Atacante Mauro diz já acreditar até no título
Josoé de CarvalhoDesabafoMauro ontem no Estádio do Café: É preciso que confiem no timeAtacante Mauro diz já
acreditar até no título
Nelson Cilo
Herói da única vitória do Londrina no Brasileiro da Série B (1 a 0 sobre o União São João, na quarta-feira da semana passada, em Araras-SP), o centroavante Mauro, 28 anos, diz apostar na classificação entre as quatro melhores equipes do Grupo A e até mesmo no título. Nesta entrevista à Folha, ele fala das críticas na estréia, das cobranças da imprensa e da torcida, da reviravolta do time no campeonato e do astral que passou a tomar conta do grupo. Mauro considera fundamental manter a seriedade e os pés no chão.
E manda um recado aos torcedores. As vaias na hora errada só ajudam o adversário. É preciso que todos confiem no potencial de nossa equipe, sugere o atacante, contratado junto ao Comercial de Ribeirão Preto e que, antes de vir para Londrina, atuou no Goytacaz-RJ, Americano de Campos-RJ, Linhares-ES, Desportiva-ES, Rio Branco de Venda Nova-MG e União São João de Araras.
Folha - Você marcou o gol da primeira e única vitória do Londrina no Brasileiro da Série B. Você andava chateado. De repente, tudo mudou...
Mauro - É verdade. Tirei um peso da cabeça. Sabe como é: se o centroavante não marca, as cobranças ficam mais em cima dele. Por mais que eu não quisesse, eu me perguntava: será que sou o culpado? Estou há dez anos no futebol e sei que, em geral, o artilheiro é sempre o mais visado. Mas, se você marca, como aconteceu comigo contra o União, você sai numa boa nas ruas. Encara as pessoas de frente.
Folha - Você notou isso na volta da delegação a Londrina?
Mauro - No dia em que retornamos, nem tanto. Pequei minha esposa (Fátima) e saímos atrás de apartamento. Só reapareci no hotel bem tarde da noite. Mas, na sexta-feira, percebi o astral nos torcedores que foram ao VGD. Antes e durante o treino, a nossa turma estava muito descontraída. Era tudo alegria.
Folha - A Fátima veio de Ribeirão para te visitar?
Mauro - Não. Por enquanto, ela também mora no hotel. Vamos arrumar um apartamento.
Folha - A cidade te agradou? O que pretende para o futuro?
Mauro - E como agradou... Estamos na fase do namoro (risos). O envolvimento vai aumentando aos poucos. Londrina é uma cidade grande que merece uma grande equipe na elite do futebol brasileiro. Quem não gostaria de ver o Londrina campeão? Se depender de mim, continuo aqui.
Folha - A derrota contra o Remo na estréia aumentou a responsabilidade do time nos dois jogos lá fora. Era na base na base do tudo ou nada...
Mauro - Exatamente. É claro que a gente confiava na reabilitação. Mesmo assim, as críticas abalaram o grupo. Sentimos na pele. Mas somos homens de caráter e pais de família que têm vergonha na cara. Provamos isso em Goiânia (Atlético Goianiense, 1 a 1) e Araras. Coloquei meu lado fera pra fora. Sou um cara sério pra caramba. Eu nunca iria dizer: olha, perdemos na estréia, tudo bem. Se Deus quiser, na próxima ganhamos. Eu não diria isso. Sou profissional, mas carrego aquela coisa afetiva pelo time. Sinto a camisa que eu visto. Vejo o lado da torcida e dos atuais dirigentes, que estão batalhando pra fortalecer a nova estrutura do clube.
Folha - Você falou das críticas. De quem?
Mauro - A gente ouvia isso e aquilo de todos os lados. As críticas devem existir. Elas são normais na carreira de um atleta. O detalhe é que, se você tem dignidade, acaba sentindo. Aliás, quando cheguei aqui, descobri que a imprensa de Londrina cobra forte. Isso é bom. Sempre fui de levar a carreira a sério. Me esforço bastante até nos mais simples treinamentos.
Folha - E a torcida do Londrina?
Mauro - É bastante participativa. Na estréia, não havia muita gente no Estádio do Café, mas deu pra ver que eles (torcedores) são fanáticos. Embora o público tenha sido pequeno, esse pessoal que vai ao campo é aquele cara que jogou bola. São os filhos que gostam de futebol. São fiéis pra valer. Então, eles vaiam, aplaudem, cobram. Está certo. Não podemos reclamar. Só não é correto vaiar na hora errada. Não é legal você ouvir vaias com 10 ou 15 minutos de jogo. Isso atrapalha a gente e facilita pro adversário.
Folha - Não falta mais comunicação entre os jogadores e a torcida?
Mauro - Acho que sim. A gente poderia, antes dos jogos, ir até o alambrado e atirar uns bonés e umas bandeirolas. Quem sabe uma camisas... Seria um gesto de carinho que nos aproximaria ainda mais. Criaria um elo mais forte. Isso é legal. Faria parte do show.
Folha - A experiência conta muito na hora de reagir às pressões?
Mauro - Sem dúvida. No futebol, é preciso aprender a ouvir críticas. Não se pode envolver pelos elogios. Hoje, você é herói. Amanhã, vilão. Estou acostumado. Sou um jogador ambicioso. Eu vim aqui não apenas como um profissional, mas trouxe comigo aquela vontade de ajudar o Londrina a crescer. O futebol tem três resultados, mas eu só quero ganhar. Aí é fama, é dinheiro, é currículo... Aliás, vou revelar uma coisa: nunca perdi numa estréia. Por isso, aquela derrota contra o Remo mexeu demais comigo. A gente saía de campo e a torcida pegava no pé. Pensei: não, não acredito nisso...
Folha - Depois, vieram o empate em Goiânia e a vitória em Araras...
Mauro - Eu tinha certeza de que venceríamos lá fora. Confiava no potencial do Londrina. Só não passamos pelo Atlético Goianiense porque cometemos uma única falha. Mas o empate ficou de bom tamanho. Aí ganhamos do União e trouxemos quatro pontos. Descarregamos nosso trauma. Foi bom demais. Estou leve.
Folha - Você promete outros gols?
Mauro - Nem diria que prometo. É que, às vezes, o atacante passa um tempo sem marcar. Mas, quando volta a marcar, não pára mais. Espero que isso aconteça comigo. Acredito que vamos chegar lá. Temos dois objetivos: a vaga e o título. É bom que os adversários passem a nos respeitar.





