Em tempos de profissionalização cada vez maior dos clubes, com uma cobrança crescente de capacitação e resultados em cima de treinadores, preparadores e atletas, os árbitros de futebol vivem uma situação distinta. Não que não busquem a capacitação, mas porque não são considerados profissionais. Enquanto jogadores e treinadores têm contrato e recebem salário dos seus clubes, os árbitros recebem apenas a taxa de arbitragem paga pela equipe mandante.
Praticamente todos têm uma segunda profissão e consideram o trabalho nos gramados uma ocupação free-lancer, já que nem sempre são relacionados para jogos de meio ou de fim de semana. E quando são listados ainda correm o risco de perder o sorteio e ficam sem apitar por semanas seguidas.
Um exemplo recente foi o de Sandro Schmidt, que é de Apucarana. ''Ele ainda não apitou jogo nacional depois da Copa do Mundo. Entrou para quatro sorteios da Série C e perdeu todos'', contou o presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Paranaense de Futebol, Afonso Vitor de Oliveira.
A função de árbitro não é regulamentada pelo Conselho Federal de Mão-de-Obra (CFMO), por isso não é considerada uma profissão. Até entre apitadores famosos que trabalharam na Copa do Mundo isso acontece. Dos relacionados para os jogos do Mundial da Alemanha, apenas o japonês Toru Kamikawa era profissional.
No Paraná, todos os árbitros CBF (da Relação Nacional de Árbitros de Futebol Renaf) consultados pela Folha exercem uma profissão paralela. O londrinense Héber Roberto Lopes, por exemplo, é professor de educação física e estudante de jornalismo. Evandro Rogério Roman, de Céu Azul (51 quilômetros a oeste de Cascavel), também é professor e coordena o curso de educação física em uma faculdade de Cascavel. O maringaense Cleivaldo Bernardo trabalha como funcionário público em Paiçandu (10 quilômetros a leste de Maringá).
O próprio Afonso Vitor, que foi árbitro durante 26 anos (apitou dos 28 aos 52 anos e se aposentou em 1994), exerceu várias profissões enquanto era juiz. ''Fui contador por 17 anos, bancário dez anos e representante comercial durante 12 anos. Sempre tive uma segunda profissão e defendo que os colegas façam o mesmo, porque a função de árbitro é incerta. Ora se ganha um bom dinheiro e ora o cidadão pode ficar meses sem receber nada. E aí como é que fica a família?'', questionou.
Cheio de saúde e de ocupações, o veterano da arbitragem estadual ainda arruma tempo, aos 64 anos, para trabalhar como funcionário em um escritório de advocacia, tocar duas construções e ainda ser diretor de árbitros da Liga de Futebol de Londrina. ''Sou favorável a que todos exerçam outra profissão porque a carreira de um árbitro hoje é curta. O 'cara' chega a um certo nível só depois dos 30 anos e é obrigado pela Fifa a se aposentar compulsoriamente aos 45. No meu tempo pude apitar até os 52. Hoje não pode mais. Se o 'cara' não tiver uma outra profissão, como vai ganhar a vida depois dos 45?'', perguntou.

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