Os 146 quilos espalhados pelos 2,03 metros de altura fazem com que Rafael Silva não passe despercebido. Porém, desde a Olimpíada de Londres, no meio do ano passado, ele ganhou mais notoriedade ao entrar para o seleto grupo de brasileiros medalhistas olímpicos. De lá para cá, além da visibilidade maior, viu seu rendimento subir e fecha 2013 como o número um do ranking mundial. Uma sequência de medalhas em competições importantes, aliada às lesões que tiraram o francês Teddy Rinner dos tatames por um período do ano, fizeram dele o principal nome do judô em 2013. Além dele, o Brasil lidera o ranking do esporte em outras três categorias, sempre com mulheres. A campeã mundial Rafaela Silva está no topo da lista das pesos leves. Sarah Menezes, no ligeiro, e Mayra Aguiar, no meio-pesado, seguem na ponta.
Em 2013, entre as conquistas do rolandense estão a prata inédita para o Brasil no Mundial do Rio, prata no Grand Slam de Tóquio, batendo dois japoneses no caminho, e a prata no Mundial Masters do Cazaquistão, que reúne os 16 melhores do mundo por peso. Só não conseguiu ainda bater o imbatível Teddy Riner. Ele não sabe o que é perder desde o Mundial de 2010, em Tóquio.
Rafael Silva, atleta do Pinheiros, de São Paulo, está de férias na casa dos avós em Rolândia. Ele deu uma escapada para visitar a FOLHA e falou com exclusividade sobre o ano ótimo que teve e sobre as perspectivas para o novo ciclo olímpico.

Você termina o ano na liderança do ranking mundial dos pesados. Como é iniciar o ciclo olímpico nesta condição?
É a primeira vez que termino o ano como número um do ranking, o que mostra consistência nos resultados. Foi um ano de muita prata, mas também foi um ano constante. Consegui medalhar nas principais competições. Conquistei uma medalha inédita na categoria pesados, inédita para a minha carreira, primeira medalha em Mundial. Foi um ano muito bom, que me garante uma certa vantagem para o ano que vem nas chaves. Estar bem no ranking é ótimo para o sorteio das chaves e ano que vem começa a classificação para 2016.

Nesta atual condição, o que ameaça sua ida para Rio 2016?
Começo com o pé direito a briga pela vaga. Depois de maio, os pontos já começam a valer para a classificação. Isso me dá vantagem por estar bem no ranking e estar em uma posição boa nas chaves (pega adversários mais fracos nas competições até chegar às decisões), mas nada está garantido e o que vai dizer são as competições a partir de maio.

Faz um ano e meio que ganhou a medalha olímpica e virou uma referência no judô. O que mudou na sua vida de lá para cá?
O reconhecimento. Isso é o que mais muda. Você acaba tendo uma certificação de que seu trabalho funciona ao ganhar a medalha. Você também acaba tendo alguns privilégios por ter a medalha. Pode escolher melhor as competições, a situação melhora com o clube, com a confederação, consegue se planejar para desenvolver seu trabalho com mais tranquilidade.

Antes de Londres-2012 era uma luta para você poder treinar fora, nos grandes centros?
É, agora tenho mais liberdade. A categoria pesada tem essa dificuldade de treino, porque não é todo lugar que tem atleta para treinar e acabamos indo para outros países, como Rússia e Japão, para conseguir encontrar treinamento. Hoje tenho essa facilidade de conseguir treinar fora do Brasil nesses treinos de campo, com adversários do mesmo porte.

Qual o segredo para se manter no topo e não deixar o nível cair?
O Rafael que lutou em 2012 será muito diferente do que vai lutar em 2016. Tem que buscar sempre coisas novas e treinar bastante. Não posso esquecer a caminhada que foi feita para chegar em 2012, todo o treinamento e dedicação. E se eu quiser chegar no lugar mais alto do pódio em 2016, tenho que trabalhar bastante.

Como é a rotina fora de treinos do tatame? Você estuda os principais adversários?
Faz parte do treinamento também pegar o scout do cara. A gente faz um estudo dos adversários. O Teddy Rinner (francês, número dois do mundo e considerado o melhor judoca da categoria) é o mais estudado, mas não esquecemos os outros. A gente tenta usar isso no treinamento, claro que não é feito só em cima disso, trabalhamos nossas qualidades, mas tentar prever o que o adversário vai fazer na luta ajuda bastante.

Como faz para ganhar do Teddy? Você é número um do mundo, mas ainda não conseguiu ganhar dele.
Essa é uma questão que eu ainda estou trabalhando para responder. Ele é o cara a ser batido. Todos treinam muito para ganhar dele. Mas é bom ter um cara desses como referência. Engrandece a categoria, pois todos trabalham muito para ganhar dele. Mas ninguém é imbatível, temos que procurar as falhas dele.

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