O Londrina Esporte Clube vive momentos de incerteza quanto ao seu futuro. Mergulhado em dívidas trabalhistas, fiscais e tributárias, o clube enfrenta agora uma crise com os seus parceiros. Os empresários Ciro Rios e Roberto Campi, que fecharam um contrato para tocar o time no Módulo Amarelo da Copa João Havelange, ameaçam ir à Fifa contra o clube. O motivo é o não cumprimento do contrato por parte dos dirigentes do Londrina. Pelo acordo, o clube deveria repassar mensalmente – de 1º de agosto até 31 de janeiro de 2001 – R$ 30 mil aos empresários.
O vereador Célio Guergoletto (PMDB), 48 anos, foi responsável direto pela parceria. Ex-coordenador-geral do Londrina, Guergoletto fez várias tentativas para arranjar alguém que pudesse sustentar a equipe na Copa JH. Sem alternativas, acabou acertando com Rios e Campi às vésperas da estréia na competição. Montado às pressas e com jogadores desconhecidos, o time foi colhendo fiascos no Módulo Amarelo. Já no primeiro mês, Guergoletto não conseguiu cumprir o repasse de dinheiro previsto no contrato. O principal motivo disso foi a recusa da diretoria da Sercomtel (empresa de telefonia da cidade) em patrocinar as camisas do clube, segundo Guergoletto.
Os empresários fizeram duras críticas ao vereador e chegaram a ameaçar cobrar do clube a multa contratual de R$ 500 mil prevista no acordo. Voltaram atrás e decidiram seguir em frente sem a contrapartida do Londrina. O resultado disso todo mundo já sabe: a equipe cumpriu sua pior campanha numa competição nacional. Os jogadores fizeram duas greves devido ao atraso dos salários, denunciaram a falta de estrutura do departamento médico do clube (faltavam remédios e, até mesmo, gelo), o zagueiro Rodney fraturou o perônio e só foi socorrido três dias depois pelo dono de um restaurante, o técnico Dino Camargo e alguns jogadores chegaram a ser despejados de hotel...
O sumiço dos empresários na última semana gerou um clima de apreensão na cidade de que o clube teria de arcar com as dívidas pendentes na competição, como salários atrasados e as taxas de arbitragem dos últimos jogos que não foram pagas. O atual presidente do Londrina, Agostinho Miguel Garrote, ficou com o rojão nas mãos. Sem uma diretoria ativa, Garrote passou os últimos dias tentanto apaziguar os jogadores e falar com os empresários. O dirigente, que prefere a discrição, não revela mas fontes no clube garantem que ele chegou a pagar do próprio bolso uma viagem do time até Minas Gerais e custear despesa com taxa de arbitragem.
Enquanto dirigentes e torcida não vêem razão para a sequência da parceria até janeiro, os empresários insistem em mantê-la. E vão além: dizem ter crédito a receber do Londrina devido ao não repasse dos R$ 30 mil mensais. Célio Guergoletto esteve na Redação da Folha na última sexta-feira para falar sobre os problemas do clube e fazer um balanço de sua passagem à frente do Londrina. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Folha – Qual o balanço que o senhor faz da situação do Londrina?
Célio Guergoletto – Assumi o Londrina no Campeonato Brasileiro de 1998, quando a antiga SAL (Sociedade dos Amigos do Londrina) deixou o time cair para a Segunda Divisão do Paranaense. Houve uma pressão e eu assumi a coordenação-geral do clube no Brasileiro de 1998, e levamos o Londrina ao quadrangular final. Tínhamos uma ajuda de R$ 50 mil mensais que, segundo o prefeito (cassado) Antonio Belinati, vinha da colaboração de empresários. Encerrei o campeonato de 98 sem nenhuma pendência trabalhista e sem dívida com fornecedores. Fiz uma grande campanha e ainda não deixei dívida pendente. Se na época havia 118 ações trabalhistas. Em janeiro de 99, a SAL apresentou uma dívida de R$ 800 mil que eles teriam investido no Londrina. Fizeram um acordo e pegaram uma relação de 40 jogadores passada pelo antigo supervisor João Severo. Cada jogador que fosse vendido o dinheiro ficaria para os integrantes da SAL – não era o meu caso, até então não tinha nada com o Londrina. Diante daquela confusão toda, assumi o Londrina sozinho na A-2 do Paranaense de 99 e, paralelamente, assumi também o departamento amador. Foi aí que comecei a enfrentar dificuldades. Porque toquei sozinho, não tive ajuda de prefeitura, de patrocinador. Fui campeão da A-2 sem deixar nenhuma ação trabalhista, sem deixar nenhum rastro.
Folha – Os salários dos jogadores também foram pagos?
Guergoletto – Foi tudo pago. Só que, evidentemente, além de usar o meu dinheiro andei pegando alguns recursos com pessoas amigas com juro elevado de 8% a 10%. Deixei o Londrina livre de tudo e na primeira divisão, mas eu já enfrentava problemas financeiros. Era aí que eu deveria ter parado. Sairia como herói e seria reeleito vereador, tranquilamente, com quatro ou cinco mil votos. Mas, no Brasileiro de 99, o prefeito Belinati e o Antônio Amaral (presidente do Conselho Deliberativo) me chamaram e disseram que a única pessoa capaz de tocar o time seria eu. Eu já estava fora, sabia que era o momento de parar, não sou nenhum ignorante. Mas a pressão foi grande. Maldita hora em que assumi também o Campeonato Brasileiro.
Folha – Então, o senhor se arrepende de ter aceitado o convite?
Guergoletto – Me arrependo, cansei de dizer isso. Na vida você comete falhas e eu tenho que admitir isso. O reflexo veio tudo agora. Fiquei segurando as pontas. Nós tivemos grandes colaboradores: o Zé Café (José Carlos de Castro Costa, presidente licenciado do clube), o Amaral, o Agostinho (Miguel Garrote, presidente em exercício do clube), mas só que nenhum deles colocaria um centavo no clube. Esse cargo de coordenador era de pagar, de receber. O time viaja, a renda não dá e você tem que fazer o cheque. Quantos cheques eu fiz ali dentro no VGD após os jogos? Muitos. O vexame que o Londrina passa hoje, no meu tempo me sacrifiquei mas não deixei (passar). Não fizemos uma boa campanha, mas não também não foi uma péssima campanha, foi regular. O Londrina se manteve na Série B.
Folha – Por que o senhor não entregou o cargo após o Brasileiro?
Gurgoletto – Porque me senti uma pessoa compromissada. Tinha compromissos com amigos que me arrumaram dinheiro, tinha compromissos com fornecedores que deixaram o Londrina se hospedar em função da minha pessoa. Fiquei amarrado, não podia mais sair. Poderia, simplesmente, fazer como os outros fizeram. Tá devendo, que se dane tudo, vou me embora. Sou vereador, tenho um nome a zelar, estou há 37 anos na cidade e nunca tive um problema de protesto na minha vida. Mesmo quando exerci cargos inferiores, como funcionário de fábrica, sempre mantive uma conduta impecável com relação aos meus compromissos. Não poderia abandonar esses amigos que confiaram em mim. Aí, assumi o Campeonato Paranaense de 2000. Peguei R$ 118 mil da Rede Paranaense (patrocinadora do Estadual-2000) e matei parte dos buracos do Brasileiro e um pouquinho do Paranaense de 99...
Folha – Buracos referentes a...
Guergoletto – Principalmente folha de pagamento, credores e fornecedores. Todo esse dinheiro está relacionado no Londrina. Na quarta-feira, pretendo apresentar tudo na reunião do Conselho Deliberativo. Vou mostrar, item por item, aonde foi esse dinheiro. Diferente da SAL, que apresentou uma dívida de R$ 800 mil sem comprovação. Também estou questionando isso aí.
Folha – Isso não foi contestado na época?
Guergoletto – Foi muito contestado. O nosso não, temos até vale de pedágio, vale para jogador, hotel. Todo cheque por mim emitido está relacionado.
Folha – O que o clube deixou de pendente no Paranaense-2000?
Guergoletto – Ficaram algumas pendências. O Tião não recebeu integralmente, o Aléssio, o Ivanildo – que tinha R$ 7 mil para receber e recebeu R$ 4 mil –, o Vágner tem um pouco para receber. O Hotel Rocha, que abrigou a concentração do time no Paranaense, tem R$ 18 mil a receber. Eu parcelei a dívida deles do IPTU, que estava atrasada na ordem de R$ 10 mil, e estou pagando por mês do meu bolso. É um compromisso pessoal que eu assumi em nome do Londrina.
Folha – Quais as principais dívidas do clube na sua gestão?
Guergoletto – A dívida com o pessoal administrativo do clube é de R$ 29.956,66. Aí nós temos com os fornecedores – fisioterapeutas, contabilidade, hotel – uma dívida de R$ 30 mil. Com os jogadores, temos uma dívida de R$ 40 mil. E temos uma dívida, essa não é minha, já vem de muitos anos, com a Sanepar, de R$ 80 mil, desde a administração do Iran Campos. E temos a chamada dívida com pessoas, na ordem de R$ 320 mil.
Folha – Que pessoas são essas?
Guergoletto – Dinheiro que eu coloquei no clube, que peguei de outros para colocar. Mas sem correção monetária.
Folha – Que jogadores amadores foram negociados na sua gestão e qual o valor dos passes desses atletas?
Guergoletto – Vendemos o Leandro e o Rodolfo para a Hungria por R$ 57 mil, só que nenhum dos dois ficou lá. Um está no interior de São Paulo e outro parece que está em Curitiba. Eles foram negociados pelo Francisco Saraiva, um empresário de Curitiba. Vendemos o Rocha para cinco empresários que se cotizaram e deram R$ 10 mil cada um – Jurandir Barrozo, Iran Campos, Beto Yousseff, Márcio Piazavam e um sobrinho meu que implorei para comprar e deixou no nome do meu irmão, Hélio Guergoletto. Era um momento de desespero em que imploramos para vender esses jogadores. O Rocha está no interior paulista. A documentação está de posse de João Severo. Esse dinheiro foi imediatamente investido dentro do próprio Londrina e a documentação será apresentada na reunião do Conselho. O Pitti foi dado ao Iran para amortizar uma dívida de R$ 80 mil, do tempo em que ele foi presidente. O Denis foi vendido para o Jurandir Barrozo por R$ 50 mil. O Carlos Eduardo também foi negociado com o Jurandir por R$ 80 mil. Infelizmente, nenhum desses jogadores emplacou. O Luciano foi negociado por R$ 30 mil para o empresário Sérgio Santos, bem como Guilherme, que custou R$ 10 mil. O João Messias foi vendido na época do Pré-Olímpico para o empresário Antônio Caliendo por US$ 25 mil. Desses R$ 50 mil, imediatamente passei R$ 27 mil nas mãos do Iran Campos para o departamento amador e o restante para o Londrina. Esse jogador continua no Londrina e tem o passe vinculado ao Matsubara. O Rodrigo teve metade de seu passe vendida ao Atlético Paranaense por R$ 40 mil e era para eles acertarem uma penhora trabalhista com o senhor Pascoal Caldarelli. Resultado: o Atlético vendeu o jogador, não pagou o Londrina e não acertou a penhora. O Atlético deu literalmente o calote no Londrina. Pior, vendeu sem consultar o Londrina para o time do Rivaldo e do César Sampaio, o Guaratinguetá. O Vanderlei está no Paraná Clube, eles entraram na Justiça alegando que o jogador era deles. Entramos num entendimento e quitamos uma dívida de R$ 20 mil com o empresário Beto Yousseff. O Marco Antônio está emprestado ao Atlético Goianiense, o Hernandes está no Bandeirantes-DF e o Marcelo está no Guaratinguetá num parceria de 50% para cada um caso o seu passe seja negociado.
Folha – Existe um grupo fazendo um levantamento paralelo de todas as transações efetuadas nos últimos anos no Londrina. O senhor tem conhecimento disso?
Guergoletto – Não. Mas os números são esses e não mudo um vírgula. Tem um jogador que eu esqueci de dizer. É o Reginaldo, que está no Santos. Não foi do meu tempo, mas a SAL cedeu o passe dele à Portuguesa Londrinense numa parceria de 50%. A Portuguesa vendeu o jogador e não acertou com o Londrina. O Reginaldo estava na relação dos 40 jogadores da SAL. A Lusinha emprestou para o Juventus, que repassou para o Santos. A Lusinha já recebeu o dinheiro e não repassou para o Londrina. Estamos acionando na Justiça através do advogado Osvaldo Sestario Filho. A idéia é entrar com uma penhora em cima da Portuguesa. Finalizando com a lista de jogadores, o Tadashi, o juvenil André, o Rafael e o Adriano eles foram negociados através do Agostinho e do Amaral através de uma dívida de R$ 130 mil para pessoas que emprestaram dinheiro para eu colocar no Londrina. Com isso, amortiza do crédito que eu tenho no Londrina. Se alguém tiver esse dinheiro à vista e se interessar fica com esses jogadores. Se os quatro não der em nada, ninguém vai falar nada. Mas se algum deles explodir, pô, jogaram fora, vão dizer. Se tiver alguém que dê esse dinheiro agora, eu passo. Quando se trata de jovens, 95% das transações não dão certo. Isso vai ser colocado na reunião do Conselho.
Folha – Qual seria, então, o crédito do senhor no Londrina?
Guergoletto – Tenho R$ 320 mil, mas tem que descontar aqueles R$ 130 mil. Esse é o meu crédito no Londrina, sem nenhuma correção.
Folha – O senhor pretende cobrar esse dinheiro de alguma forma?
Guergoletto – Eu tenho que torcer para que o Londrina revele algum jogador e se amanhã ou depois puder me pagar ficaria muito feliz. Agora, acionar na Justiça, não. Eu perdi uma chácara, um carro, um consórcio, tive inúmeros protestos, ainda tenho um que estou quitando. No acerto com o Val de Mello (técnico) foi pego um carro na Cipasa. Eu não paguei ainda e estou sendo protestado. A dívida não é do Londrina, é do Célio. Só aqui tem R$ 18 mil de protesto – exibe as notas promissórias. Por exemplo, a imobilária Nilson Amâncio quis penhorar minha casa, a Cipasa penhorou uma promissória minha porque eles não pegam nada do Londrina.
Folha – A parceria no Londrina foi um erro?
Guergoletto – Quando fizemos a parceria, nem assinei a parceira, assinei como testemunha, quem assinou foi o presidente do Londrina e o presidente do Conselho. Nós sempre discutimos, eu Amaral, o Zé Café, o Agostinho, o Sestario, sempre em cinco pessoas. Fizemos um levantamento da vida dos dois empresários – Ciro Antônio Rios e Roberto Campi –, eu mesmo tirei informação com o Nivaldo Baldo, que é um fisioterapeuta renomado no Brasil. As informçaões foram as melhores possíveis. Fizemos a parceira no sentido de vir o melhor para o Londrina. Não entregaríamos o Londrina na mão de pessoas se soubéssemos que fosse acontecer isso. É como um casamento: você vai para o altar achando que vai ser a transformação da sua vida, passa um tempo, não dá certo e cada um vai cuidar da sua vida.