AVENTURE-SE NUMA RESERVA INDÍGENA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de julho de 2000
Andrés Baró Especial para a Folha 
Pedalar entre trilhas, superando os obstáculos que a natureza oferece fazem do Mountain Bike um esporte de aventura intimamente ligado à terra. Estas vias, muito utilizadas pelos bikers no Brasil, remontam à própria história da nossa cultura. Foram os índios, os primeiros a abrir caminhos entre as matas com o objetivo de locomover-se para garantir o sustento das suas comunidades.
Aludindo à data que marca os 500 anos da chegada dos portugueses, resolvemos aventurar-nos de Mountain Bike em Reserva Indígena no Paraná, com o propósito de pedalar por algumas destas trilhas que, senão originais, representativas destes caminhos primitivos. Imagine pedalar entre bosques de araucárias e pinhos passando por rios, cachoeiras... de repente no meio das trilhas dar de cara com índios alegres com os olhos saltando de curiosidade.
A Reserva Marrecas A Reserva Indígena Marrecas, situada no município de Turvo, na região central do Paraná, acolhe mais de 400 índios do grupo Kaingang, numa área de 16 mil hectares. A Aldeia é considerada exemplar no que se refere a sua beleza natural, infra-estrutura, organização social e nível de vida dos seus habitantes. Ameaças, presentes em outras reservas, como a fome, a miséria, as doenças, o alcoolismo, entre outros, parecem ter sido superadas em Marrecas.
Sem dúvida, a influência do branco determinou o processo de aculturação dos Kaingang de Marrecas, assim como da maioria dos grupos indígenas no mundo. Por outro lado, os índios desta reserva parecem estar assimilando certas influencias da sociedade brasileira em prol da conquista do seu espaço político e social. Atividades como agricultura, pecuária, caça e pesca garantem o sustento da vida na reserva.
Pensando nisso, o líder indígena e chefe do posto da Funai de Marrecas, Pedro Cornélio Segseg, planeja oferecer a Reserva aos amantes da natureza para a prática de esportes de aventura e do ecoturismo: O turismo será controlado para uma pequena quantidade de pessoas por semana e o dinheiro arrecadado servirá para a manutenção e sustento da reserva, afirma Segseg
Esportes como o trekking, mountain bike, hipismo rural, enduros, rafting e canoagem (no rio Marrecas que corta uma boa parte da reserva) e até mesmo a prática de pára-quedismo, podem ser praticados na Reserva. Os índios querem explorar estes esportes na sua aldeia. Abre-se uma alternativa de lazer diferente com direito a muita emoção, ar puro e, de quebra, um gole de cultura, vivenciando uma aventura única junto à comunidade indígena local.
Pedalando em Marrecas As inúmeras trilhas da Reserva passam por diferentes tipos de paisagens, com topografia irregular e estradas de chão batido, fazendo de Marrecas um pico perfeito para a prática do Mountain Bike. Devido ao enorme terreno a explorar e os poucos dias disponíveis, optamos por pedalar por dois caminhos diferentes: a trilha que leva até o rio, passando entre campos de agricultura (milho, erva-mate e feijão), e a trilha da Água Santa, local sagrado dos Kaingang, com uns sete quilômetros cada uma.
O caminho entre os campos de cultivo tem um downhill de uns 2.000 metros que culmina na beira do Rio Marrecas, parada obrigatória para refrescar-se e tomar fôlego para a subida de volta. Ao atravessar o rio, percebemos a existência de uma outra trilha, mas após o banho gelado no rio preferimos voltar, considerando que restava apenas uma hora de luz. O visual desta trilha é de paisagens abertas, típicas do campo paranaense, com pinheiros de araucárias e pradarias.
A trilha que segue para Água Santa, local sagrado dos Kaingang, consiste numa trip com diferentes ambientes e paisagens! Começa na Oca, no posto da Funai, passando por toda a aldeia construída no meio de um bosque de araucárias. Pedalamos entre as casas, feitas de madeira, nas quais cabeças curiosas apertavam-se entre as janelas espiando e acompanhando-nos. Jamais tinham visto bikers nas redondezas...
O terreno da trilha é acidentado, o que proporciona uns downhills (descidas) adrenados pela grande quantidade de buracos e pedras soltas no meio da estrada de terra simplesmente, acaba com a suspensão do carro. No primeiro quilômetro, saímos da estrada e aproveitamos uma brecha para passar entre as casas e descer no meio do mato, vegetação rasteira, em direção a uns cavalos que estavam pastando ao lado de um lago. Dali atravessamos um pequeno riacho, subimos e retomamos a estrada rumo a Água Santa.
Nos quilômetros seguintes o visual nos deixou de queixo caído... Bosques intactos, passagens com a mata fechando céu, o canto dos pássaros, gritos de índios... Que trip! Em meio de tantos downhills e subidas, o cenário dos pinheiros e o cheiro da mata mergulharam-nos na história do lugar. Chegando em Água Santa, o cenário, à princípio nos decepcionou: esperávamos ver um lago ou um rio para mergulhar, mas não passava de uma pequena fonte de água no meio do mato com alguns pedestais, uma cruz e um par de muletas velhas. Acompanhados pelo nosso guia local, o índio João, saciamos nossa sede, tiramos umas fotos e de volta pra trilha, que afinal é o que mais interessa. No caminho paramos para um banho de rio. Água limpa e muito gelada! Renovou a moçada...
Para as pessoas interessadas em aventurar-se na reserva fiquem atentos às notícias do CURTAS do Folha Aventura. Segundo o líder Segseg, o ecoturismo será aceito a partir da primavera. As vagas serão cedidas, exclusivamente, às pessoas que respeitem a natureza do índio e do meio-ambiente.
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Apoio: As bikes receberam manutenção na loja Jamur Bikes Curitiba.


