Atlético-MG tenta reduzir abismo financeiro que o separa de Flamengo e Palmeiras


CARLOS PETROCILO
CARLOS PETROCILO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Líder do Campeonato Brasileiro e na briga pela Libertadores ao lado de Flamengo e Palmeiras, o Atlético-MG é desafiado a ampliar o seu faturamento para manter-se competitivo na briga por títulos e enfrentar um passivo de R$ 1,2 bilhão.

Rivais diretos nas disputas nacional e continental, o time carioca e o paulista, desde 2016, duelam pelo status de agremiação mais rica do país. Ao longo da década passada, flamenguistas e palmeirenses inflaram o caixa com expressivos ganhos em cotas de televisão, patrocínios e matchday (ingressos, camarotes e cadeiras cativas, além da venda de alimentos e bebidas em dias de jogos).

Como comparação, no primeiro semestre deste ano, o Atlético-MG atingiu receita de R$ 148 milhões, enquanto Flamengo registrou R$ 365 milhões e o Palmeiras, R$ 443 milhões. São valores publicados pelos clubes em suas demonstrações financeiras.

Ao analisar por fontes de receitas, há uma visível discrepância principalmente na comercialização dos direitos de televisionamento e nos valores obtidos com patrocinadores.

De acordo com a análise econômico-financeira do futebol brasileiro publicada pelo Itaú BBA, o Atlético-MG embolsou R$ 21 milhões com publicidade no ano passado, atrás de Palmeiras (R$ 127 milhões) e Flamengo (R$ 107 milhões).

Há uma desvantagem da equipe mineira não somente para os principais rivais nas disputas pelos títulos, mas também para outros clubes, como Red Bull Bragantino (R$ 98 milhões), Corinthians (R$ 71 milhões), Grêmio (R$ 53 milhões), São Paulo (R$ 32 milhões) e Santos (R$ 24 milhões), além do arquirrival Cruzeiro, que disputa a Série B (R$ 33 milhões).

Já em relação às cotas de televisão, o clube de Belo Horizonte contabilizou R$ 103 milhões no ano passado, ante R$ 267 milhões do Flamengo e R$ 300 milhões do Palmeiras, segundo o estudo.

Plínio Signorini, CEO do Atlético-MG, conduz um projeto no qual visa captar uma receita de R$ 500 milhões anuais até 2026. A estimativa, para 2022, é de R$ 255 milhões. São metas, ainda assim, bem distantes das realidades de Flamengo e Palmeiras.

Para atingi-las, a diretoria mineira prevê ganhos anuais de R$ 100 milhões com os eventos culturais e as partidas em sua arena, em Belo Horizonte, prevista para ser inaugurada no segundo semestre de 2022.

"Se a sua torcida é duas vezes maior em relação a do seu concorrente, terá mais possibilidades de receitas. Um exemplo clássico é o pay-per-view, quanto mais assinantes, mais faturamento. Dificilmente vamos conseguir equiparar [a Flamengo e Palmeiras em receitas] senão equipararmos também em torcida", afirma Signorini.

As cotas de TV são a principal fonte de orçamento dos integrantes da elite nacional. Pelos contratos assinados em 2019 e válidos até 2024 para TV aberta e fechada no Campeonato Brasileiro, a Globo ofereceu um valor aproximado de R$ 600 milhões anuais. A emissora distribui 40%, equivalentes a R$ 240 milhões, de forma igualitária, os outros 30% de acordo com a classificação final e, por fim, 30% conforme o número de partidas exibidas na temporada. Esse valor passa por correção monetária anualmente.

Já no formato do pay-per-view, a emissora repassa 38% do valor líquido obtido com a venda de assinaturas para as equipes. O montante de cada uma é definido por meio de pesquisa com os torcedores (na hora de contratar o serviço, o assinante escolhe o seu time).

Com a boa fase da equipe alvinegra, sob comando do técnico Cuca, a diretoria está animada com o engajamento do torcedor. A possibilidade de conquistar títulos como a Copa do Brasil e a Libertadores, além do Brasileiro, também aquece a esperança de embolsar premiações por desempenho.

"Existe um trabalho para o crescimento da base de torcida. Queremos inaugurar a nossa arena multiuso com 100 mil sócios-torcedores, e devemos alcançar esse número", diz Signorini.

"O estádio terá capacidade para 50 mil pessoas e é interessante ter o dobro [100 mil] de sócios. A partir de 2023, a nossa expectativa aumenta. Teremos na arena um museu com inovações tecnológicas, área de lazer e loja de conveniências."

Atualmente, há quase 73 mil sócios inscritos, uma evolução considerável mesmo durante a pandemia de Covid-19 -sendo que, no começo de 2020, havia uma base de 20 mil inscritos no programa.

A equipe tem feito campanhas, como a Manto da Massa, nas quais oferece descontos aos sócios. O clube viabilizou a venda de 120 mil camisas em duas semanas -o modelo da roupa foi idealizado pelos torcedores e escolhido em votação popular. A diretoria diz ter embolsado R$ 24 milhões e conquistado 10 mil sócios com sua última ação, em agosto.

Há apostas também no mercado digital, como o lançamento da plataforma Galo ADS, que, semelhante ao Google, oferecerá anúncios publicitários nos canais oficiais do clube (portal, redes sociais, newsletter). O serviço visa atrair marcas de médio e pequeno portes.

"As receitas com televisão e patrocinadores estão no teto, e a pandemia mostrou que os clubes devem buscar formas inovadoras para oferecer seus produtos. É preciso ir além da bilheteria, do programa sócio-torcedor, e o Atlético-MG tem estudado novos negócios", opina o especialista em gestão e marketing esportivo Fernando Trevisan, da Escola de Negócios Trevisan.

Trevisan observa semelhanças no processo de reconstrução do Palmeiras, a partir da gestão do presidente Paulo Nobre (2013 a 2016), com o que acontece agora no Atlético-MG. "O Palmeiras contou com três pilares. O Paulo Nobre, que emprestou dinheiro e cobrou com juros baixo, a arena, crucial para gerar novas receitas, e, por fim, o patrocínio da Crefisa. Entre os três, esse último pilar falta ao Atlético-MG para se aproximar do eixo Rio-São Paulo."

Com endividamento de R$ 1,2 bilhão, o maior entre as principais agremiações do país, o Atlético-MG conta com um grupo de mecenas conhecido como 4 R's que vem ajudando a diretoria a repatriar atletas como Hulk e Diego Costa.

"O Paulo Nobre concentrou seus recursos em reestruturar as dívidas do Palmeiras, e a estratégia dos atleticanos é a de investir em jogadores e, com aumento de performance, a receita vai crescer", compara Fernando Ferreira, diretor da Pluri Consultoria.

"O desafio no Atlético-MG consiste em manter o ciclo virtuoso no futebol e controlar as finanças. O cobertor no futebol é curto. Mas acredito que o estádio será um ponto positivo, o financiamento por mecenas é menos traumático, e a torcida é muito apaixonada, engajada", completa.

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