Arquiteto vê parceria privada como solução para o Café
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domingo, 14 de dezembro de 2014
Thiago Mossini<br> Reportagem Local 
Entre os calos da Prefeitura de Londrina, um incomoda muito e não só ao prefeito atual, Alexandre Kireeff (PSD), mas também aos seus antecessores: o estádio do Café. Quase um quarentão, ele estampa as marcas de décadas sem a devida manutenção e está anos luz atrás das modernas arenas levantadas no país nos últimos anos por causa da Copa do Mundo. Virou objetivo de protestos de torcedores e dirigentes, e motivo de chacota na imprensa nacional quando recebe grandes jogos, principalmente pelo gramado ruim e pela "iluminação de boate".
A FOLHA convidou um dos arquitetos que participou ativamente da construção de arenas da Copa para dar seu parecer sobre o Café. Danilo Carvalho reforçou a falta de segurança do estádio, mas deixou claro que o custo de uma reforma não é alto e que é possível readaptá-lo para que fique mais moderno e possa ser palco de grandes eventos que poderiam garantir sua operacionalização ao longo do ano. Porém, acha tudo viável desde que haja uma parceria com alguma empresa privada.
Carvalho projetou a Arena das Dunas, em Natal, a mais barata de todas usadas na Copa - foi orçada em R$ 408 milhões e concluída com R$ 406 milhões, sendo 100% de verba privada -, a Arena da Amazônia, em Manaus, teve participação na Arena de Cuiabá e ainda foi contratado para analisar o projeto do Mineirão. Ele é um dos sócios da SD Plan, empresa que atua não só em projetos de obras, mas que também dá consultoria para a captação de recursos e na busca por empresa que possam operacionalizar a obra pronta. Seu próximo projeto esportivo é o novo estádio do Guarani.
O arquiteto lembra que o Ministério do Esporte está promovendo a qualificação dos estádios brasileiros, mas ele ressalta que isso é muito pouco e que seria preciso uma atuação mais presente do órgão no auxílio dos clubes e prefeituras. "Vejo que é importante não só qualificar, mas orientar em que precisam mudar. O projeto ideal seria analisar, qualificar, sugerir mudanças e apontar soluções para que seja resolvido", apontou.
Andando pelo estádio do Café, ele apontou a segurança e acessibilidade como principais carências do estádio. "O Café é todo feito num conceito antigo de estrutura. Deve ter sido feito na ideia de pista olímpica, por isso é ovalado desta forma. Há um espaçamento bem longe das arquibancadas e foge completamente do conceito moderno de estádio, em que a arquibancada fica bem próxima do gramado, trazendo uma qualidade visual para o jogo", analisou. "Eles continuam tendo o conceito de dividir a torcida do gramado por muros, grades, pregos e o próprio fosso. Isso é regra mandatória da Fifa não ter mais fosso. Porque o centro do gramado em uma emergência, caos, incêndio, briga, é ponto de segurança de evacuação", completou.
A recomendação da Fifa é de que o estádio seja evacuado em oito minutos. O arquiteto acredita ser difícil que isso ocorra no Café. "Você tem que ter uma média de oito minutos de evacuação entre o ponto mais desfavorável até o ponto de saída. Claramente no ponto de saída aqui você fica bem distante para ter essa evacuação. A parte de segurança aqui é precária se acontecer alguma emergência", ressaltou Carvalho, lembrando ainda que o espaçamento entre as cadeiras e o tamanho diferente dos degraus são complicadores, além da corrosão na estrutura metálica que cobre o estádio e a iluminação precária neste local. "As pessoas vão se confundir com a altura dos degraus, podem cair e ser pisoteadas".
No quesito estacionamento, o estádio também deixa a desejar. A recomendação da Fifa é de que seja uma vaga para cada dez pessoas, o que exigiria do Café pelo menos três mil vagas. No entanto, segundo o site da Prefeitura, são apenas 800.
Um dos pontos críticos do estádio é a iluminação. O sistema utilizado no Café é o de torres. Além disso, a estrutura da cobertura esconde boa parte das luzes das torres deste setor, impedindo que a iluminação chegue de forma eficaz ao gramado. "A iluminação de torre é a que você pior distribui e, além disso, elas são muito distantes do gramado. Você gasta muito mais em quantidade de projetores para ter uma eficiência muito menor. O ideal seria distribuir longitudinalmente do gramado e mais próximo, gastaria menos projetores. Hoje, com certeza não tem 500 Lux aqui e o ideal para televisionamento é 3 mil Lux", constatou. E com razão. No mês passado, a Fundação de Esportes de Londrina (FEL), comemorou ter levado a iluminação de 50 para 152 Lux.
Ir de cadeira de rodas ao Café exige malabarismos. O estádio deixa e muito a desejar quando o assunto é acessibilidade. "A acessibilidade aqui é zero. Não é democrático com a população. Você não tem rampas, não tem espaço. Ele tem que acessar bares, banheiros e aqui não tem isso", avaliou. "São obras simples. Mas as pessoas falam de estádio, comparam com obras superfaturadas de Copa do Mundo e na verdade você consegue fazer tudo com obras simples", comentou.
Danilo Carvalho aponta algumas medidas para mudar o Café. Uma delas é aproximar as arquibancadas inferiores do gramado, eliminado o fosso, tornando o campo como ponto de fuga e segurança. "Retirar o fosso, melhorar as arquibancadas e o fluxo de gente, dividir o público da arquibancada superior. Mineirão, Beira Rio e Morumbi são estádios com conceito antigo de pista de atletismo, que demolimos a arquibancada inferior, a reposicionamos e aproximamos do gramado", apontou.
O arquiteto lembrou também de obras simples que podem dar conforto e segurança. "Melhorar a parte de cobertura, cobrindo outra parte da arquibancada, melhoria de conforto com complemento de assentos. Isso melhora até a parte de segurança, porque cada um tem seu assento. Pode ser que um ou outro seja quebrado em algum evento, mas o hábito de quem vai usando o estádio vai melhorando ao longo do tempo", disse.
Para Carvalho, é possível readaptar o Café sem ter que demoli-lo para que fique mais moderno. Carvalho ressaltou que isso deve ser encarado como necessidade e não como gasto. "É uma questão de responsabilidade, não é pensar 'gastar dinheiro no estádio e qual o beneficio para a Prefeitura?' O benefício é de salvaguardar a segurança das pessoas. Isso aqui é um equipamento urbano, que tem que ser usado e tem que dar a devida manutenção. Hoje, vejo pouca responsabilidade em relação a isso, em questão de manutenção de um modo geral nos estádios públicos e privados também. Se o torcedor não tem banheiro limpo, não tem segurança, se não é bem atendido, ele acha que tem o direito de destruir o estádio, de brigar, de trazer bomba, é um problema em cadeia", avaliou.
Para finalizar, Carvalho apontou a terceirização do estádio como forma de garantir essa modernização e sua consequente operacionalização para que dê lucro e se mantenha. "A gente sabe hoje que futebol só pelo futebol é difícil manter o custo de uma operação do estádio. Você deve ter um equipamento desse para trazer shows, eventos, mas primeiro tem que ter um equipamento acessível e capaz de receber, porque daí traz receita. Hoje, é só custo e a conta fica só para a Prefeitura. Se ela faz uma parceria público-privada com um operador do estádio, que ele faça os investimentos, programe todo o calendário do estádio e gere receita, ao invés dele (Café) virar custo para a Prefeitura, vira receita. Mas alguém precisa fazer esse projeto, porque dificilmente o poder público tem o conhecimento específico de alguns assuntos, vai da iniciativa privada dizer eu tenho isso e vai ser bom para você", concluiu.


