Beckenbauer: 'O futebol que eu e Pelé jogávamos não existe mais'
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segunda-feira, 07 de junho de 2010
Jamil Chade<br>Agência Estado 
Johannesburgo - Ele ganhou a Copa do Mundo como jogador e como técnico, feito que poderá ser igualado por Dunga neste ano. Agora, o mítico capitão da Alemanha, Franz Beckenbauer, faz seu alerta sobre o estado do futebol mundial: todas as equipes jogam iguais hoje na Copa e o talento individual cedeu lugar à tática. ''O futebol que eu e Pelé jogávamos já não existe mais. Não podemos ter mais ilusões'', disse.
Em entrevista à Agência Estado, Beckenbauer fala sobre a experiência de organizar um Mundial, a importância de levar o evento para a África e comenta as decisões de Dunga.
O ''Kaiser'' é hoje membro do Conselho Executivo da Fifa e sua posição de cartola também lhe dá condições de participar das principais decisões sobre o futebol mundial.
Agência Estado - Qual sua avaliação sobre as seleções que desembarcam para a Copa?
Beckenbauer - As favoritas são Brasil, Espanha e Inglaterra. São hoje as três seleções mais fortes do mundo, sem dúvida. Dunga tem experiência e criou uma seleção à sua imagem. Mas os três times são muito bons e um deles deve ficar com este título mundial. Dunga é criticado exatamente por isso - ter criado uma seleção à sua imagem.
AE - Qual a percepção do senhor sobre a forma de atuar do Brasil?
Beckenbauer - É verdade que ele é questionado. Quando o mundo pensa sobre o futebol brasileiro, a imagem ainda que se tem é de Pelé, Rivellino e uma seleção fantástica. Mas vamos ser honestos de uma vez por todas e deixar as coisas bem claras. O futebol que eu e Pelé jogávamos já não existe mais. Não podemos ter mais ilusões. O que nós jogávamos existe apenas no passado. Não é bom ou ruim. É apenas a realidade. Aquele futebol brasileiro que ainda falamos e a forma, por exemplo, em que eu atuava é o futebol de 40 anos atrás e acabou.
AE - Qual é a diferença entre o futebol que o senhor jogava e o que Lúcio, Cannavaro ou Pirlo jogam hoje?
Beckenbauer - Há 40 anos, quando entrávamos em campo, apenas pensávamos em uma coisa. Como levar a bola até a linha do gol adversário pela forma mais curta possível. Essa era, na essência, a tática. Portanto, tínhamos muita liberdade e o talento de cada jogador aparecia como a principal arma de um time. Hoje, a tática ganhou. A bola passa de pé em pé várias vezes e de um lado para o outro para que se avance. E o que eu tenho percebido é que todos jogam assim. Essa Copa será marcada pela falta de uma surpresa no sentido tático. O futebol se globalizou e, com isso, observamos uma harmonização da maneira de atuar das seleções. Essa será uma Copa em que todos atuarão com a tática predominando. Talvez seja a primeira em que teremos todas as 32 seleções agindo de forma quase igual.
AE - O senhor acha que Ronaldinho Gaúcho deveria ter sido convocado?
Beckenbauer - É triste que ele não esteja aqui. Claro que é o Dunga quem tem de dizer quem vai escalar, mas é lamentável que ele não tenha sido incluído. É verdade que na Copa de 2006 e nos anos seguintes o Ronaldinho Gaúcho sofreu uma queda acentuada de desempenho. Nos últimos seis meses no Milan, porém, ele voltou a se esforçar e jogou bem. Mas talvez Dunga tenha achado que não era suficiente para merecer um lugar neste grupo da seleção brasileira.
AE - Passando ao Beckenbauer cartola, o senhor organizou a Copa de 2006 com grande sucesso e mais de 2 milhões de turistas. Hoje, estamos na África do Sul com a perspectiva de menos de 350 mil estrangeiros desembarcando no país. O que deu de errado?
Beckenbauer - Essa é uma outra realidade. A Fifa precisava levar a Copa para a África. Certamente será um Mundial com um novo gosto, som e atmosfera. Mas é disso que o mundo também precisa.
AE - A três dias da abertura, está tudo pronto?
Beckenbauer - Espero que sim. Eles trabalharam duro para isso. Vamos torcer para que aconteça sem qualquer incidente. A África do Sul merece que a Copa seja um sucesso.
AE - A Fifa calcula que vai lucrar 50% a mais com a África do que com a Alemanha. Já o governo sul-africano terá um déficit e os ganhos para a população em geral são questionáveis. Vale a pena organizar uma Copa para o país sede?
Beckenbauer - Vale sim. Muitos questionam, mas a realidade é que os ganhos são significativos, e não apenas para a Fifa. Temos de pensar também que o futebol na região ganha e a economia tem um impacto positivo. Olhe para o que ocorreu na Alemanha quatro anos após a Copa. Gastamos milhões na construção e renovação de doze estádios. Muitos questionavam se essa era a melhor forma de utilizar os recursos, mas, hoje, quem investiu nos estádios está muito satisfeito. Desde o final da Copa do Mundo, todos eles praticamente estão lotados a cada fim de semana, gerando lucros para os que participaram da empreitada. Na África, esperamos que os ganhos também sejam importantes. Mas, obviamente, o futebol e a Copa não acabarão com a pobreza.
AE - O que o Brasil precisa aprender com a África do Sul para evitar erros na Copa de 2014?
Beckenbauer - O Brasil precisa colocar suas energias para garantir que os estádios sejam construídos. Isso é o centro da questão. Mas tenho certeza de que tudo será feito.


