Albari RosaPaulo Cesar dá o exemplo ‘para quem luta por uma chance na vida’Imagine um árbitro de futebol que tenha coragem de marcar - corretamente - quatro pênaltis em uma partida, controlar um jogo tenso sem banalizar o uso do cartão amarelo e fazer um técnico à beira da histeria calar a boca com apenas um olhar. Acredite: ele existe e chama-se Paulo César de Oliveira, um jovem paulista que carrega no apito o futuro da arbitragem brasileira. A receita do sucesso? ‘‘Sou muito dedicado e recebo uma boa assistência’’, revela.
Com apenas 23 anos, Paulo César demonstra autoridade sem colocar dedo em riste. ‘‘Gosto de simplicidade’’, resume o juiz. ‘‘Se o jogador pensa apenas em praticar futebol, é meio caminho andado para uma boa arbitragem’’, acredita. No jogo entre Sport e Vasco, sábado, dia 29 de agosto, em Recife (PE), não foi bem assim. Sem tolerar a violência, o árbitro paulista expulsou dois atletas, marcou quatro pênaltis e saiu tranquilo do estádio da Ilha do Retiro.
O clima em Recife estava tenso devido à declaração politicamente incorreta do atacante vascaíno Edmundo, que havia chamado Nordeste e nordestino de ‘‘Paraíba’’ na semana anterior. Recém-refeito daquela partida, Paulo César foi escalado para o que poderia ser chamado de outro teste: apitar o primeiro confronto entre Atlético-PR e Fluminense após o quebra-pau do estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro (RJ), durante o campeonato brasileiro de 1996.
O jogo aconteceu na última quarta-feira, no estádio da Vila Capanema, em Curitiba. Paulo César só mostrou o primeiro cartão amarelo aos 11 minutos do segundo tempo. ‘‘Os jogadores colaboraram’’, minimiza o árbitro. Ele ainda mandou o treinador do Atlético, Abel Braga, exaltado junto ao campo, se controlar com um olhar incisivo e um balançar de cabeça. A reação foi positiva. Abel reconheceu que passava dos limites e até voltou para o banco.
‘‘O Paulo César tem evoluído gradativamente com personalidade e firmeza’’. A opinião é do árbitro-assistente Valter José dos Reis, credenciado pela Fifa, que trabalhou na partida de quarta-feira. ‘‘Eu o conheço desde 1995, quando o auxiliei na final do campeonato paulista de dente-de-leite e vi que ele iria longe na carreira’’, conta o bandeirinha. De fato, para quem se tornou juiz de futebol oficialmente há apenas três anos, a evolução foi rápida.
‘‘Tive a sorte de contar com o apoio do professor Gustavo Caetano Rogério, diretor da escola de árbitros da Federação Paulista de Futebol, e hoje recebo essa força dos assistentes’’, lembra Paulo César, que dos 17 aos 20 anos apitou jogos amadores no interior de São Paulo e de Minas Gerais. Natural de Cruzeiro, uma pequena cidade do Vale do Paraíba, o jovem agora sonha em ser um juiz de nível internacional.
‘‘Estou trabalhando para chegar lᒒ, anuncia o ex-atacante do Unidos de Cruzeiro que largou o time para ganhar uns trocados como juiz amador e ajudar a família de Vila Loyelo. As gorjetas viraram taxas de R$ 800,00 por partida. A mãe e três irmãos agora moram em uma casa melhor. O menino negro e pobre, que vendia frutas nas ruas aos seis anos, hoje apita os jogos da elite do futebol brasileiro e cursa o 1º ano de Educação Física. Paulo César de Oliveira deu um cartão vermelho para o determinismo social e quer mais: ‘‘Acho que o meu caso pode ajudar a abrir caminho para gente como eu, que luta pelo direito de ter uma chance na vida’’.

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