Nuremberg - Vencer os alemães diante de quase 70 mil entusiasmados torcedores é um desafio e tanto. Mas não é impossível. Os argentinos acreditam nisso de verdade e pode-se notar no rosto de cada jogador da equipe do técnico José Pekerman uma sincera confiança. Mas para superar os anfitriões e continuar sonhando com o terceiro título mundial, a Argentina vai precisar que seu maestro passe mais tempo acordado do que dormindo em campo, enfim, que comande o time no Estádio Olímpico de Berlim. Sim, porque até agora, apesar da bela campanha argentina, Riquelme, camisa 10 da seleção, ainda não retribuiu a confiança que o treinador deposita em seu futebol.
Pekerman montou todo o esquema de jogo da seleção argentina em torno de Riquelme. As jogadas passam obrigatoriamente pelos pés do jogador do Villarreal antes de chegar ao ataque. Poucos tiveram até agora tanto contato com a bola nesta Copa quanto o argentino. É verdade que Riquelme já mostrou seu talento. Contra a Costa do Marfim, na estréia, teve atuação discreta, mas saíram de seus pés os passes para os dois gols, um deles, para Saviola, de alta categoria. Mas todos esperavam e continuam esperando mais do jogador tímido, até mesmo melancólico, que nasceu em San Fernando (província de Buenos Aires), virou ídolo do Boca Juniores e hoje, aos 28 anos, continua tentando se firmar no futebol europeu.
''Riquelme, como todo grande jogador, é sempre muito marcado nas partidas. Nem sempre encontra espaços para jogar. Mas para mim está fazendo uma grande Copa'', afirma Pekerman, saindo em defesa de seu pupilo.
Riquelme sabe que vem sendo questionado. Mas não se abala. Diz que vai manter seu estilo, pois foi assim que sempre se comportou desde que começou a jogar. ''Em todas as equipes que atuei sempre tive a responsabilidade de armar as jogadas. Portanto, sempre sou muito vigiado. Estou acostumado a ter esta responsabilidade. E ela não me assusta'', garante o jogador.
Mas pelo visto, Riquelme terá que encontrar ele mesmo os espaços para jogar amanhã. Os alemães sabem que parando o articulador argentino terão meio caminho andado para vencer e chegar às semifinais. Um raciocínio lógico, já que com Riquelme anulado, a bola não chegará tanto ao ataque, este sim o setor que mais preocupa o time de Klinsmann.
Apesar de do lado alemão já terem vazado informações de que nenhum argentino receberá marcação especial, ninguém na Argentina acredita nisso. Muitos apostam que Frings, um dos destaques do time alemão no Mundial, no mínimo, vigiará Riquelme de perto.
Na verdade, o que mais preocupa os argentinos é o estado de espírito de Riquelme. Ninguém discute suas qualidades, sua categoria, sua visão de jogo. O problema maior é a dificuldade do jogador de se superar diante de grandes desafios. Na complicada partida contra o México, nas oitavas, Riquelme pouco fez. Conforme o jogo ia se tornando mais dramático, o jogador errava mais passes, mais se escondia. Na prorrogação, jogou praticamente de volante, à frente dos zagueiros, sem que Pekerman tivesse lhe pedido que recuasse.
Mesmo assim, em momento algum Pekerman sequer cogitou tirar seu camisa 10. Aliás, isso dificilmente acontecerá.
''Estamos muito unidos. Um ajudando o outro. Se não der para ficar com a bola como gosto, mudo meu estilo e jogo mais de primeira. O importante é a seleção'', afirma Riquelme, até agora o maior vaga-lume da Copa.

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