Rio - Recomeçar é sempre um desafio, ainda mais quando você tem 35 anos e joga futebol. Pois é justamente isso que Dodô está fazendo. E em alto nível. Perto de completar 36 anos (em maio), o atacante do Vasco desafia as previsões e volta a encantar com seu refinado toque de bola depois de ficar um ano e quatro meses afastado dos gramados.
Em setembro de 2008, o atacante foi suspenso por dois anos pelo uso da substância proibida fenproporex, detectada em partida de junho de 2007, quando atuava pelo Botafogo. Ainda hoje, o jogador mostra mágoa com o ex-clube, a quem culpa pela ingestão inadvertida da substância.
Dodô só começou a cumprir a pena em 2008, pois o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) o inocentou. A Fifa e a Agência Mundial Antidoping (WADA) não gostaram do veredicto e recorreram ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) com sede na Suíça.
Agência Estado - Como foi ficar um ano e meio sem jogar? O que você sentiu, ficou deprimido, como foi sua rotina?
Dodô - Além de continuar treinando, procurei fazer o que não conseguia quando jogava. Ficar com a família, fazer programa de marido e mulher, sair, viajar, curtir as crianças, levá-las para a escola. E jogar as peladas com os amigos.
AE - Em algum momento pensou em parar definitivamente ou sempre teve a certeza de que seria capaz de voltar para um grande clube, e em alto nível?
Dodô - Nunca tive dúvida de que voltaria a jogar. A minha incerteza era sobre onde e quando seria isso. Foi meio complicado, com um ano e quatro meses sem jogar. As dúvidas eram naturais. Mas esse começo tem sido muito bom. O pior já passou. Agradeço sempre a Deus.
AE - Que balanço você faz até o momento deste seu retorno?
Dodô - Joguei seis vezes só e tem sido muito bom. O Vasco está invicto, tenho feito os gols. Tem sido muito melhor do que o esperado. Ninguém imaginava esse começo, nem eu mesmo. Você espera jogar bem e tudo. Cheguei bem fisicamente. Mas você voltar depois de ficar tanto tempo sem jogar profissionalmente é muito difícil.
AE - Efetivamente, como foi o caso do doping? Você realmente ingeriu substância proibida? Foi mal orientado ou simplesmente tomou algo inadvertidamente?
Dodô - O Botafogo me deu um suplemento que estava contaminado com esse medicamento. Veio do laboratório de manipulação que o clube comprava os medicamentos. Causou todo esse problema, esse transtorno.
AE - Isso pesou na decisão de não voltar ao Botafogo?
Dodô - Não é que pesou na decisão. Eu queria voltar para um lugar novo, uma situação nova, começar de novo de uma forma diferente. Isso foi fundamental para eu vir para o Vasco.
AE - Qual foi sua reação quando ficou sabendo do resultado?
Dodô - Eu fiquei totalmente surpreso com que aconteceu. Aos 33 anos passar por aquilo. Ainda mais doping. Fiquei surpreso, mas tem de conviver, tem de ter força, muita fé em Deus e o apoio da família.
AE - Quando foi absolvido pelo STJD, como se sentiu? E depois, quando o TAS o suspendeu por dois anos?
Dodô - Depois eu fiquei feliz com a absolvição. Mas quando o caso foi para a Suíça, eu tinha certeza que seria punido. Mas, em nenhum momento, eu pensei em desistir, em nenhum momento achei que ia terminar. Até porque foi uma coisa que não tive responsabilidade, sabia da minha inocência.
AE - Como fez para manter a forma durante esse tempo? Qual foi sua rotina de exercícios?
Dodô - O Cláudio Pavanelli, fisiologista que está no Atlético Mineiro hoje, tem uma clínica de preparação física em São Paulo. Ele me deixou as portas abertas, com dois preparadores físicos. Eu ia todo dia, de segunda a sexta, treinar.
AE - Você sobreviveu nesse tempo de afastamento com seu dinheiro ou recebia algum salário do Fluminense?
Dodô - Eu tinha contrato por dois anos com o Fluminense. Eles não tinham nada a ver com o caso do doping, mas se dispuseram a pagar os meus salários durante seis meses se a punição durasse isso. Como passou de seis meses, fiquei vivendo do meu dinheiro. Mas sou tranquilo, sou na boa, não tenho excessos. Segurei bem.
AE - Apesar da idade, parece que nunca se machuca, está sempre bem fisicamente. Como faz?
Dodô - Isso ajudou bastante. Nunca tive uma lesão muscular grave, fratura, lesão nos joelhos, nada. Eu sou um cara que me cuido. Procuro me descansar depois dos jogos. Não cometo excessos, há muito tempo. Isso ajuda muito.
AE - Desse período de afastamento, o que você pode apontar como um aprendizado? O que tirou de positivo?
Dodô - Você aprende, ainda mais do jeito que aconteceu, uma grande injustiça. Se você se deprime, você para de jogar por uma coisa que não tem culpa. O prejudicado é somente você. Eu aprendi a conviver com isso. Fui forte, graças a Deus, junto com a minha família. Isso foi fundamental para continuar treinando todos os dias e me apresentar bem no Vasco.
AE - Nesse tempo, você negociou com algum clube, além de Vasco e Botafogo?
Dodô - Conversei com algumas equipes do Brasil. Mas escolhi o Vasco porque desde o primeiro momento foi uma conversa boa, o planejamento foi muito legal. Então, acho que foi a escolha certa.
AE - Como foi feito o seu contrato com o clube? O salário é baseado em incentivos, como jogos e gols marcados? E está (o salário) muito abaixo do que você recebia anteriormente, dada as dúvidas sobre o seu retorno?
Dodô - É um contrato normal até o fim do ano. É claro que não foi igual ao que seria normalmente. Eu estava há um ano e meio sem jogar. Todo jogador quer ganhar mais do que ganha, mas foi um acordo bom, foi justo.
AE - Que avaliação você faz do elenco do Vasco? O título carioca é bem palpável, mas Campeonato Brasileiro é bem mais complicado, não é?
Dodô - É muito cedo para falar de elenco. Estamos no começo da temporada, todos os clubes estão nos regionais. Temos de procurar nos acertar. É cedo para falar de Campeonato Brasileiro. É muito para a frente, vamos analisar o que vamos precisar. O foco nosso agora é conquistar o Estadual.

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