Uma abstenção, da mais ‘nanica’ das confederações continentais, deu à Alemanha o direito de abrigar a Copa de 2006, impondo derrotas à África do Sul e a Joseph Blatter, presidente da Fifa. ‘‘A vitória aconteceu pela margem mínima, por 12 votos a 11. Um membro do Comitê Executivo se absteve’’, declarou Blatter, ontem, no momento do anúncio. ‘‘E o país vencedor é a Alemanha.’’
A comemoração dos dirigentes alemães e os aplausos tímidos que surgiram no Messe Zurich, centro de convenções da cidade onde aconteceu o evento, foram logo abafados por fortes vaias.
Integrantes das duas candidaturas africanas não se conformavam. A revolta dos africanos se voltou contra Charles Dempsey, neozelandês, representante da Oceania no Comitê Executivo da Fifa. Blatter revelou que Dempsey participou das duas primeiras rodadas de votação, mas que se absteve no último turno.
Por determinação da Fifa, a escolha do país-sede foi feita em três rodadas. Em cada uma, o país menos votado era eliminado. Participaram os 24 membros do Comitê Executivo. Em caso de empate, o voto de Blatter – pró-África do Sul – decidiria.
Na primeira rodada, a Alemanha recebeu dez votos. Seis dirigentes votaram na África do Sul, e cinco, na Inglaterra. Marrocos, com três votos, foi cortado. No segundo turno, a eliminada foi a Inglaterra, com apenas dois votos, o do escocês David Will e o de Dempsey. África do Sul e Alemanha tiveram 11 votos cada.
Como David Will fatalmente votaria na candidatura da Alemanha, por ser europeu, ficou claro que para o turno final a decisão estaria nas mãos de Dempsey, representante único da OFC (Confederação de Futebol da Oceania), a mais inexpressiva de todas as filiadas à Fifa.
Se votasse na Alemanha, o país ganharia a disputa por 13 a 11. Caso seu voto fosse para a África do Sul, ficaria estabelecido um empate em 12 a 12. Mas, como Blatter, responsável pelo desempate, é defensor ferrenho de um rodízio entre os continentes, a Copa acabaria indo para a África.
Perfeccionismo – O favoritismo dos sul-africanos cresceu nos últimos meses. A virada alemã começou anteontem, nas exposições finais dos candidatos – a África do Sul exibiu problemas técnicos, e a Alemanha deu show de perfeccionismo.
Tropa de choque – A candidatura alemã levou uma ‘‘tropa de choque’’ ao auditório da Fifa. Entre outros, o chanceler Gerhard Schroeder e a modelo Claudia Schiffer ficaram a apresentação toda atrás de Beckenbauer.
Campeão do mundo em 1974 como jogador e em 1990 como técnico, Beckenbauer consagrou-se pela terceira vez. Mais do que um garoto-propaganda, ele foi o principal cérebro da campanha vitoriosa. ‘‘Sabíamos que seria apertado. É óbvio que precisamos de sorte na vida, e hoje (ontem) acho que tivemos um pouco’’, disse. ‘‘Mas sinto pelos outros. Joguei futebol por 20 anos e sei o que é ganhar e o que é perder. Um dia, vai chegar a hora da África.’’

mockup