê o automobilismo nacional cada vez mais aberto a elas. "Como a Débora (Rodrigues, da Fórmula Truck) e a Bia (Figueiredo, da Stock Car), que são grandes pilotos, estamos abrindo portas para as mulheres que querem vir para um campeonato, só que não sabem o caminho. Isso é muito legal para o automobilismo brasileiro", observa.
E para a temporada de estreia, a busca por resultados ficará em segundo plano. "É um ano de aprendizado, trabalhar bastante para pegar a mão rápido e sem se preocupar tanto com resultados. O objetivo é terminar todas as corridas para ganhar 'horas de voo'", aponta ela, que ficou fora da primeira corrida da temporada por compromissos pessoais e vai estrear na Truck no próximo domingo, em Curitiba.

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