A realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos de 2016 coloca o Brasil como a capital mundial dos esportes nesta década. E desde que foi escolhido sede dos dois maiores eventos esportivos do universo, o Governo tirou dinheiro até de onde não tinha na tentativa de não passar vergonha perante espectadores do resto do mundo.
Só que todo esse investimento ainda não tem refletido diretamente na carreira de quem vai representar o país, por exemplo, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, daqui a dois anos. Ao mesmo tempo em que concentra esforços para se estruturar, atletas com potencial para integrar a delegação verde e amarela na Cidade Maravilhosa sofrem sem patrocínio e subsídios do Estado até para coisas básicas da rotina de um esportista, como treinar e competir.
E aí muitos deles se veem obrigados a apelar para as mais variadas formas de conseguir dinheiro para continuar na ativa. A mais nova moda que os competidores encontraram para driblar as consequências da escassez de investimentos são os sites de "crowdfunding" (financiamento coletivo, em português).
O formato já é utilizado no Brasil há alguns anos em outras áreas, como cultura e negócios. Mas no esporte, os primeiros projetos começaram a nascer somente ano passado, quando alguns sites abriram espaço para atletas e outros nasceram já especializados. E desde então surgem cada vez mais opções, todas impulsionadas pela boa vontade de muitos interessados, que até então tinham vontade, mas não sabiam como ajudar.
A "start up" (empresa iniciante de base tecnológica) Pódio Brasil foi pioneira entre os direcionados ao esporte e nasceu logo após as Olimpíadas de Londres, em 2012. "Fiquei com a forte impressão que o desempenho do Brasil poderia ter sido muito superior e comecei a pensar em sistemas para incentivar o esporte", relembra um dos fundadores, o matemático santista Nélio Costa, que antes trabalhava em um restaurante.
O Pódio Brasil entrou no ar em abril do ano passado. E a primeira atleta financiada foi a taekwondista Talisca Reis, de 24 anos, que nasceu em Porto Velho (RO), mas atualmente treina em Londrina. Ela precisava de R$ 4 mil para bancar sua participação no Aberto do Canadá. Agenciada por Diogo Veiga, ex-lutador e um dos sócios de Costa no projeto, a lutadora fez até um ensaio sensual para ganhar destaque na mídia e chamar a atenção para a vaquinha.
A estratégia deu certo e Talisca conseguiu até mais do que precisava para ir ao torneio canadense. "Fico feliz, pois depois disso já surgiram outros sites. Para mim foi muito importante, deu um ‘up’ na minha carreira. E como fui a pioneira, serviu para mostrar para outros atletas que é uma boa alternativa", conta a lutadora.
Sem apoio algum da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBT), a atleta recebe apenas salário por representar a Marinha Brasileira em competições. Mas não é o suficiente para participar dos principais torneios pelo mundo e buscar pontos para o ranking internacional, que vai decidir quem representará o Brasil nos Jogos do Rio de Janeiro. Por isso, ela já pensa até em montar uma nova vaquinha. "Estou sem patrocínio e estou tendo que pagar tudo do meu bolso. Preciso subir mais no ranking internacional e sem competir é impossível", reclama Talisca, que sonha ser medalhista olímpica daqui dois anos.

NOVAS PLATAFORMAS
Depois de Talisca Reis, outros cinco projetos já alcançaram êxito através do Pódio Brasil, que já não é o único neste ramo. O ‘Apoie um atleta’ é outro que tem conseguido bastante sucesso entre os esportistas. O ‘Kickante’ foi o escolhido pela campeã olímpica do salto em distância, Maurren Maggi, no início deste ano, para lançar uma campanha com o objetivo de "patrocinar" seus treinos.
As novas plataformas viraram esperança também para esportes não olímpicos, que sofrem ainda mais com a falta de apoio. Cansado de ouvir negativas de empresas, o sumotori Rui de Sá, também de Londrina, conheceu o Pódio Brasil através de um amigo e não teve dúvidas em indicar para a seleção brasileira – da qual ele faz parte – tentar levantar o dinheiro necessário para participar do Mundial de Taiwan, que acontece em 31 de agosto, na cidade de Kaohsiung.
A intenção era arrecadar R$ 60 mil para bancar as passagens aéreas dos 15 convocados. O grupo, no entanto, não teve a mesma sorte que Talisca e captou apenas R$ 4.497,00, o equivalente a 7,5% do valor necessário. De qualquer forma, a doação acabou ajudando, já que o dinheiro, segundo o sumotori, será usado para fazer mais camisetas para comercializar e para comprar prêmios para a rifa que ele está promovendo. "Não conseguimos tudo, mas já foi importante, pois se fizéssemos as camisetas e não vendesse, o prejuízo seria maior", pondera.
Se ainda assim, o dinheiro não for suficiente, o terceiro colocado no mundial juvenil de 2012 vai recorrer agora a uma tática bem conhecida para poder viajar e disputar seu primeiro mundial na categoria adulta. "Já conversei com minha família e já fomos até ver para fazer um empréstimo novamente, como fiz da outra vez", diz, resignado, o atleta de 20 anos. "Infelizmente, no Brasil é assim".

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