As aventuras e emoções da Regata do Descobrimento
As aventuras e emoções da Regata do Descobrimento9/Mar, 16:05 Lisboa, 09 (AE) - Os barcos que disputam a Regata do Descobrimento ainda estão no início de uma longa viagem, que começou ontem, em Lisboa, e só vai terminar no dia 22 de abril, em Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia. Mas alguns deles já viveram emoções suficientes para participar dessa viagem comemorativa, capazes de deixar espantado o próprio Pedro álvares Cabral. A ida para o Brasil, com os ventos e a maré a favor, tende a ser tranquila. Mas o problema foi a vinda. Um ótimo exemplo é o Papa Léguas, que só chegou na véspera da largada. Os tripulantes mal tiveram tempo de descansar, lavar suas roupas e consertar as peças que estavam quebradas. Comprar comida era inevitável, questão de sobrevivência. Mas até isso foi complicado, porque era terça-feira de Carnaval e o mercado fechava às 13h. "Não é como no Brasil. Quando deu o horário, eles começaram a apagar as luzes e recolher as coisas", contou Olmar Candaten, 31 anos, comandante da tripulação, enquanto tentava colocar ordem no Papá Léguas, que mede 50 pés (pouco mais de 15m). Entre os cinco tripulantes, dois são mergulhadores. Mas quando a hélice enroscou numa corda de rede de pescadores a caminho de Lisboa, foi o próprio Olmar quem pulou na água para soltar o Papa Léguas. Isso porque, diz ele, nessas horas o comandante é quem deve resolver. Após esperar pela luz do sol das 4h às 8h, Olmar resolveu pular - de pullover, porque não tem roupa de borracha. Segundo ele, a temperatura estava em torno de 10 graus centígrados. História de velejador? A corda, bem fedida está guardada para a posteridade. Ana Rita Candaten, sua mulher de 30 anos e companheira de mar, também tem muito o que contar dessa viagem do descobrimento às avessas. O piloto automático quebrou, um vazamento molhou até os colchões e o gerador de energia pifou, fazendo-os perder alimentos: "O frango estava tão verde que virou ET de Varginha." Mas o desespero maior foi quando eles descobriram que o óleo havia acabado porque estava saindo dos dois tanques ao mesmo tempo. "Só passavam navios grandes, que nem respondiam pelo rádio", lembra Ana: "Mas a Marinha portuguesa nos salvou. Eles mandaram uma corveta com óleo e ainda pão e frutas." De graça. Para dificultar ainda mais, a largada foi antecipada em um dia a pedido do presidente Fernando Henrique Cardoso, que esteve presente. O Papa Léguas não foi tão eficiente como no desenho animado, mas chegou lá, ou melhor, aqui - mesmo que em 27 dias, oito a mais que o previsto. A viagem do trimarã Bahia, de 60 pés (18m), começou em Salvador e foi bem mais tranquila. Mas ainda assim o sistema de leme quebrou, algumas ferragens arrebentaram e uma vela rasgou. "O jeito foi costurar à mão", conta o proeiro Gustavo Pacheco, de 40 anos: "Tem que chegar." Graças a uma inesperada calmaria nos Açores, diz ele, a travessia do Atlântico durou quatro dias a mais que o previsto. "Na vinda, o contra-vento foi total", relata Marcos Hurodovich, 31, um dos seis tripulantes que trouxeram para Lisboa o Paratii, de Amyr Klink - Amyr veio de avião. "Saindo da Madeira", diz ele, "enfrentamos vento de até 40 nós (74 km/h), um vento de proa (frente) que de repente vinha de lado. O barco chegou a inclinar a 35 graus e entrou água no convés." Marcos trabalha há 11 anos com Amyr Klink, montou a parte elétrica do Paratii e toma conta do barco no Guarujá, litoral paulista. Mas nessa viagem ele se descuidou. E quase deixou o barco, de 49 pés (15m) e tantos sucessos, atropelar uma canoa a motor (piroga, como se chama no local) perto da costa do Senegal: "Estávamos comendo tranquilamente e percebemos em cima da hora. Foi por pouco." Entre domingo e segunda-feira, a Regata do Descobrimento faz sua primeira parada, em Funchal, na Ilha da Madeira.





